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Prêmios Nobel da Paz fazem manifesto contra guerra no II FSM

Adolfo Pérez Esquivel (1980), Rigoberta Menchú Tum (1992) e Morten Rostrup, presidente do Comitê Internacional Médicos Sem Fronteiras, entidade premiada em 1999, estiveram na conferência "Um mundo sem guerras é possível"

04/02/2002 00:00

(Reprodução/bit.ly/3std5nK)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3std5nK)

 

Um organismo internacional com poderes para mediar conflitos, a eliminação da indústria de armamentos, a anulação das dívidas externas ilegítimas e a extinção dos paraísos fiscais foram as propostas do manifesto final do Seminário “Um mundo sem guerras é possível”, apresentado na noite deste domingo (03/02), durante o II Fórum Social Mundial. Além do governador Olívio Dutra, o painel de encerramento contou com a presença de ganhadores do Prêmio Nobel da Paz: o argentino Adolfo Pérez Esquivel (1980), a guatemalteca Rigoberta Menchú Tum (1992) e Morten Rostrup, presidente do Comitê Internacional Médicos Sem Fronteiras, entidade premiada em 1990.

O manifesto será entregue á ONU e aos líderes de regiões que vivem em conflito e foram temas de debates no seminário: País Basco, Chiapas, Palestina e Colômbia.

Cada um dos debatedores expôs o que considera essencial para o fim dos conflitos armados pelo mundo. Pérez Esquivel disse ser essencial mais “paz no coração” das pessoas, Rigoberta exigiu a criação de uma agenda de mobilizações e Rostrup incentivou a população a esclarecer cada vez mais a realidade e pressionar os líderes mundiais –chamados por ele de “decision-makers”.

O lingüista norte-americano e professor da MIT (Massachussets Institute of Technology), Noam Chomsky proferiu a palestra de abertura do seminário "Um mundo sem guerras é possível", no dia 1º de fevereiro.Terrorismo econômico, urgência e um pouco de culpa

Pérez Esquivel criticou duramente o “terrorismo econômico” que vivemos nos dias de hoje. “No dia 11 de setembro, ao mesmo tempo em que ocorriam os atentados às Torres Gêmeas, a FAO divulgou um dado impressionante: 35 mil crianças morrem de fome por dia em todo o mundo. O capitalismo nasceu sem coração”.

Para o argentino, o mundo inteiro vive com medo, mas o caminho para a paz existe. “Os EUA já instalaram uma base militar na Argentina. Pode haver uma outra Guerra do Vietnã na América Latina”. Ele deu, no término de sua fala, a receita para que a paz se estabeleça no mundo: “é preciso ter paz nos países, nas aldeias e principalmente dentro do coração”.

O presidente dos Médicos Sem Fronteiras contou uma experiência própria para ilustrar a verdadeira situação em que a população excluída vive. Ele testemunhou a morte de 200 mil pessoas nas florestas africanas em 1996. Na imprensa internacional, no entanto, a notícia não foi divulgada e fotos foram modificadas para maquiar o massacre.

“Eu sinceramente queria que Kofi Annan (secretário geral da ONU) tivesse contato direto com a situação de extremíssima urgência em que se encontra a África por causa da contaminação por HIV. O grande problema é que os líderes mundiais, aqueles que decidem os rumos do mundo, não têm idéia das conseqüências de seus atos, das calamidades provocadas pelas suas decisões erradas”.

Já Rigoberta relatou sua dramática experiência na Guatemala para dar idéia de como os líderes dos países tratam os países subdesenvolvidos. “Quando a ONU divulgou os números - 646 massacres, 440 aldeias destruídas e 200 mil mortos - do massacre ocorrido na Guerra da Guatemala que durou 36 anos, a Bolsa de Nova Iorque não caiu. Sabe por quê? Porque os mortos têm categorias”.

Ela não isentou ninguém da responsabilidade pela situação em que vivemos hoje. “Nós temos um pouco de culpa por não nos mobilizarmos”. A líder latino-americana insistiu na necessidade da criação de uma agenda de discussões, com um trabalho mais efetivo para que a população não sofra mais com as guerras. “Nossa dignidade não têm preço. Pensemos em nossa gente. Assim como os indígenas, nós temos que viver exatamente como querem”.Leia a íntegra do Manifesto por um mundo sem guerras

Um mundo com guerras – esse tem sido o mundo nos últimos séculos. Guerras coloniais, guerras imperiais, guerras interimperialistas, guerras étnicas, guerras religiosas – a guerra deixou de ser um meio para se constituir numa forma de ser de vários países, como instrumento de conquista, de fortalecimento de suas economias, de imposição de sua hegemonia imperial.

Um mundo com guerras tem sido o mundo do domínio da busca ilimitada de lucros, da exploração desenfreada dos recursos naturais, da superexploração dos trabalhadores, do uso da tecnologia para acumular mais riqueza e não para a conquista do bem estar da humanidade.

O fim da “guerra fria” e da bipolaridade entre duas superpotências não significou o advento da paz e da resolução harmoniosa dos conflitos. Ao contrário, representou o recrudescimento das aventuras bélicas, em particular com as guerras do Golfo, da Iugoslávia e do Afeganistão – na realidade massacres de adversários claramente inferiores e principalmente bombardeios de populações civis.

Os atentados terroristas de 11 de setembro tiveram como resposta a instauração do terror como forma de relação entre os países, em substituição do direito internacional, até ali precariamente vigente. Os EUA – protagonistas principais, diretos ou indiretos, de praticamente todos os conflitos bélicos existentes – passaram a impor pela força sua vontade, pelo bombardeio, pelas ameaças, pela assunção do papel de juiz e de polícia do mundo.

Enquanto isso, um clima de nova “guerra fria” foi instalado no mundo. A Palestina é devastada, a Operação Colômbia se aprofunda, as relações entre a Índia e o Paquistão se deterioram, vários governos assumem a postura de militarização dos conflitos – como, entre outros, o mexicano em relação a Chiapas e o espanhol em relação ao Pais Vasco. As Nações Unidas são definitivamente esvaziadas, as outras potências capitalistas e quase todos os outros governos do mundo delegam nos EUA a função de agentes do terror permanente ou toleram a generalização do arbítrio e da violência, como que a dizer ao mundo que a lei do mais forte se imporá sempre.

O aumento da desigualdade no mundo, a extensão do processo de exclusão social e de miséria funcionam cada vez mais como caldo de cultivo para que conflitos que poderiam ser resolvidos de forma pacífica desemboquem em conflitos violentos, reforçando o clima de guerra que tanto interessa aos que a promovem e lucram com ela.

E no entanto, UM MUNDO SEM GUERRAS É POSSÍVEL.. Possível e indispensável, se a humanidade quiser ter um futuro.

UM MUNDO SEM GUERRAS É POSSÍVEL, à condição da existência de um organismo internacional com poder e legitimidade para intermediar os conflitos, com justiça e equidade, que represente a vontade majoritária da humanidade de forma democrática. Esse organismo pode ser a ONU, caso seja democratizada, terminando o poder de veto de potencias imperiais que se arvoram o direito de ser membros permanentes do Conselho de Segurança.

UM MUNDO SEM GUERRAS é possível, se se elimina a indústria de armamentos e se seus milionários recursos forem transferidos para atender as necessidades básicas da maioria da humanidade – hoje marginalizada do acesso ao que o mundo têm condições de produzir.

UM MUNDO SEM GUERRAS É POSSÍVEL se forem abolidas as dívidas externas ilegítimas e eliminados os “paraísos fiscais”, onde são lavados os polpudos lucros da indústria bélica – entre outras fortunas clandestinas – e se destroem as redes de financiamento de grande parte dos conflitos mundiais, abastecidos pelo armamento produzido pelas maiores potências econômicas do mundo, as mesmas que detêm o poder de veto nas Nações Unidas.

Finalmente, UM MUNDO SEM GUERRAS É POSSÍVEL, se o mundo é reconstruído sem potências hegemônicas, atendendo à multiplicidade e à diversidade da humanidade, sem predomínio de umas sobre as outras. UM MUNDO SEM GUERRAS será um mundo sem hegemonismos, será um mundo com um poder mundial democratizado, apoiado em processos de integração regional, que expresse os interesses da grande maioria da humanidade.

UM MUNDO SEM GUERRAS É POSSÍVEL E NECESSÁRIO para que os homens e as mulheres vivam em paz, em harmonia, em condições de justiça e de igualdade, para que a humanidade se aproprie do seu destino e construa UM MUNDO NO QUAL CAIBAM TODOS OS MUNDOS.

Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

3 de fevereiro de 2002
II Fórum Social Mundial

Governo do Estado do Rio Grande do Sul

CLACSO – Conselho Latino-americano de Ciências Sociais

CUT – Central Única dos Trabalhadores

Adolfo Perez Esquivel

Rigoberta Menchú Tum

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