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UNE ocupa terreno da antiga sede no Rio e quer construir projeto de Niemeyer

16/02/2007 00:00

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Créditos da foto: Divulgação
SÃO PAULO - A União Nacional dos Estudantes (UNE) quer reerguer sua sede nos arredores da praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Para isso, ocupou o terreno que outrora serviu de base política e cultural para os universitários de todo o país, mas que há pelo menos 15 anos tem outra finalidade: um estacionamento “clandestino”.

“Temos a escritura do terreno, mas há muito tempo existe este estacionamento ilegal e os donos têm a posse da área”, afirma o presidente da UNE, Gustavo Petta. A entidade estudantil já iniciou a construção de uma sede provisória no terreno ocupado, que terá uma tenda cultural, uma rádio comunitária, um tele-centro e uma sala de reuniões.

Boa parte da diretoria da UNE está acampada na área para reivindicá-la. “A tendência é resolvermos a situação em três meses”, diz Petta, referindo-se à necessidade de conseguir financiamento de empresas estatais, como a Eletrobrás e a Petrobrás, para reconstruir o prédio definitivo da nova sede da entidade.

A Justiça do Rio de Janeiro organizou uma audiência na segunda-feira (12) e discutiu com ambas as partes sobre a posse do terreno. A UNE apresentou documentos, como a Certidão de Registro do Imóvel, e aguarda uma avaliação do juiz Jaime Dias Filho. Os donos do prédio haviam entrado com um pedido de reintegração de posse, que foi suspenso por Dias Filho no dia seis de fevereiro. Eles têm um prazo para contra-argumentar com relação à propriedade.

A UNE avalia que o “jogo virou”, e que agora são os proprietários do estacionamento que tem que lutar para ganhar na Justiça a garantia de posse. Ainda na segunda, os deputados estaduais cariocas debateram a questão da ocupação, em uma audiência na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Sede definitiva
Wadson Ribeiro, que foi presidente da UNE entre 1999 e 2001, vê com otimismo o projeto de uma nova sede, elaborado por Oscar Niemeyer em 2001. O projeto inclui um prédio de 13 andares, com uma escultura em memória aos estudantes torturados e mortos pelo regime militar.

Segundo o ex-presidente da entidade estudantil, os primeiros andares do edifício funcionarão como um centro cultural, com salas de projeção de filme, auditórios para teatro, estúdio de rádio e salas de reuniões.

A nova sede “servirá para reuniões e congressos do movimento estudantil, para o CUCA [Circuito Universitário de Cultura e Arte], para reuniões de centros acadêmicos e de DCEs [Diretório Central dos Estudantes]”, afirma Ribeiro. Ele crê que o local irá se tornar um ponto de referência e de convergência para as organizações estudantis, no futuro.

Gustavo Petta faz uma analogia entre a indenização que o governo federal concede aos militantes torturados pela ditadura e a perseguição que o regime militar impôs para a UNE. “O Estado brasileiro tem uma dívida histórica com o movimento estudantil”, diz.

A ocupação do terreno começou há duas semanas, no dia 1° de fevereiro, com uma passeata que reuniu pouco mais de três mil pessoas na Lapa. Boa parte deles participou da 5a Bienal de Arte e Cultura da UNE, que ocorreu no Rio de Janeiro, na mesma época.

A diretora de Universidades Públicas da UNE, Maíra Tavares Mendes, considera justa a reivindicação da sede, mas não acredita na “postura de luta” que a entidade assumiu. “É uma mobilização sem risco para a entidade, que tem o apoio do governo estadual do Rio de Janeiro e foi feita sem bater de frente com o governo federal”, diz ela.

Maíra critica a capacidade de enfrentamento da UNE. “Enfrentar um dono de estacionamento é fácil. Porque a entidade não combate medidas do governo federal que são retrocessos, como o Prouni [Programa Universidade para Todos]?”, alfineta.

Durante a passeata, a diretora da UNE conversou com alguns estudantes que quase foram agredidos por levar uma faixa em que criticavam o patrocínio dado pela Rede Globo para a Bienal de Arte e Cultura da UNE. “Fica claro que o espaço para opiniões divergentes é muito pequeno na entidade”, diz a diretora.

Histórico
Para Petta, há um valor simbólico em tentar reaver o terreno da Praia do Flamengo. A área abrigava durante os anos 1940 o Clube Germânia, um antigo reduto de simpatizantes nazistas. Em 1942, no Estado Novo, o clube foi ocupado por estudantes que mais tarde receberiam a escritura das mãos de Getúlio Vargas. Em 1945, surgia oficialmente a primeira sede da UNE.

A entidade estudantil foi o primeiro alvo do regime militar, que incendiou seu prédio em 1964, logo depois do golpe. No início dos anos 80, como represália a uma tentativa estudantil de ocupação do antigo edifício da UNE, a ditadura acabou por demolir o prédio.

Em 1993, o presidente Itamar Franco devolveu a escritura do terreno da Praia do Flamengo para a UNE, mas uma disputa judicial entre os donos do terreno e a entidade travou qualquer tentativa de retomada da sede.

A atual ocupação do terreno já teve visitas ilustres, como o escritor e jornalista Arthur Poerner, o artista Paulo Betti, o músico Marcelo Yuka e os sambistas Beth Carvalho e Martinho da Vila.


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