Pelo Mundo

"A crise dos refugiados não acabou"

Filippo Grandi, alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), fala da crise atual, após a Minicúpula de Roma sobre migração dos países do sul da Europa, realizada na semana passada

17/01/2018 17:40

Sam Tarling/ Acnur/ - ONU News

Créditos da foto: Sam Tarling/ Acnur/ - ONU News

 
Por ocasião do Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, no último domingo, Filippo Grandi, alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), analisa a situação na Europa. "As crises de refugiados não estão superadas", afirma, apesar da queda no número de desembarques de imigrantes em solo europeu – queda que ele considera "temporária". O diplomata da ONU acredita que o presidente francês Emmanuel Macron tenha "identificado o problema" de maneira satisfatória, mas aguarda agora as "medidas concretas". Por exemplo: "Investir mais sistematicamente no ensino da língua francesa".

171.000 pessoas chegaram à Europa por mar em 2017, contra 363.000 em 2016, segundo a Organização Internacional para as Migrações. A crise dos refugiados acabou?

Esta pergunta é muito europeia! As crises de refugiados não acabaram, estão em toda parte. Talvez tenha havido, na Europa, uma queda temporária nas chegadas, mas a crise ainda está aí, e é global.Lembremos que 85% dos 22 milhões de refugiados estão em países com rendimentos baixos ou médios. Então, inicio este ano com apreensão.

A minicúpula realizada em Roma, na quarta-feira, entre os países do Sul da Europa atendeu às suas expectativas?

Espero que a instalação de refugiados na Europa possa continuar. Em agosto, eu havia solicitado 40 mil vagas específicas para a situação do Mediterrâneo. Estamos em 13 mil, longe deste objetivo, que já é mínimo! Os chefes de Estado deve perceber que estes canais legais são essenciais para a proteção dessas pessoas. Eles também devem continuar a nos apoiar em nossas ações na Líbia, no Níger e no Chade e através de esforços políticos para resolver o conflito na Líbia.

Houve progressos na Líbia?

Estive em Trípoli em maio de 2017. Houve progressos reais desde então. Conseguimos tirar 1.400 refugiados de centros de detenção e evacuar 400 pessoas do país. Esperamos chegar a mil pessoas no fim de janeiro. Embora as necessidades ainda sejam consideráveis, é melhor do que nada. É preciso também salientar que o fortalecimento da guarda costeira da Líbia deve ser acompanhado pelo de todas as instituições líbias, o que é um desafio.

O que o senhor achou do projeto de lei "asilo e imigração", do governo francês, denunciado por associações que identificam na proposta o risco de uma "triagem" entre refugiados e migrantes?

O presidente Macron me disse, no dia 9 de outubro, que o ACNUR estaria envolvido na discussão técnica da lei. Sobre o acolhimento, continuamos a solicitar pelo menos 20 mil vagas adicionais. Os planos que temos visto, no entanto, são mais modestos. Emmanuel Macron identificou bem o problema. Precisamos agora de medidas concretas, como investir de forma mais sistemática no ensino de língua francesa. Último ponto, e delicado: para garantir um sistema de asilo eficaz e sólido, é preciso assegurar que, se ao fim de um processo justo e equilibrado, as pessoas tenham seus pedidos de asilo rejeitados, elas possam voltar para seus países se não houver possibilidade de regularizá-las. Isto, naturalmente, deve ser feito respeitando seus direitos fundamentais e sua dignidade.

Alguma mensagem para este início de ano?

Estou preocupado com a xenofobia, de que são vítima, sobretudo, os refugiados. Os líderes políticos têm a responsabilidade de explicar a situação e reduzir as tensões. O temor do estrangeiro é compreensível e tem raízes profundas, com a crise econômica e uma crise de identidade, especialmente entre as pessoas excluídas da globalização. Mas esse medo foi exacerbado por políticos, e sua responsabilidade é muito séria. Por razões humanitárias, morais, e também de estabilidade, temos que lutar contra essas tensões. É uma grande batalha que diz respeito a todos nós.

Há discussões para abrir a fronteira turca aos civis que fogem de Idlib e Ghouta, sob as bombas do regime de Bashar al-Assad?

As fronteiras da Síria, infelizmente, continuam muito difíceis de cruzar para os sírios. É importante que tenhamos acesso a todas as regiões do país, e que nossas operações tenham apoio.Continuamos firmes. Quando não temos acesso, pessoas morrem por causa dos combates, por falta de cuidados médicos ou de itens vitais. A Síria já foi esquecida pela opinião pública. Como os sírios não estão mais fugindo para a Europa, tendemos a esquecer, mas a urgência humanitária continua.

A Igreja Católica celebrou no domingo o Dia Mundial dos Migrantes. O Papa é um aliado importante? Ou vimos os limites de sua ação na Birmânia?

É um aliado fundamental graças à mensagem de solidariedade que prega. O Papa Francisco explicou, depois de sua viagem à Birmânia e a Bangladesh, ter levado em consideração as sensibilidades políticas para obter avanços. Em Daca, ele recebeu refugiados Rohingya e se desculpou pela incapacidade da comunidade internacional de resolver seu problema tão antigo.Ele falou por todos nós que nos preocupamos profundamente com o destino desta população tão maltratada.

Bangladesh pretende mandar 100 mil Rohingyas de volta para a Birmânia, onde valas comuns foram descobertas esta semana. Os refugiados correm perigo?

O número 100 mil foi mencionado hipoteticamente. Bangladesh abriu suas portas apesar de seus recursos muito escassos e seu espaço limitado. Estamos atualmente discutindo com Daca os termos do retorno. A situação é mais complexa do lado birmanês. Pedimos que o ACNUR seja envolvido no processo e tenha acesso às áreas onde eles vivem. Acesso que hoje é próximo de zero.

 

Tradução de Clarisse Meireles



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