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''Com o MAS na Bolívia venceu a vacina, a democracia e a soberania'', afirma comunicadora Dolores Arce

Veterana combatente do movimento de mulheres e pela democratização da comunicação, Dolores Arce sustenta relevância do projeto do Movimento Ao Socialismo (MAS) e do governo de Luis Arce para o desenvolvimento da Bolívia

30/03/2021 15:14

A comunicadora Dolores Arce (LWS)

Créditos da foto: A comunicadora Dolores Arce (LWS)

 
A ativista e comunicadora popular boliviana Dolores Arce fala nesta entrevista sobre a importante vitória do Movimento Ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos (MAS-IPSP) nas eleições “subnacionais” – para governos e parlamentos estaduais e municipais - do começo de março e dos “desafios enfrentados pelo presidente Luis Arce, em meio à pandemia e a herança desastrosa deixada pelo desgoverno de Jeanine Áñez”. Coordenadora técnica da Federação Departamental de Mulheres Camponesas Originárias Indígenas de Cochabamba Bartolina Sisa, ex-diretora-executiva do Centro de Produções Radiofônicas da Bolívia (Cepra) e ex-chefe das Rádios dos Povos Originários (RPOs) - vinculadas ao Ministério da Comunicação e operadas por organizações sociais e comunidades -, Dolores analisa o significado do MAS, que agora completa 26 anos. Para a combatente, são três os eixos fundamentais que o país andino deve começar a priorizar: “o aprofundamento da democracia; a defesa da saúde pública, com o combate à pandemia por meio da vacinação massiva; e o avanço social, político e econômico com uma legislação de fortalecimento do Estado”. “Acredito que são os eixos que precisam ser trabalhados pelo nosso presidente e que tivemos avanços em todos eles”, concluiu.

Boa leitura.

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Gostaríamos de uma avaliação do resultado das últimas eleições.

Nas eleições de 7 de março, o Movimento Ao Socialismo – Instrumento Político pela Soberania dos Povos conseguiu uma clara vitória, ganhando em 240 dos 336 municípios. São números que demonstram com clareza que o MAS-ISP não é só a primeira, como a única força política nacional, com presença em absolutamente 100% dos municípios.

Também venceu no primeiro turno em três departamentos (Cochabamba, Oruro e Potosí) dos nove, concorrendo em outros quatro no segundo turno (La Paz, Chuquisaca, Pando e Tarija) no próximo dia 11 de abril.

Em seu conjunto, as forças de oposição chegam a apenas 28%, somando mais de 40 partidos políticos e agrupações de direita. Creemos, por exemplo, tem apenas sete municípios em Santa Cruz e a Comunidade Cidadã, de Carlos Mesa, tem apenas três.

A vitória do MAS, em termos municipais, alcança 71,5% dos municípios. Não por isso vamos perder de vista que existe uma polarização, um perigo real, porque as maiores cidades, este eixo central, agrupa grande parte da população. A correlação urbano-rural não é a mesma de antes e este eixo Santa Cruz, com Luis Fernando Camacho no governo estadual; Cochabamba, com Mandred Reyes na prefeitura; e La Paz, com Ivan Arias na prefeitura, será coordenado pela oposição. Camacho é conhecido por ser um golpista do Comitê Cívico; Manfred Reyes é um mercenário dos Estados Unidos e Ivan Arias foi ministro de Áñez. Estes três vão tentar rearticular a direita.

“O discurso de que o MAS perdeu é completamente falso, é uma mentira. Temos 15 prefeituras a mais do que em 2015”

Mas o discurso de que o MAS perdeu é completamente falso, é uma mentira. Temos 15 prefeituras a mais do que em 2015. Em termos quantitativos, podemos dizer que avançamos. Em Santa Cruz, saímos de 32% para 38%.

O que acontece é que nas cidades maiores a correlação de forças é distinta, com maior presença e influência dos Comitês Cívicos e das classes médias mais acomodadas e, historicamente, mais ligadas à oligarquia. Desde quando assumiu Evo Morales esta é a realidade.

Consolidamos vitórias em mais prefeituras do que em 2015. No entanto, creio que erros de leitura e algumas nomeações [sem consulta] de candidatos nos impediram de ter uma presença ainda maior. O caso mais evidente é o de El Alto, com a ex-presidente do Senado, Eva Copa, que saiu do MAS para concorrer à Prefeitura. Mas, infelizmente, não é o único. Eva Copa cumpriu o seu papel numa época de ditadura, frente a ausência das lideranças que estávamos acostumados a ter. Isso aconteceu após a renúncia forçada da presidência do Senado, Adriana Salvatierra, e do presidente da Câmara dos Deputados, Victor Borda. Creio que Eva Copa pensou construir uma frente a partir da Assembleia Legislativa Plurinacional para colocar um freio aos abusos dos decretos supremos. O crédito do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, nunca foi aprovado pela Assembleia, da mesma forma que quando os militares foram intimidar os parlamentares pelas suas promoções, não receberam uma resposta positiva.

Não sairei em sua defesa [de ter abandonado o MAS para concorrer por outro partido, o Jallalla] – mas penso que foi um erro não avaliar a situação com as organizações sociais e confiar cegamente num par de autointitulados porta-vozes do MAS, que talvez tenham feito sua leitura com mero interesse pessoal. São erros que pagamos, como demonstram os fatos. Copa não foi recentemente à reunião do Comitê Cívico, disse que condena essa articulação e que nunca irá se sentar na mesa de quem chama de “bestas desumanas” as pessoas de El Alto. Penso que fará uma oposição distinta.

Neste período de governo, quais os avanços de Arce? O que é mais chave no enfrentamento à pandemia e à crise?

Acredito que são três os eixos que precisam ser trabalhados pelo nosso presidente e que tivemos avanços em todos eles. O primeiro é que a partir de que assumiu um governo democraticamente eleito, se pode respirar tranquilidade. Diferente de antes, quando todos tínhamos que viver com o “crucifixo na boca”, bem caladinhos. O que mais se valoriza é termos recuperado a liberdade de expressão, sabendo que não seremos perseguidos ou presos. O que valorizamos é o clamor pela justiça e pelo basta à impunidade. Agora não aceitamos que uma ínfima minoria que estava no governo use da mídia para se vitimizar. Este ponto acredito que é chave: nós queremos justiça para os nefastos meses de saque, repressão, massacre e violações de direitos humanos. Eles queriam o esquecimento. Então, para uma grande parcela da população, demorou até que se tenham começado os julgamentos e as detenções. Porém é um avanço.

“Há um plano de ação na questão da compra das vacinas, no combate ao coronavírus. Estamos avançando com investimentos na saúde pública. A luta contra a Covid deu uma guinada de 180 graus”

O segundo eixo é que há um plano de ação na questão da compra das vacinas, no combate ao coronavírus. Estamos avançando com investimentos na saúde pública. Em pleno processo de vacinação, o método de luta contra a Covid não é mais o da repressão, como nos tempos de Áñez. Naquele período se militarizava as ruas, se perseguiam os comerciantes, se amedrontava e prendia. Hoje a estratégia é a do diagnóstico massivo, de colocar a ciência e a pesquisa em benefício da população. As vacinas estão chegando, tendo sua distribuição prioritária a partir de uma política de idade, de necessidades. Se nota que há uma estratégia pensando no povo. É importante que não há mais a concepção de assaltar os cofres do Estado, como com Áñez. Agora temos um governo transparente e responsável em que a luta contra a Covid deu uma guinada de 180 graus.

E o terceiro ponto é que acabaram as leis de desmontagem do Estado com as quais o governo Áñez provocou um desastre no plano econômico, político e social. Assim, foram anulados os decretos supremos que violavam a Constituição e estão sendo aplicadas novas leis, como a da taxação das grandes fortunas, ao mesmo tempo em que se fortalece mais quem ganha menos, com a recuperação de parte do Imposto sobre o Valor Agregado (IVA). Começou a haver um avanço social, político e econômico nas leis, o que traz resultados e gera aumento da confiança. Porque há um desejo de recuperar a democracia, mas também a economia.

E qual a importância dos meios de comunicação popular no combate ao retrocesso?

Talvez uma das debilidades do nosso governo seja o tema comunicacional. Ainda não temos uma clara estratégia de comunicação e isso se reflete na falta de maior investimento nos meios alternativos e dos povos originários. Não é evidentemente como no golpe, mas não há orçamento e, junto com isso, ainda temos uma certa inércia na luta política.

Até o momento conseguimos colocar em funcionamento tão somente cerca de 35 rádios de povos originários, enquanto antes do golpe tínhamos 85. E temos uma debilidade de funcionamento porque há dificuldade de compreender o nó econômico, pois não há contratos para a sustentação destas emissoras.

Ao priorizar outras rubricas e deixar de investir e fortalecer como se deve o bloco popular, o campo da mídia alternativa e dos povos originários, nos enfraquecemos para a disputa política e ideológica. Na minha modesta opinião, não está havendo o investimento necessário. Precisamos de uma clara estratégia comunicacional que permita um contraponto a esta ofensiva dos meios hegemônicos, que se vitimizam, mas que se calaram durante o golpe. Gente que se fez de surda diante dos testemunhos das vítimas, que nada disse das perseguições e das detenções, que calou diante dos mais de 1.800 presos e dos detidos sem julgamento. Gente que nada falou dos mais de 800 feridos nem dos 38 mortos ou da dor das famílias. Nada disso lhes comoveu. A presidente que assinou o decreto 4078 foi quem deu permissão para matar nos massacres, que mandou reprimir. É ela quem está encarcerada, aguardando julgamento, mas com todas as condições. Agora acusam o governo de Luis Arce de ditatorial, que Añez e os seus não estariam tendo os seus direitos respeitados. Mas tem médicos privados, seus filhos levam comida especial. Que direitos humanos estão sendo desrespeitados? O fato é que tentam vitimizar Añez, como se a sua prisão não fosse resultado da Justiça, mas de vingança.

 

“Não queremos nem esquecimento nem perdão, e é um dever do Estado reverberar. Em nossos meios alternativos sempre houve espaço para denunciar a ditadura de Áñez”

 

Não queremos nem esquecimento nem perdão, e é um dever do Estado reverberar. Em nossos meios alternativos sempre houve espaço para denunciar a ditadura de Áñez, para que se soubesse das pessoas detidas injustamente, das que perderam seus familiares, que foram feridas. Daí a importância de demonstrar que não se trata nem de perseguição nem de vingança. O que não pode é que o direito dessa meia dúzia que tomava decisões se sobreponha ao dos demais. Estamos falando de ministros e da autonomeada presidente que provocou milhares de vítimas. Numa balança é necessário e equitativo ouvir as duas partes. A diferença é que, naquele tempo, o simples fato de encontrarem uma foto crítica a Áñez no celular era motivo de tomar o aparelho, te levar preso e te deixar meses na cela. Esta era a dimensão do problema, a completa violação dos direitos.

Agora há investigação, há detenção prévia [ao julgamento]. Foi ampliada de quatro para seis meses a prisão de Áñez e de dois de seus ministros. Mas os dois principais cabeças, Arturo Murillo, ministro de Governo, e Luiz Fernando Lopez, de Defesa, que fugiram do país, ainda precisam prestar contas à Justiça. Neste ponto a Justiça está jogando um papel muito lamentável. Sobre a atuação de elementos tão daninhos como o miliciano Yassir Molina, da Resistência Juvenil Cochala, dos motoqueiros, existem não só vídeos, como vítimas identificáveis de agressão. E ele anda solto. Está documentada como era a sua forma de proceder e ele está podendo se defender em liberdade. Os juízes, portanto, continuam se portando aquém da altura das necessidades do povo.

O fato é que quem continua agindo nos tribunais é gente de confiança de Áñez. Os presidentes das nove cortes dos departamentos e do Tribunal de Justiça, continuam sendo os árbitros de Áñez, o mesmo o do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Há uma tentativa de colocar panos quentes nas acusações contra os golpistas, minimizar a gravidade dos seus crimes. Qual a sua análise?

Acho que as coisas devem ser chamadas pelo seu nome e que o julgamento deve ser feito por genocídio. Por isso não devíamos ter iniciado pelas imputações dos casos que não são os mais graves. O que todos os bolivianos querem é que sejamos firmes e os criminosos paguem pelos delitos de lesa-Humanidade, de saque, desfalque e corrupção que fizeram nestes 11 meses.

Foi interessante ver Comitês Cívicos que estiveram se rearticulando e destilando mensagens de ódio, chegando inclusive a convocar uma reunião com algumas autoridades eleitas, se esvaziando. Mesmo Manfred Reyes e Ivan Arias, que são da linha política de Camacho, deram um jeito de dizer que não poderiam comparecer, porque sabem que isso iria provocar uma reação. Muitos do bloco da direita que eram anteriormente beligerantes, agora baixaram o tom de voz e, de lobos ferozes, viraram mansos cordeirinhos.

E o segundo turno das eleições estaduais de 11 de abril?

Há quatro departamentos em que apenas será definido o governador, uma vez que os parlamentares a nível nacional, estadual e municipal já foram eleitos. Agora será o segundo turno dos governos de La Paz, Tarija, Chuquisaca e Pando. A Constituição boliviana declara vencedor no primeiro turno o candidato que tiver maioria absoluta ou 40% dos votos com dez pontos de vantagem em relação ao segundo colocado. Está havendo uma disputa muito intensa. Em La Paz, o candidato do MAS, Franklin Flores, alcançou 39,7%, faltou apenas 0,3% dos votos para vencer no primeiro turno. Agora o perigo que enfrentamos são as alianças eleitorais. Mas o partido está mobilizado e consciente da sua responsabilidade com o país.



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