Pelo Mundo

“Não há nenhuma medida legal que sustente o fim da RCTV”

16/06/2007 00:00

CARACAS - Pode-se discordar de Teodoro Petkoff e pode-se não gostar dele. Mas é importante ouvi-lo. Este senhor de 75 anos conserva uma inteligência aguda na análise política, após ter deixado anos de militância política na esquerda e passado para a oposição ao governo Chávez. Ex-dirigente do Partido Comunista Venezuelano, ex-guerrilheiro e ex-ministro de Planejamento do governo de Rafael Caldera (1994-1998), Petkoff apoiou num primeiro momento o golpe que depôs Hugo Chávez, em 2002. Seu editorial do jornal TalCual, que dirige, tinha o indubitável título de “Chau Hugo!”. Menos de 24 horas depois, percebeu com quem estava se aliando e saltou fora do barco.

Em 2004, Chávez o chamou para debater no palácio de Miraflores, numa demonstração de respeito por suas idéias. O jornalista segue dirigindo o TalCual e freqüentemente pauta a agenda oposicionista. Na última sexta-feira, Teodoro Petkoff recebeu Carta Maior na redação de seu jornal, no centro de Caracas. A entrevista segue abaixo.

Carta MaiorComo o sr. vê as repercussões da não renovação da concessão da RCTV dentro e fora da Venezuela?
Teodoro Petkoff – Não há pesquisas para quantificar o desgaste que Chávez teve neste episódio, mas o certo é que está pagando um preço muito alto por seu gesto, tanto no plano interno quanto no externo. Vamos dar um desconto para a direita internacional, protagonizada, por exemplo, por Vicente Fox [ex-presidente do México] e por [George W.] Bush [presidente dos Estados Unidos]. A novidade é que ele colhe desgastes junto a seus aliados e amigos. Chávez nunca imaginou que o Mercosul rechaçaria a posição de fechamento da RCTV, bem como o PRD (Partido da Revolução Democrática), do México. Ou que o governo espanhol pedisse uma reconsideração da medida. Tampouco previu o silêncio de Kirchner e de Tabaré Vasquez ou mesmo a ambigüidade de Lula. Isso sem falar de instituições que, mesmo dominadas por forças de centro e de dirteita, como o Senado brasileiro e o chileno, são instâncias republicanas. Enfim, Chávez não esperava esta reação. Provavelmente isso provocou a reunião, nesta semana, entre Fidel Castro, Daniel Ortega [presidente da Nicarágua] e Chávez, em Havana.

CME internamente?
Petkoff - A ação estudantil é notável. Durante anos este foi um setor que ficou passivo e agora tem uma reação maciça. Se não houvesse resposta, o país viveria um quadro desalentador. Mas a resposta foi muito estimulante. Há uma sensação vitoriosa, pela brisa fresca que isso traz ao cenário político. O movimento estudantil, historicamente, sempre foi muito importante na Venezuela, como vanguarda social e política. Por mais que tente, Chávez não pode classificá-los como peões do Império, oligarcas ou coisas assim. Apesar de tudo isso, na prática, a RCTV está fechada. Isso significa que o objetivo estratégico de Chávez, de criar uma hegemonia comunicacional, foi alcançado. Mas com o fechamento, pela primeira vez, o eleitor chavista se vê às voltas com uma questão democrática que o toca diretamente. Fica claro que o presidente quer impor aos setores populares a televisão que podem ver.

CM - Chávez tem algum acordo com Gustavo Cisneros, o maior empresário venezuelano? Se é verdade isso, quais suas bases?
Petkoff – Não sei como é o acordo. Mas ele se traduz no fato de que a emissora de Cisneros, de 2004 para cá, se transformou num canal governamental. Aliás, não apenas governamental, mas negado à oposição. Qual o processo? É algo muito astuto. Se você liqüida, fechando um e cooptando outro, os dois principais meios de comunicação, 80% da população estará desconectada de qualquer idéia política que não a governamental. Ambos alcançavam esta audiência. Veja que não é mais o estilo cubano de uma só emissora, um só jornal e uma só estação de rádio. Não. Ao lado dos canais privados, o governo construiu um império midiático com seis canais de televisão, não do governo, mas do partido do governo, mantidos com o dinheiro do povo. São a Telesur, a ViveTV, o canal 8, TVes, o canal da Assembléia Nacional e Avila TV.

CM - O sr. tem um programa de TV, não?
Petkoff – Tinha. O governo comprou a emissora, o Canal Metropolitano de Televisão, que foi integrado à Telesur. E o programa acabou. Temos uma hegemonia midiática, que avassalou os meios privados.

CM - Afinal, a RCTV estava ou não envolvida no golpe?
Petkoff – Imagine se houvesse uma conspiração política contra o governo, no Brasil. Após esta conspiração ser derrotada, se descobre que um canal de televisão esteve envolvido nesta articulação, o que acontece?

CMO canal e seus responsáveis seriam processados judicialmente...
Petkoff – Ah, bom... Aqui, o golpe foi há cinco anos. Não houve nenhum processo judicial, nem contra RCTV e nem contra o canal que realmente dirigiu o golpe, que foi o canal 4, Venevisión, de Gustavo Cisneros. Não houve sequer acusação na Procuradoria contra seus proprietários e não há procedimento administrativo algum para se fechar o canal. Assim, a emissora não pode se defender, pois não há acusação formal. O canal está fechado porque um dia Chávez disse “eu vou fechar este canal golpista”. É a única decisão administrativa conhecida.

CMChávez diz que não está fechando, apenas não está renovando a concessão.
Petkoff – Vamos ao aspecto formal. Em qualquer lugar do mundo, o Estado administra o espaço radioelétrico. É uma concessão. No artigo 3º. da lei de telecomunicações está escrito que a concessão será outorgada por vinte anos e renovada automaticamente. Mais adiante, no artigo 4º, o raciocínio se completa: salvo a existência de algum processo ou decisão judicial. Não há nenhum processo em curso contra a RCTV.

CMO sr. concorda então que, hipoteticamente, uma concessão pode não ser renovada?
Petkoff – Claro. Mas é preciso seguir a lei. Além disso, Chávez não tem preocupação com a qualidade da programação. Tanto a RCTV quanto a Venevisión apresentam o mesmo lixo televisivo. Sua preocupação não é essa. A questão, repito, é que Cisneros chegou a um acordo com Chávez. Transformou seu canal, que era a ponta de lança da conspiração em 2002, em um canal de promoção governamental. Quando perguntaram ao Ministro da Informação, William Lara, por que não se tomavam as mesmas medidas em relação a Venevisión, ele foi claro: “Porque o canal 4 deixou de ser golpista”. E a RCTV manteve a crítica ao governo.

CMAté 2004 havia uma agressividade dos meios eletrônicos contra Chávez que não se vê em nenhuma outra parte...
Petkoff – Isso é verdade. Mas era uma resposta a uma agressividade iniciada pelo governo, por parte de um presidente que se refere aos seus adversários com os piores qualificativos diariamente por todos os canais de televisão. Mas Chávez não chegou ao governo agredindo, chegou por cima de uma onda midiática. Seu primeiro ministro de Comunicações foi a esposa do dono do El Nacional [um dos maiores diários da Venezuela], Carmen Ramia. Seu primeiro chefe da Casa Civil foi um ex-diretor do El Nacional, Alfredo Peña. E a Globovisión, este canal agora tão atacado, era chamado de “Diário Oficial Televisivo”. Chávez não chegou contra os meios de comunicação. Cisneiros, que é um oportunista de primeira categoria, colocou sua rede a disposição do governo, no início. Logo Chávez veio com seu radicalismo oral, como diz Lula. E passou a receber respostas do outro lado, até que os meios se tornaram parte do problema, até que chegamos a 2004.

CMMas nesse meio tempo, houve o golpe e o paro petroleiro...
Petkoff – Claro, houve tudo isso. É que estou resumindo. O que quero dizer é que cinco anos depois do golpe se toma uma medida discriminatória contra um canal e não contra o outro. É verdade que Marcel Granier, dono da RCTV, e seu canal participaram do clima da época, em 2002. Mas quando Pedro Carmona foi à televisão antes de dirigir-se a Miraflores, não era na RCTV que ele estava. Estava na emissora de Cisneros. Assim, a acusação de golpismo não se sustenta no caso da RCTV, pois é público e notório que o cabeça da conspiração era Cisneros.

CMO governo Chávez tem uma alta popularidede independentemente do caso RCTV. Isso se deve muito à boa situação da economia. Como o sr. vê isso?
Petkoff – O país cresce há 14 trimestres consecutivos a taxas ao redor de 10%, porque o preço do petróleo está a US$ 60 o barril. Como isso se reflete na economia? Através do gasto público. Este impulso se dá basicamente no setror terciário, comércio e finanças. Não há dinamismo no setor produtivo, o que gera um crescimento disforme. Graças ao gasto público, há uma enorme expansão da demanda que aumenta brutalmente as importações.

CME a produção local?
Petkoff - Esta demanda não é suprida pela produção local. No anos passado tivemos US$ 36 bilhões em importação, num país de 25 milhões de habitantes. Isso é agravado por uma política de controle de câmbio que leva à sobrevalorização do bolívar. A taxa paralela do dólar é o dobro da oficial. É um incentivo brutal às importações, que inibe o aparato produtivo. Com aumento da demanda e gargalos na oferta, começam a acontecer duas coisas. A primeira é uma irresponsabilidade no gasto público, que gerou uma liqüidez colossal. Em segundo, isso se transforma em fator inflacionário, pois a oferta não acompanha a demanda. Por isso temos 19,5% de inflação anual, a mais alta do continente. Ao mesmo tempo, como há muito dinheiro na praça, as taxas de juros são baixas. É uma sensação de bonança tamanha que a venda de carros novos nunca foi tão alta. Economicamente, estamos melhor que nunca. A banca venezuelana, que apóia esta revolução socialista, nunca ganhou tanto dinheiro. Criou-se uma nova modalidade de burguesia, os novos ricos desses tempos, a boliburguesia, ou burguesia bolivariana. Faz negócios com o governo, é corrupta e adora o dólar barato. No fundo, a política econômica é a mesma de sempre, aqui não houve nenhuma revolução, nenhuma mudança.



Conteúdo Relacionado