Movimentos Sociais

Saramago defende não-utopia e Galeano polemiza

01/02/2005 00:00

Eles escrevem crônica, ficção, romance e contos, com a
densidade de ensaios de política e filosofia. E, por isso
mesmo, foram recebidos no Fórum Social Mundial com a ovação
tradicionalmente destinada a ídolos da música ou do cinema,
com direito a fila de centenas de metros, gritos e urros
diante da lotação além da conta do Auditório Araújo Vianna,
na manhã de sábado (29). A palavra ao vivo de José Saramago e
Eduardo Galeano foi consumida com fervor na mesa-redonda
Quixote Hoje: Utopia e Política, da qual participaram
também Ignacio Ramonet, Frederico Zaragoza, Luiz Dulci e
Roberto Savio.

Galeano, autor de As veias abertas da América
Latina
, esteve em edições anteriores do FSM e sempre
provocou rebuliço. Da primeira vez, em 2001, o direito de
entrar no teatro do prédio 40 da PUCRS para assisti-lo foi
disputado a tapa, uma curiosa contradição ao espírito da não-
violência. O público extra se acomodou no palco. O espaço era
pequeno demais diante da necessidade tão grande e tão urgente
de ouvir alguma voz amiga na contracorrente do
neoliberalismo. Saramago veio pela primeira vez ao megaevento
que Ramonet comparou, com humor, aos “jogos olímpicos da
crítica da globalização” ou “férias sociais mundiais”.

Cavaleiro endividado

“Quixote estava preso por dívidas, como nós da América Latina
estamos”, disse Galeano, referindo-se ao “anti-herói de
dimensões heróicas” de Miguel de Cervantes, inspirador do
encontro. Para fornecer provas de que existe um outro mundo
sendo gestado na barriga deste – quem sabe uma espécie de
contramundo da infâmia -, o escritor contou a história de
Vargas, um pintor analfabeto e talentosíssimo que conheceu na
Venezuela.

Vargas vivia num povoado escurecido pela exploração do
petróleo, um lugar tão feio e fétido que lá o arco-íris era
preto e branco e os urubus voavam de costas. Mesmo assim, ele
pintava flores, árvores e aves enormes cujo colorido
humilhava as pranchetas mais ricas, discorreu ele. “Eu disse
aos meus amigos que Vargas era um pintor realista, ele
pintava a realidade que não existe mas de que se necessita”,
disse. O não-lugar da etimologia da palavra utopia, lembrou,
pode ter lugar nos olhos que ainda não enxergam esse lugar,
mas o adivinham.

A não-utopia

Galeano sequer usou os 15 minutos a que tinha direito. De
certa forma, deu a deixa para o final da fala de Saramago,
que logo apresentou como má-notícia para a platéia o fato de
ele não ser um utopista. Para o primeiro Nobel de Literatura
de língua portuguesa, “o único lugar que existe é o dia de
amanhã, a nossa utopia é fazer alguma transformação já”. Não
há tempo, explicou, para gastar em discussões e movimentos de
mobilização que resultarão em alguma melhora na qualidade
global de vida somente em 2043 ou, pior, daqui a 150
anos. “Quem nos garante que no futuro as pessoas estarão
interessadas naquilo em que agora estamos?”, ele provocou,
sugerindo menos retórica e uma revisão rigorosa nos conceitos
da esquerda. “Para as cinco bilhões de pessoas que vivem na
miséria, utopia é nada”.

Os palestrantes fizeram cada um a sua leitura da
personagem de Cervantes, nascida na Espanha no século XVII,
viva e reciclada ao longo de 400 anos. Zaragoza destacou a
busca do impossível e a visão distinta da realidade do
cavaleiro andante. O diretor da Unesco também citou a tese do
prêmio Nobel de Física, Ilya Prigogine, de que é necessário
calor para provocar as reações. Ramonet, diretor do Le
Monde Diplomatique
, questionou a suposta loucura de
Quixote.

“Aqui há quixotes e quixotas, mas não estamos loucos”,
garantiu. Segundo o jornalista e semiólogo francês, Quixote
não era um fanático da sociedade ideal, e seu desajuste com a
vida real consistia na disposição de não suportar injustiças.
Ele pensava ser possível ter um mundo diferente, mas não
tinha programa nem manual de instruções. Mais ou menos como
se encontram hoje, quatro séculos depois, milhares de
altermundistas, os “batalhões de quixotes” a que se referiu
Ramonet.


Persistência para o ridículo e a derrota

Galeano preferiu destacar na personagem imortal da
literatura um talento também persistente para o ridículo e a
derrota. Saramago sugeriu a tese de que Quixote fez um
truque: declarou ser louco, sem sê-lo. “No fundo ele era um
pragmático”, arriscou, num dos vários momentos da manhã em
que a ironia e mesmo a gozação pareciam preencher os espaços
do auditório.

“As palavras são umas desgraçadas, fazemos delas o que
queremos”, afirmou o romancista. “Veja a política, por
exemplo. Eu já disse que a política é a arte de não dizer a
verdade, ela falseia, deturpa, condiciona e manipula”.
Saramago fez essas declarações em seguida à fala do único
político na mesa, o ministro Luiz Dulci, também o único
palestrante vaiado (mas em igual medida aplaudido) pela
platéia.

A presença de um integrante do governo Lula, que
declaradamente tenta levar o conceito de utopia para a
prática política, provocou tensões interessantes num evento
marcado pela troca amistosa de frases de efeito. À observação
de Saramago, de que a democracia representativa é uma farsa,
afinal nela, a escolha possível, por meio do voto, é muito
limitada (retirar do poder alguém de que não se gosta e
colocar em seu lugar alguém de que talvez se vá gostar),
Dulci rebateu com a execução do Orçamento Participativo em
administrações petistas. O chamado OP foi justamente a
experiência radical de aplicação e controle dos gastos
públicos que trouxe o FSM para Porto Alegre, iniciada ainda
nos primeiros meses da administração de Olívio Dutra na
prefeitura, em 1989, quando os recursos em caixa estavam
zerados. Quixotismo, naquela época, era eufemismo. A
lembrança acendeu uma homenagem comovida de Galeano: “Essa
cidade deu lições ao mundo de democracia participativa.
Obrigado, Porto Alegre!”


Transformação

Diante dos vários autores famosos citados pelos
palestrantes na esteira da obra de Cervantes (Fernando
Pessoa, Bernard Shaw, Manuel Bandeira, Thomas Morus),
Saramago voltou à carga, na hora das perguntas, redobrando a
ironia: “Atenção, atenção, muita atenção”, anunciou. “Muita
atenção porque eu vou pronunciar uma frase histórica”. E lá
veio ela: “O que transformou o mundo não foi uma utopia, foi
uma necessidade”. O Nobel de Literatura logo esclareceu que a
frase não era de alguém famoso, era dele mesmo, inventada ali
na hora.

Alguém poderia contrapor que utopias e necessidades são a
mesma coisa, e que uma negativa entre elas é apenas mais uma
palavra desgraçada. Tanto faz. Para Saramago, a necessidade
mais urgente é discutir a democracia, que está por aí feito
santa de altar, de quem não se esperam mais milagres.”A
democracia hoje está seqüestrada, amputada. É o capital
financeiro que governa o mundo, e ele não foi escolhido pelos
povos”.





Conteúdo Relacionado