Movimentos Sociais

O humor em tempos de cólera: cartunistas expõem no Fórum das Resistências

Clube de Cultura de Porto Alegre reúne charges feitas para a segunda edição do FSM, em 2002, e desenhos de mostra censurada no ano passado. O conjunto revela a diferença na maneira de ironizar a realidade do Brasil e do mundo ao longo de duas décadas .

24/01/2020 17:34

(Juan Ortiz)

Créditos da foto: (Juan Ortiz)

 
As caricaturas afixadas na parede decoram o interior do Clube de Cultura – instituição fundada há quase 70 anos por judeus de esquerda em Porto Alegre, cuja história é um marco de criatividade, organização e resistência na cidade.O corredor de entrada, que se abre para a movimentada Rua Ramiro Barcelos, ainda estava praticamente vazio às 18h45 de terça-feira, dia 22. O agito viria só mais tarde. Naquela hora, apenas uma pessoa interagia com as charges: Marlene Reinaldo, voluntária do clube e organizadora do espaço. Coube a ela a tarefa de receber os convidados enquanto tentava segurar os cartazes para que não saíssem voando com a ventania que soprava marcando o fim de uma tarde quente no verão da capital gaúcha.

O bate-papo com os Grafistas Associados do Rio Grande do Sul (Grafar) só começaria oficialmente por volta das 20h, com uma hora de atraso da qual ninguém pareceu sentir falta. Era uma noite de conversa entre amigos.

Marlene me explicou que aquelas ilustrações tinham sido feitas para o 2° Fórum Social Mundial, realizado entre janeiro e fevereiro de 2002. O prefeito da época era Tarso Genro (PT) e, uns meses depois, o país elegeu Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República. A esquerda estava chegando ao poder, e as sátiras contra o imperialismo estadunidense – presentes em várias das imagens expostas – refletiam a contestação da hegemonia neoliberal. Esse era o combustível que abastecia o humor e também o orgulho dos frequentadores do FSM, concebido como contraponto ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, a meca dos empresários capitalistas criticados pelas charges.

Bem diferente do ambiente que paira pelo agora Fórum Social das Resistências – que a começar pelo nome, mostra que a preocupação mudou. Hoje se debate menos sobre a viabilização de um modelo de sociedade ideal, e há grande preocupação com a garantia de direitos democráticos fundamentais, que vêm sendo atacados abertamente. "Os cartazes de 2002 apontavam para um patamar maior de civilização… E, na verdade, caímos no poço", resumiu mais tarde o veterano jornalista e cartunista Celso Schroder. "Tem um elemento hoje que eu não via nem mesmo durante a ditadura militar: o ódio explícito."

(Juan Ortiz)

É uma comparação que pode ser vista colada nas paredes, porque na sala seguinte do Clube de Cultura há outra coleção de caricaturas, mais recente. A exposição "Independência em Risco" foi censurada em setembro do ano passado pela presidente da Câmara dos Vereadores de Porto Alegre, Mônica Leal (PP), que alegou que o conteúdo era "ofensivo" e um "desrespeito" com o presidente Jair Bolsonaro. Antes dela, o vereador Valter Nagelstein (MDB) havia manifestado seu desgosto com as obras por meio de um vídeo publicado nas redes sociais. "Eles não só censuraram a exposição, como acorrentaram os painéis onde estavam afixadas as obras", lembra o advogado Mario Madureira, membro da Associação dos Juristas pela Democracia (Adjurd), entidade que conseguiu reabrir a mostra na casa legislativa através de um pedido na Justiça.

As charges e tirinhas tiravam sarro de figuras como o ex-juiz e ministro da Justiça, Sergio Moro, do próprio Bolsonaro e também do presidente norte-americano, Donald Trump – ironizar a relação dos Estados Unidos com o resto do mundo segue sendo necessário para os adeptos do lema “Um outro mundo é possível”, que ainda embala o Fórum.

Conversei rapidamente com o presidente da Grafar, Leandro Bierhals (ou apenas Hals) sobre a mudança no trabalho dos cartunistas ao longo das últimas duas décadas. "No começo, a gente estava focado em uma questão mais global. E agora tivemos que voltar para uma questão doméstica. Tem um desmantelamento do mínimo estado social que havia sido construído".

Outro sinal dos tempos: no debate de abertura do conjunto de exposições, que reuniu, além de Schroder e Madureira, o cartunista Eugênio Neves, quase não se falou de arte gráfica ou de caricaturas. O tom da conversa era o conturbado ambiente político, a crise democrática, a ascensão do fascismo, as possibilidades de ação social. "A gente regrediu mais do que nós já estivemos. É muito complicado", concluiu Neves.

(Juan Ortiz)

Rir é um bom remédio, mas furar a bolha é fundamental

Poder observar as duas exposições juntas traz reflexões importantes para a cidadania. "Nós entendemos que a arte é um caminho fundamental para a conscientização da população, para desvendar os engodos narrativos que servem para distrair, confundir e interditar o discernimento", observa Madureira.

O problema foi detectado por Hals, que apontou a dificuldade de fazer as charges circularem para fora dos espaços da classe média progressista: "No Fórum Social das Resistências, a gente sabe que o pessoal tem uma posição parecida com a nossa. Temos que começar a pensar em atingir o povão, furar a bolha".

De fato, no Clube de Cultura, naquela noite, os únicos rostos representantes da periferia eram as imagens da mostra "ManasLisas". Nela, o fotógrafo Jorge Aguiar retrata mulheres e meninas do bairro Umbu, na cidade de Alvorada, que posam detrás de molduras de quadros em volta do rosto – uma brincadeira com a estética da Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci.

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