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''Prisão de cubanos demonstra moral dupla do governo dos EUA''

Em 1998, cinco cubanos foram presos nos EUA. Eles investigavam atividades terroristas de grupos anti-castristas. Foram condenados (um deles a duas penas perpétuas) em um julgamento já considerado nulo pelo Tribunal de Atlanta. Em entrevista à CARTA MAIOR, o embaixador de Cuba no Brasil, Pedro Nuñez Mosquera fala sobre esse caso e sobre a nova situação política da América Latina.

28/04/2006 00:00

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Créditos da foto: Divulgação

PORTO ALEGRE – O embaixador de Cuba no Brasil, Pedro Nuñez Mosquera visitou a capital gaúcha essa semana para participar da inauguração de mais um comitê de solidariedade aos cinco cubanos presos nos EUA, desde 1998, acusados e espionagem e conspiração. Eles investigavam a organização de atividades terroristas por grupos anti-castristas de Miami. Foram condenados, um deles a duas penas de prisão perpétua e mais 15 anos de prisão em um julgamento onde, entre os 11 jurados, 8 eram cubanos anti-castristas e um era venezuelano e se assumia como opositor do governo Chávez.

O julgamento já foi considerado nulo e irregular nos próprios EUA pelo tribunal Superior de Apelações de Atlanta, mas os cinco continuam presos. “A prisão desses cinco jovens cubanos demonstra a dupla moral do governo norte-americano em sua proclamada luta contra o terrorismo”, diz Pedro Mosquera em entrevista exclusiva à CARTA MAIOR, concedida na manhã desta. Sexta-feira (28), no saguão do Hotel Embaixador. Além do caso dos cinco cubanos, ele também analisa a nova conjuntura política da América Latina e o atual estágio das relações entre Brasil e Cuba.

CARTA MAIOR: O senhor veio a Porto Alegre para participar do lançamento do comitê em solidariedade aos cinco cubanos que estão presos nos Estados Unidos. Qual é a história dessa prisão e qual a situação deles atualmente?

PEDRO MOSQUERA: Desde o dia 12 de setembro de 1998, cinco jovens cubanos estão presos nos Estados Unidos por lutar contra o terrorismo. É importante lembrar que desde o início da Revolução Cubana, o governo dos EUA treinou e financiou grupos terroristas para fazer ações contra Cuba. Essas ações terroristas contra o meu país já custaram mais de cinco mil vítimas, entre mortos e feridos. Essas pessoas já organizaram mais de 600 tentativas de assassinato do presidente Fidel Castro. Essas pessoas organizaram uma tentativa de invasão a Cuba. Introduziram bactérias e vírus no país que causaram muitos danos. Introduziram explosivos para tentar afetar o turismo. Um turista italiano foi morto por uma destas ações. Essas pessoas também organizaram um atentado que explodiu um avião da empresa cubana de aviação civil em pleno vôo, em 1976, matando 73 pessoas.

Em função desses ataques constantes, cinco jovens cubanos (René Gonzales, Antonio Guerra, Antonio Guerrero, Gerardo Hernández, Ramón Labañimo e Fernando González) infiltraram-se em organizações terroristas para tentar prevenir novas ações contra Cuba. Esses jovens fizeram um excelente trabalho, descobriram muitas coisas. Essas informações foram repassadas para o governo dos EUA (através de um relatório de 230 páginas, 5 fitas de vídeo e 8 de áudio, enviado ao FBI e ao governo Bill Clinton, relatando informações transmitidas pelas cadeias de televisão sobre ações terroristas contra Cuba e chamadas telefônicas de terroristas centro-americanos). O governo dos EUA deteve os cinco jovens, manteve-os incomunicáveis por um período e acusou-os de espionagem e conspiração, submetendo-os a um julgamento político em Miami, sob um clima muito adverso e com uma máfia enraivecida atuando contra eles.

CM: E qual foi o resultado desse julgamento?

PM: Eles tiveram um julgamento manipulado politicamente (entre os 11 jurados, 8 eram cubanos anti-castristas e um era venezuelano e se assumia como opositor do governo Chávez) e foram condenados injustamente, sem provas. Um deles foi condenado a duas penas perpétuas, outro a uma pena perpétua e os outros a penas que variam de 15 a 19 anos (Gerardo foi condenado a duas penas perpétuas, mais 15 anos de prisão; Ramón a uma perpétua mais 18 anos; Antonio a uma pena perpétua; René a 15 anos de prisão, e Fernando a 19 anos de cadeia). Eles foram separados e confinados em solitárias durante muito tempo. No ano passado, o Tribunal Superior de Apelações de Atlanta decretou a nulidade do julgamento, considerando que ele não foi imparcial e apresentou diversas irregularidades. Durante o processo, militares dos EUA falaram que os jovens não tinham nenhum acesso a assuntos militares norte-americanos nem a documentos deste tipo.

Apesar da decisão do tribunal de Atlanta, esses jovens continuam presos (O governo estadunidense recorreu, o que deu origem a audiência oral em Atlanta, em 14 de fevereiro, para a revisão do caso. Os juízes da Corte de Apelação não têm prazo para pronunciar a decisão final). Por isso achamos muito importante todo e qualquer apoio da opinião pública internacional em defesa da libertação destes cinco companheiros. No Brasil, esse trabalho tem sido forte. Já temos comitês pela libertação dos cinco em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e, agora, em Porto Alegre. É importante também porque essa luta pela libertação dos cinco ajuda a conscientizar a opinião pública norte-americana. Lutar hoje pela libertação desses jovens significa lutar contra o terrorismo. A prisão desses cinco jovens cubanos demonstra também a dupla moral do governo norte-americano em sua proclamada luta contra o terrorismo.

CM: Como se manifesta essa dupla moral, na sua avaliação?

PM: Enquanto mantém presos injustamente esses cinco jovens, o sr. Luis Posada Carriles, principal responsável pela explosão do avião cubano, entrou ilegalmente nos EUA e foi detido unicamente por uma questão de visto. É como se Bin Laden chegasse ao Brasil e fosse detido apenas por que está sem o visto. Essa é a situação de Carriles (Posada Carriles está num centro de detenção de El Paso (Texas) desde maio de 2005, quando foi detido por entrada ilegal no país. Ele pediu a cidadania para garantir a sua permanência nos Estados Unidos e poder obter sua liberdade. A solicitação se baseia nos serviços que o venezuelano, nascido em Cuba, prestou aos EUA como soldado durante a Guerra do Vietnã, na década de 70, e no período em que trabalhou para a CIA). E podemos falar também das ações terroristas dos EUA no Iraque, os casos de torturas contra prisioneiros em Guantánamo, as prisões secretas em várias partes do mundo. Devemos condenar o terrorismo onde quer que ele se manifeste e em todas as suas formas, e não seletivamente, segundo interesses políticos.

CM: A América Latina vive um período de mudanças políticas significativas, com a chegada ao poder de vários governos progressistas. Como estão as relações de Cuba com a América Latina e como o país vê o projeto de integração política e econômica do continente?

PM: Acho que a América Latina é o principal exemplo da crise do neoliberalismo. Há 20 anos, a dívida externa da América Latina estava na casa dos 300 milhões de dólares. Hoje está na casa dos 850 milhões de dólares e isso que já foi paga sete vezes. Foi paga sete vezes e mais do que duplicou. A América Latina e o Caribe têm uma população de 520 milhões de habitantes. Quase a metade dessa população vive abaixo da linha da pobreza. Milhões de crianças da América Latina sobrevivem pedindo esmolas. Esses números mostram que o modelo neoliberal, implementado nos últimos 20 anos, fracassou. Isso é o que explica fundamentalmente a nova alvorada que aparece no horizonte. Hoje temos muitos governos progressistas – no Brasil, Argentina, Paraguai, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Chile - governos com posições de defesa da soberania, além de outros eventos eleitorais que se aproximam e que podem lugar a novos governos com uma postura de independência e de defesa da soberania.

Eu sou muito otimista com o que acontece na América Latina. Acho que todas essas mudanças favorecem a integração, favorecem a unidade de nossos povos. A Área de Livre Comércio das Américas, que era um projeto anexionista, fracassou, foi enterrado no passado em Mar del Plata. Agora temos a proposta da Alternativa Bolivariana para as Américas, a Alba, que não vê a integração meramente como um assunto comercial, mas que olha para a integração em suas manifestações mais amplas, do ponto de vista de cooperação na esfera da saúde, dos esportes, da educação e da cultura. Existem muitos planos nessa proposta, como a Missão Milagre, dirigida a salvar a visão de milhões de latino-americanos nos próximos dez anos. Ou o programa de alfabetização Sim, eu posso, que já erradicou o analfabetismo na Venezuela e que vai erradicar o analfabetismo na Bolívia, em médio prazo. Temos ainda o projeto de integração energética na América do Sul, o projeto da Petrocaribe, projetos que ajudarão a fortalecer essa posição bolivariana, martiniana, em nossa região.

CM: Qual é o estágio atual das relações políticas, econômicas e culturais entre Cuba e o Brasil?

PM: As relações bilaterais entre Brasil e Cuba têm se fortalecido muito nos últimos anos. Em 2003, o intercâmbio comercial entre os dois países era de 120 milhões de dólares. Em 2004, esse intercâmbio chegou a 223 milhões de dólares. Em 2005, subiu para cerca de 350 milhões de dólares. Nos dois primeiros meses deste ano, esse intercâmbio chegou a 128 milhões de dólares. São duas economias que se complementam. Cuba compra do Brasil alimentos, frangos, leite, óleo, soja, móveis e calçados, por exemplo. E Cuba vende para o Brasil vacinas, medicamentos e outros produtos. Hoje, o Brasil já é o segundo parceiro comercial de Cuba na América Latina. As relações culturais também têm se fortalecido. Em 2005, foi realizada em Cuba a Feira Internacional do Livro de Havana, principal evento cultural do país, com uma forte presença brasileira. O Brasil foi o país homenageado e recebemos a visita do ministro da Educação para inaugurar a feira, que depois foi encerrada pelo ministro da Cultura.

Agora, em 2006, está chegando ao Brasil o Balé Nacional de Cuba com a primeiríssima bailarina Alicia Alonso, que vai fazer apresentações em várias capitais brasileiras. Além disso, em janeiro, foi inaugurada em São Paulo uma exposição de arte cubana, denominada “Um século de arte cubana”. São mais de cem obras do Museu Nacional de Cuba expostas no Centro Cultural do Banco do Brasil. Essa exposição também será apresentada no Rio de Janeiro e em Brasília. Também temos tido um forte intercâmbio na área da educação. Em 2005, 29 reitores de universidades federais brasileiras visitaram Cuba. Neste momento, temos aqui no Brasil 25 reitores cubanos trabalhando com os seus pares brasileiros. Temos várias centenas de acordos de cooperação em nível superior. Cuba começou em três municípios do Piauí um programa de alfabetização com um método cubano que se chama Sim, eu posso, que consegue alfabetizar as pessoas em 35 dias. Por outro lado, Cuba se beneficia de toda a experiência que o Brasil possui nas áreas de produção de camarões, de tratamento de água, de pequenas e médias empresas, de administração dos governos locais. Acho que temos uma excelente parceria e as relações bilaterais entre os dois países vivem hoje o seu melhor momento.

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