Pelo Mundo

'Era como uma bomba relógio': como o ICE ajudou a disseminar o coronavírus

Uma investigação do New York Times e do Projeto Marshall revela como o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário (ICE) se tornou um disseminador do coronavírus

14/07/2020 11:58

(Sabin Johnson/Anadolu Agency via Getty Images)

Créditos da foto: (Sabin Johnson/Anadolu Agency via Getty Images)

 
Admild, um imigrante do Haiti sem documentos, estava se sentindo doente ao se aproximar do avião de deportação que iria levá-lo de volta ao país que ele deixou por medo. Duas semanas antes desse dia em maio, enquanto estava detido em uma instalação de detenção do ICE em Luisiânia, ele havia testado positivo para o coronavírus – e ainda demonstrava sintomas.

Ele falou sobre sua condição para um oficial do ICE no aeroporto, que o enviou para uma enfermeira.

“Ela só me deu Tylenol”, disse Admild, que teme por represálias caso seu sobrenome seja divulgado. Não muito tempo depois, ele estava de volta ao avião antes de pousar em Porto Príncipe, um dos mais de 40.000 imigrantes deportados dos EUA desde março, de acordo com dados do ICE.



Mesmo enquanto lockdowns e outras medidas foram tomadas ao redor do mundo para evitar a disseminação do coronavírus, o ICE continuou a deter pessoas, movê-las de estado para estado e deportá-las.

Uma investigação do NYT com o Projeto Marshall revela como condições inseguras e testagens desorganizadas ajudaram a transformar o ICE em um disseminador doméstico e global do coronavírus – e como a pressão da administração Trump levou países a receber deportados doentes.

Conversamos com mais de 30 imigrantes detidos que descreveram centros de detenção lotados e insalubres nos quais o distanciamento social era quase impossível e equipamentos de proteção quase não existiam. “Era como uma bomba relógio”, disse Yudanys, imigrante cubano detido em Luisiânia.

Ao menos quatro deportados entrevistados pelo The Times, da Índia, Haiti, Guatemala e El Salvador, testaram positivo para o vírus pouco depois de chegar nos EUA.

Até agora, o ICE confirmou ao menos 3.000 detidos testados positivo para coronavírus em centros de detenção, mesmo com a limitação das testagens.

Rastreamos mais de 750 voos domésticos do ICE desde março, carregando milhares de detidos para centros diferentes, incluindo alguns que já haviam dito que estavam doentes. Kanate, refugiado do Quirguistão, foi transferido da Instalação Correcional do Condado de Pike na Pensilvânia para o Centro de Detenção no Texas mesmo mostrando sintomas de covid-19. Foi confirmado que ele estava infectado apenas alguns dias depois.

“Eu estava em pânico”, ele disse. “Eu pensei que ia morrer nessa prisão.”

Também rastreamos mais de 200 voos de deportação carregando migrantes, alguns doentes com o coronavírus, para outros países de março até junho. Sob pressão da administração Trump e com promessas de ajuda humanitária, alguns países cooperaram integralmente com as deportações.

El Salvador e Honduras aceitaram mais de 6.000 deportados desde março. Em abril, o presidente Trump elogiou os presidentes de ambos os países pela sua cooperação e disse que enviaria ventiladores para ajudar a tratar os infectados mais doentes.

Até agora, os governos de 11 países confirmaram que deportados retornaram para casa com covid-19.

Quando perguntando sobre o papel da agência na disseminação do vírus ao mover e deportar pessoas doentes, o ICE disse que tomou precauções e seguiu diretrizes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Na semana passada, o ICE disse que ainda era capaz de testar somente alguns imigrantes antes de enviá-los para casa. Ainda assim, os voos de deportação continuam.

Transcrição do vídeo:

Esses quatro imigrantes têm algo em comum. Eles foram recentemente deportados dos EUA, e todos tinham o coronavírus. Mesmo enquanto medidas extremas eram tomadas ao redor do mundo para evitar a disseminação da covid-19, o ICE continuou a deter pessoas nos EUA, movê-las de estado para estado e então deportá-las para outros países. E com elas, o vírus.

O NYT em colaboração com o Projeto Marshall entrevistou detidos doentes em centros de detenção do ICE nos últimos quatro meses. Rastreamos centenas de voos de deportação domésticos e internacionais. Conversamos com funcionários da companhia aérea que operam esses voos. E conversamos com deportados que foram infectados da Guatemala, El Salvador, Índia e Haiti.

O ICE diz que seguiu diretrizes do CDC, mas nossa investigação revela como condições inseguras e testagens desorganizadas transformaram o ICE em um disseminador doméstico e global do coronavírus, e como a pressão da administração Trump forçou países a receberam deportados doentes mesmo tendo em vista o risco. Para entender como o ICE disseminou o vírus, vamos olhar primeiro para como funciona seu sistema de detenção.

Em um dia comum, o ICE detém dezenas de milhares de imigrantes em uma rede privada de instalações, prisões estaduais e prisões distritais ao redor dos EUA. Entre esses detidos estão requerentes de asilo, imigrantes sem documentos e pessoas com “green card” porém com condenações deportáveis. Eles são mantidos no que é chamado de detenção civil enquanto esperam pelos julgamentos para determinar se podem permanecer nos EUA. Quando os detidos perdem seus casos e suas deportações são exigidas, o ICE os transporta para outros centros de detenção em Luisiânia, Texas, Arizona ou Flórida. De lá, os imigrantes são levados de volta aos seus países.

Embora o presidente Trump tenha declarado o coronavírus como emergência nacional em 13 de março, o ICE continuou a retirar imigrantes da comunidade e a detê-los em instalações onde as condições eram propícias para a disseminação do vírus. Conversamos com mais de 30 detidos que descreveram os centros onde o distanciamento social era impossível, e onde equipamentos de proteção não eram fornecidos.

Yudanys, imigrante cubano, foi detido originalmente no Centro Correcional de Catahoula em Luisiânia enquanto esperava a decisão sobre seu caso de asilo. Quando Yudanys estava em Catahoula, já havia um caso confirmado do vírus – dentro de um mês 60 detidos testaram positivo. Ele testou positivo para covid-19 em maio.

Até agora, o ICE confirmou ao menos 3.000 detidos infectados, mesmo com a limitação da testagem. Mesmo os centros de detenção terem se tornado um antro para o vírus, o ICE regularmente movia detidos ao redor dos EUA. Rastreamos mais de 750 voos domésticos nos EUA que carregaram milhares de detidos para centros diferentes desde que foi declarada a emergência nacional. O ICE contrata esses voos de uma companhia chamada iAero, que opera a Swift Air. Uma aeromoça da Swift, que pediu para permanecer anônima, nos disse que detidos de diferentes centros são coletados e transportados juntos. Ela e diversos outros empregados da companhia aérea disseram que esses voos, que estavam sob comando do ICE, não contaram com medidas de proteção por mais de um mês depois que a emergência nacional foi declarada. A Swift Air negou comentar essa história.

Mas o ICE confirmou que a companhia aérea não tinha equipamentos de proteção pessoal para todos os seus funcionários até o meio de abril. Kanate, um refugiado do Quirguistão, é um dos que foram transportados de um lugar para outro. Ele estava morando nos EUA há 20 anos com sua esposa e seus dois filhos quando foi detido em 2019. Em abril, Kanate foi movido da Instalação do Condado de Pike na Pensilvânia para Praireland no Texas, mesmo estando doente. Kanate testou positivo para o vírus dois dias depois de chegar no Texas. O ICE disse que os protocolos de detenção e transferência seguem diretrizes do CDC. Enquanto o ICE estava movendo pessoas doentes ao redor dos EUA, também estava deportando-as para outros países e exportando o vírus com elas.

Rastreamos mais de 200 voos de deportação de março até junho, e confirmamos que dezenas de detidos com covid-19 foram levados de volta para 11 países – todos haviam decretado restrições nas fronteiras. Mas poderia haver muitos outros deportados infectados.

O ICE nos disse que deportaram quase 40.000 imigrantes de 138 países desde março. Kanate nos disse que quatro pessoas que dormiam junto com ele testaram positivo ou tiveram sintomas, mas foram deportados para a Índia mesmo assim. Um deles falou conosco depois de chegar em casa. Ele pediu para permanecer anônimo. Ele foi um dos 22 do seu voo que testaram positivo na chegada. Admild, um imigrante do Haiti, sabia que tinha o vírus mesmo antes de ser deportado. Ele testou positivo para covid-19 enquanto estava detido em Luisiânia. Ele foi colocado em quarentena e deportado duas semanas depois. Admild disse que ainda tinha os sintomas dias depois de pousar.

Das centenas de voos de deportação que rastreamos, a América Central foi a região mais afetada. Quase 60% desses voos foram para Honduras, Guatemala e El Salvador, todos países que fecharam suas fronteiras para tentar conter o vírus. O governo guatemalteco disse que 186 deportados testaram positivo para covid-19, até agora.

Conversamos com Lourdes, que era uma das 30 passageiras em um único voo que testaram positivo depois da chegada. Lourdes foi hospitalizada alguns dias depois do pouso. El Salvador, por outro lado, disse que nenhum deportado chegou com o vírus. Mas falamos com Jorge, que disse que começou a se sentir doente enquanto estava no Centro Correcional de Catahoula em Luisiânia antes de ser deportado para El Salvador. Ele disse que era um dos 32 nesse voo que testaram positivo.

Dezenas de deportados estão sendo mantidos em centros de quarentena como em El Salvador. Fontes de dentro nos disseram que, ao menos, 10 casos de covid-19 foram confirmados nesses centros. O governo salvadorenho não respondeu nosso pedido por comentários. Uma pergunta chave em tudo isso é porque alguns países continuaram a receber deportados doentes enquanto outros recuaram.

A administração Trump ameaçou governos com sanções de vistos e cortes em ajuda humanitária se não cooperassem com as deportações. El Salvador e Honduras receberam milhares de deportados desde março, mesmo com os casos de covid subindo e com uma insfraestrutura pobre para abordar a pandemia.

Em abril, Trump elogiou os presidentes de ambos os países pela sua cooperação, e disse que enviaria ventiladores. Guatemala foi menos complacente, seu presidente foi direto. A Guatemala pediu aos EUA para testar migrantes, e temporariamente bloqueou voos. Mas três dias após Trump ameaçar os países que se recusassem a receber os deportados, os voos para a Guatemala foram retomados. O ICE confirmou para nós que somente conseguem administrar alguns testes antes de enviar imigrantes para casa. Ainda assim, os voos continuam e detidos doentes continuam a ser deportados.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares



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