Movimentos Sociais

Restringir bandeira ambiental a indígenas e ecologistas é fazer o jogo de quem destrói

No Fórum Social 2020, lideranças alertaram para os riscos de fragmentação da luta pela preservação da natureza, que enfraquece a causa e facilita sua derrota. Público atento e diverso lotou o auditório central da Unisinos em São Leopoldo

24/01/2020 17:14

(Adriana Lampert)

Créditos da foto: (Adriana Lampert)

 
A mesa era composta exclusivamente por ambientalistas e lideranças indígenas, de quem esperava-se uma análise sobre o tema “Direitos do planeta e dos bens comuns”, na primeira das rodadas de debates amplos programada para segundo dia do Fórum Social Mundial das resistências 2020. O primeiro foi inteiramente dedicado às assembleias de convergência dos movimentos sociais, uma tentativa da organização do evento de fazer com que a conversa entre diferentes movimentos e causas produzisse uma unidade de ação.

Mas o que se ouviu no auditório-central da Unisinos, em São Leopoldo, que estava lotado foi o clamor dos “especialistas” para que a pauta ambiental deixasse de ser tratada como um nicho e fosse incorporada por todos. Eles pediam convergência e união.

“Temos que ficar atentos porque estão produzindo uma fragmentação e dificultando a nossa capacidade de leitura da realidade. O objetivo é impor um modelo totalitarista, onde não existe diversidade”, advertiu a antropóloga, cientista política e membro do colegiado de gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Iara Pietricovsky. “A questão ambiental é absolutamente transversal”, completou.



Angústia também manifestada pela estudante de Pedagogia e liderança Guarani em contexto urbano, Alice de Oliveira: “As pessoas discutem o meio ambiente, mas esquecem que este é um assunto que engloba tudo, inclusive nossas ações do dia a dia”.

Ela deu exemplos: parte da população até se envolve na discussão sobre o desmatamento da Amazônia, mas poucos lembrar dos interesses comerciais que envolvem a floresta. A cadeia produtiva da carne é um exemplo: na selva, todo mundo sabe que onde entra o boi, cai a árvore - o que levou inclusive o Ministério Público Federal a firmar um enorme acordo entre frigoríficos para assegurar a rastreabilidade dos produtos, reduzindo as chances de que sejam oriundos de áreas desmatadas. A preocupação da indígena agora é com a mineração legal e ilegal, cujos controles estão sendo afrouxados pelo presidente Jair Bolsonaro.

“Legalizar o garimpo e a criação de boi na Amazônia, sem considerar a sustentabilidade de florestas é mais uma ação que vai contra o pouco de ar que respiramos, que vem da biodiversidade conservada pelos nossos ancestrais”, criticou Oliveira.

A preocupação foi reverberada pela coordenadora nacional da Articulação Povos Indígenas Brasileiros, Sônia Guajajara. Ela não pode comparecer pessoalmente ao Fórum Social das Resistências, mas enviou uma mensagem em vídeo: “Este ano será muito complicado e vai exigir de nós muito mais resistência. Os povos indígenas estão perdendo não só direitos, mas também lideranças, territórios, que estão sendo cada vez mais atacados, desmatados e queimados”. Motivo, aliás, que levou outra liderança indígena a cancelar sua participação - o cacique kayapó Raoni Metuktire segue participando de encontro (na terra indígena Capoto-Jarina, localizada na região do Xingu, no Mato Grosso), com mais de 600 lideranças para discutir maneiras de resistir a medidas tomadas pelo governo federal para enfraquecer a proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas.

Apesar das atitudes do atual presidente, a representante da nação Guarani na mesa ressaltou que “nenhum governo brasileiro foi bom para os povos indígenas”. “Se não fossem os povos indígenas, que estão cada vez mais sendo esmagados e retirados de seus territórios, a situação seria ainda mais grave”, reforçou.

E concluiu com uma provocação à plateia: “Não podemos continuar tratando somente como objeto de estudo, com militância em redes sociais.”

Perspectiva espiritual

Para os povos indígenas, manter a floresta em pé é um compromisso que transcende a lógica da mera preservação da natureza. Para eles, é também uma questão espiritual. “Faço um apelo a meus irmãos humanos: amem a terra e respeitem o que existe na natureza. A terra nos dá sustento e alimento, mesmo que estejamos envenenando e sujando tudo”, lembrou a líder Kaingang, Iracema Nascimento.

Foi o monge beneditino e assessor de movimentos populares, Marcelo Barros quem chamou atenção para essa perspectiva: “Para fortalecer a cultura dos direitos da natureza e dos bens comuns é fundamental recuperarmos a espiritualidade dos povos originários, e nos colocarmos como aprendizes”.

“A sociedade dominante não leva em conta as necessidades verdadeiras da humanidade. As decisões sobre o futuro têm se concentrado nas mãos de poucos. Estes mantêm o controle do capital global e estão em luta entre si por cada vez mais poder e enriquecimento. Essa elite não leva em conta o direito de todos os seres vivos, isso inclui os humanos, mas também animais e plantas”, complementou.

(Adriana Lampert)

Entrevista exclusiva

Iara Pietricovsky – antropóloga e cientista política, membro do colegiado de gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)

Carta Maior – Quais os caminhos para frear a destruição desenfreada da vida no Planeta, a partir do lixo produzido e da devastação dos recursos naturais pelo capitalismo?

Iara Pietricovsky - Conhecimento e visão política estratégica são dois elementos fundamentais, caso contrário não é possível enfrentar uma força superior, com mais capacidade de se financiar, de se projetar e de matar (a natureza e os seres vivos). Porque no fim, o sistema totalitário produz guerra e o que quiser para ter seu projeto de instalação de poder e de modelo de desenvolvimento neoliberal.

Carta Maior – Quais estratégias se contrapõem a este modelo totalitário?

Iara - Unificação sem perder a diversidade e a singularidade, construindo diretrizes que permitam reverter este quadro e nos trazer de volta a utopia de que é possível um mundo melhor para todos.

Carta Maior – A economia verde seria uma destas diretrizes?

Iara - A economia verde é baseada em um conceito que cria tecnologias que permitam a mercantilização da natureza. No entanto, a água, o ar, e os recursos naturais devem continuar sendo bens comuns, portanto, precisam ser preservados para o uso de todos, não podem ser privatizados e mercantilizados.

Carta Maior – Como que a sociedade civil podem resistir?

Iara – O ativismo é um dos caminhos. Greta Thunberg é um exemplo de que se pode mobilizar o mundo todo pela força da resistência. Ela é um fenômeno!






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