Movimentos Sociais

Vitória do ativismo, na Cúpula dos Povos

23/06/2012 00:00

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Créditos da foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Rio de Janeiro - Durante uma semana, 14 mil ativistas se concentraram no Aterro do Flamengo, transformando-se num gigantesco contraponto mundial, às atividades do sistema ONU, no Riocentro. Os grandes jornais brasileiros desconheceram as atividades das organizações não governamentais, mas também de centrais sindicais, frentes de trabalhadores, e de representantes do campo, como a Via Campesina, trouxe a maior delegação à Cúpula – dois mil integrantes, de 40 países.

Embora 930 jornalistas brasileiros e 312 internacionais tenham se inscrito na Cúpula, a informação sobre as atividades de 36 tendas autogestionadas, além de 14 tendas coordenadas por entidades específicas, circulará em meios direcionados. O volume de informações geradas foi muito grande, se contarmos 681 atividades nacionais nas tendas e mais 330 internacionais. Um total de 1011 atividades. Nos Territórios do Futuro foram 171 nacionais e 48 internacionais, num total de 219. Isso tudo coordenado por 36 redes internacionais. O número de ONGs participantes: sete mil organizações.

“- A Cúpula dos Povos é o momento simbólico de um novo ciclo na trajetória de lutas globais que produz novas convergências entre movimentos de mulheres, indígenas, negros, juventude, agricultores familiares e camponeses, trabalhadores/as, povos e comunidades tradicionais, quilombolas, lutadores pelo direito a cidade, e religiões de todo o mundo.
As assembléias, mobilizações e a grande Marcha dos Povos, foram os momentos de expressão máxima dessas convergências”.

Esse é um trecho do documento final da Cúpula dos Povos, divulgado numa entrevista coletiva realizada ao lado os Arcos da Lapa, na sexta-feira à tarde. Durante a manhã, uma delegação do Grupo de Articulação da Cúpula esteve reunida com o secretário geral da ONU, Banki-Moon. Relataram a ele os resultados das discussões, durante a semana.

Resumindo: a posição de rejeição à economia verde, por se tratar de mais uma estratégia do capitalismo e dos países ricos, para mercantilizar os serviços naturais; denunciaram a violação dos direitos das mulheres, negros, índios e movimentos sociais em diversos países; as atividades das corporações que não tem nenhum tipo de punição por parte do sistema ONU; pela garantia do direito dos povos à terra e território urbano e rural; pela mudança da matriz e modelo energético vigente; pelo reconhecimento da dívida social e ecológica.

Banki-Moon ficou surpreso pela rejeição da economia verde. Perguntou qual seria a alternativa para uma economia sustentável. Darcy Frigo, um dos membros da delegação, disse que existiam várias já sendo usadas pelo mundo, mas principalmente deveria envolver a soberania do conhecimento dos povos tradicionais, baseada na agroecologia e na economia solidária, e não ficar na mão das grandes corporações e do sistema financeiro mundial.

Outro ponto focado foi justamente a participação das grandes corporações no sistema ONU. Com acesso em todos os níveis da entidade, com voz e poder para interferir em resultados que influem na vida dos países e das pessoas. Os mecanismos utilizados pela ONU não dão legitimidade a participação dos movimentos sociais e das organizações não governamentais, que não concordam com os princípios adotados pela ONU. Muito menos sobre suas práticas. Para deter o poder das corporações Banki-Moon disse que já existia o Global Compact, uma espécie de carta de princípios adotada por várias transnacionais, que respeitam direitos trabalhistas, ambientais e sociais. É o modelo da autorregulação.

Na verdade 20 anos se passaram desde a Eco-92. As crises econômicas do capitalismo se sucederam, agora com os ricos e industrializados no centro do vulcão. De repente começam a apontar como a grande saída para o modelo a valorização dos serviços da natureza, transformando em ativos, em títulos negociados no mercado financeiro. Não há saída sem mudança no sistema geral.

Os 14 mil ativistas, a maioria deles articulados pela internet com representantes do mundo inteiro, ao vivo e online, retransmitiram todas essas questões aos seus respectivos coletivos, articulações e frentes de trabalho. A partir de agora, milhares estão programando novas ações concretas para interferir nas manobras dos dirigentes do setor financeiro e das corporações. Independente do que a ONU ou os países formalmente aderirem, uma rede mundial de organizações estará preparada para rebater. Muitas ações concretas de enfrentamento já foram confirmadas entre eles. Outras tantas estão em andamento. E o Dia Mundial de Greve, em breve fará parte desse cenário.

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