Movimentos Sociais

Pacifista dos EUA faz contagem regressiva para início de conflito

25/01/2003 00:00

O isolamento político dos Estados Unidos pelos países europeus é uma das melhores possibilidades de evitar uma nova guerra no Iraque que está entrando em processo de contagem regressiva. Essas foram duas das principais conclusões da primeira conferência do Fórum Social Mundial, que debateu os riscos da militarização e da guerra, na tarde de sexta (dia 24), em Porto Alegre. Participaram da conferência, a ativista norte-americana, Medea Benjamin, da organização Global Exchange, o escritor paquistanês radicado na Grã-Bretanha, Tariq Ali, o filósofo Istvan Mészaros, marxista húngaro professor em Sussex, e o economista egípcio Samir Amin, diretor do Fórum do Terceiro Mundo em Dakar (Senegal) e do Fórum Mundial de Alternativas. A mediação ficou a cargo do sociólogo brasileiro Emir Sader.


As primeiras palavras de Medea Benjamin destacaram o sentido de urgência das manifestações contra a guerra no Iraque. Ela foi aplaudida de pé ao final, por cerca de 20 mil pessoas que ocuparam quase todo o ginásio Gigantinho. Num discurso vibrante, de efeito calculado, Medea fez a contagem regressiva dos movimentos mundiais que, nos próximos quatro dias, ou 96 horas, podem marcar para 15 de fevereiro de 2003 o início da ofensiva dos Estados Unidos contra a população iraquiana.


“Nós sabemos que na segunda-feira, dia 27, a ONU, que está sob forte pressão, vai apresentar um relatório ambíguo sobre a disposição do Iraque de se deixar inspecionar. Na terça, dia 28, o presidente George Bush se dirigirá ao Congresso para falar à nação e ele dirá, com base nesse relatório ambíguo da ONU, que os Estados Unidos estão preparados para a guerra”.


Rápido assim, simples assim. A terceira edição do Fórum Social Mundial se encerra justamente no dia 28, quando pacifistas de todos os idiomas poderão ser informados, por Bush, de uma guerra iminente. Dezenas de milhares de pacifistas, representantes de 126 países, estão nesta semana na capital gaúcha. Medea Benjamin é fundadora da Global Exchange, uma organização internacional de direitos humanos que, em prol da reconciliação entre os povos, já levou para visitar o Afeganistão e o Iraque dezenas de parentes das vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Ao final da conferência, ela afirmou que vai voltar fortalecida para a casa, que aprendeu com os participantes do FSM como transformar desespero e cinismo em esperança, mas já sabe que será muito difícil conter a disposição para a guerra dentro do seu país.


Cadê os malditos democratas?


Segundo a ativista, o incentivo ao movimento bélico se condensa com uma população com medo do terror (o pânico é manipulado há meses por Bush), uma mídia financiada por grandes corporações que aposta no sensacionalismo para vender e ganhar audiência, e a ausência, por exemplo, de uma força política como o Partido dos Trabalhadores.


“Não temos o PT nos Estados Unidos”, disse Medea na sexta, possivelmente já prevendo os aplausos da multidão brasileira reunida em Porto Alegre, grande parte dela eleitora de Lula. A conferencista norte-americana provocou risos quando lembrou que as manifestações de rua pela paz, em Washington, costumam erguer cartazes com os dizeres “Cadê os malditos democratas?”


Até por que pacifistas e militantes de esquerda são movidos a otimismo, Medea Benjamin fez ao microfone uma lista de grandes aliados na população norte-americana que agora correm contra o tempo para evitar a guerra contra o Iraque: “Temos os religiosos católicos, que ouvem o papa afirmar que bombardear o Iraque é imoral, temos os metodistas, que vêem a guerra como injustificável, temos adolescentes em escolas secundárias e também aposentados se engajando num movimento de desobediência civil, temos ambientalistas protestando na frente de postos de gasolina e até nudistas contra a guerra, que se reúnem em locais públicos, tiram a roupa, fazem fotos e as distribuem para chamar a atenção do mundo”.


Imperialismo fundamentalista


Os demais conferencistas somaram-se a Benjamin nas críticas à política do governo Bush. Tariq Ali definiu a política dos EUA como “imperialismo fundamentalista e força mais perigosa do planeta”, Mészaros lembrou a eleição duvidosa de Bush e a estréia da destruição atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, e Amin foi ainda mais incisivo. Para o ativista egípcio, “os EUA fazem chantagem permanente sobre todos os países que tentam resistir à sua pilhagem, são o Estado bandido número 1”, de escolhas políticas semelhantes “à Alemanha nazista”. Insurgir-se contra a Alca, segundo Samir Amin, “é lutar pelo desmantelamento da hegemonia americana no continente”. A ameaça ao Iraque atingiria sobretudo a Europa, supostamente transformada em vassalo do governo de Bush.


Numa tarde de frases de efeito contadas em dezenas, coube a Tariq Ali apontar duas alternativas para deter a guerra: ou se produz uma nova intifada na totalidade do mundo árabe, hipótese que ele mesmo considera improvável, ou se força o total isolamento dos Estados Unidos por parte da Europa. O paquistanês, que também escreve para cinema e teatro e dirige a revista inglesa New Left Review, foi bastante aplaudido nesse momento e também quando frisou que camponeses cristãos e muçulmanos têm as mesmas lutas. Segundo Ali, as ações do brasileiro MST já são bastante famosas internacionalmente, e várias organizações de agricultores sem-terra pediram a ele um favor antes da viagem ao Brasil: “Transmita ao MST o nosso respeito e o nosso amor”.


Um dos nomes mais importantes do terceiro FSM, ensaísta premiado desde os anos 50 e forte crítico do controle social exercido pelo sistema capitalista, Istvan Mészaros surpreendeu a platéia ao ler em português o seu discurso, parte de um capítulo do livro “O Século XXI: Socialismo ou Barbárie”, que a Boitempo Editoral acaba de lançar, pela coleção Mundo do Trabalho. “Se não há futuro para os movimentos radicais de massas, não há futuro para a humanidade”, disse, desejando longa vida a processos como o do Fórum Social. E fez o trocadilho mais contundente do dia: sem socialismo no futuro, prevê o filósofo húngaro discípulo de Georg Lukács, o planeta enfrentará a barbárie... se tiver sorte. Porque mais do que a barbárie, é o extermínio da humanidade a conseqüência mais inerente ao desenvolvimento sem freios do capital.






Conteúdo Relacionado