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Resistência: MST faz vigília contra despejos de 800 famílias no Paraná

 

08/01/2020 10:18

(Reprodução/MST)

Créditos da foto: (Reprodução/MST)

 
De um lado, o governo Bolsonaro passou todo o ano de 2019 sem promover nenhum novo assentamento na reforma agrária, e já avisou que não está interessado nisso.

De outro, as polícias dos governos estaduais promovem despejos das famílias que já estão acampadas à espera de um lote, muitas vezes com o uso de violência.

Este lado do Brasil rural desapareceu da mídia, dedicada agora apenas à cobertura do agronegócio. Não é mais notícia.

Só no Paraná, são 7 mil famílias vivendo nos acampamentos.

Em Cascavel, cidade do oeste do Paraná que abrigou o 1º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 1984, 800 famílias ameaçadas de despejo montaram desde o dia 28 de dezembro a “Vigília da Resistência Camponesa: por Terra, Vida e Dignidade”.

Todos os dias, das 10 às 15 horas, os sem terra de três acampamentos vão para as margens da BR-277, na altura do quilômetro 557, pedir apoio na sua luta para permanecer na terra.

Há tempos afastado das ruas e dos campos por dificuldades físicas, só fiquei sabendo do que estava acontecendo no Paraná quando fui ver o jogo entre os amigos de Lula e Chico Buarque, na festa de fim de ano do MST, em Guararema, a 80 quilômetros de São Paulo.

Lá reencontrei o amigo Roberto Baggio, coordenador estadual do MST-PR, que veio me pedir para gravar um depoimento sobre esta luta histórica dos sem terra pela implantação da reforma agrária.

Ao final, pedi a ele um relato sobre a vigília e a situação dos sem-terra acampados, cada vez mais ameaçados pelo governador do Paraná, Ratinho Junior, aliado de Bolsonaro, único jeito de saber o que se passa fora do eixo global São Paulo-Brasília-Rio, como se o resto do país não existisse.

Nesta terça-feira, recebi as informações da assessora de imprensa Ednubia Ghisi, que transcrevo abaixo.

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“A mobilização já chegou a reunir mais de 300 pessoas num único dia, com apoio de parlamentares, lideranças religiosas e figuras nacionais, como Frei Betto e o cantor pernambucano Otto.

A ordem de reintegração de posse chegou no dia 15 de dezembro e trouxe angústia ao período de festas de Natal e Ano Novo dos agricultores e agricultoras do MST. Eles vivem nas comunidades Resistência Camponesa, Dorcelina Folador e 1º de Agosto, criadas há cerca de 20 anos.

Ao todo são 212 famílias ameaçadas _ cerca de 800 pessoas, sendo pelo menos 250 crianças e 80 idosos.

Moradias simples, igrejas, campos de futebol, pequenos armazéns, açudes, crianças brincando livremente, poucas cercas e muita produção de alimentos são características comuns entre as três áreas.

Com produção diversificada, parte das famílias já conquistou nota de produtor rural e entrega alimentos ao Programa Nacional da Alimentação Escolar (PNAE).

Desde o início das ocupações da região, em 1999, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (hoje completamente desestruturado, entregue à bancada ruralista) manifestou interesse em adquirir a área e abriu negociações com os proprietários do latifúndio das fazendas Cajati, pertencente à família Festugato.

Ratinho Júnior autorizou nove despejos entre maio e dezembro de 2019, durante seu primeiro ano de governo. Ao todo, cerca de 500 famílias já tiveram suas casas e produções destruídas, sem qualquer abertura para diálogo por parte da forças policiais.

Ao longo de todo o ano, as comunidades sofrem com sobrevoos de aeronaves e drones, uso de balas de borracha e bombas de efeito moral, que causam temor, especialmente às crianças.

A falta de diálogo, a violência crescente e os despejos ilegais têm causado inquietação nas 80 ocupações do Paraná, todas elas em áreas declaradas improdutivas, confiscadas pelo tráfico de drogas, denunciadas por trabalho escravo ou de grandes sonegadores de impostos”.

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Este é um breve resumo da ópera da grande tragédia brasileira, que silenciosa e anonimamente se alastra pelo Brasil rural, enquanto ficamos aqui discutindo as bolsonarices de cada dia.

Agradeço a Baggio e a Ednubia por poder informar aos leitores do Balaio que, apesar de todas as ameaças e truculências, os camponeses sem-terra resistem, 40 anos após o surgimento do MST, lá em Encruzilhada Natalino, no Rio Grande do Sul _ uma luta que acompanho desde o início com reportagens publicadas em diferentes veículos.

Vida que segue.

*Publicado originalmente em Balaio do Kotscho



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