Pelo Mundo

"Esta é uma revolução pelo Twitter e pelo Facebook"

30/01/2011 00:00

Cairo – Dia de oração ou de fúria? Todo o Egito esperava o sabbath muçulmano – para não mencionar os terríveis aliados do Cairo – enquanto o presidente ancião do país se aferra ao poder, depois de noites de violência que sacudiram a fé estadunidense na estabilidade do regime.

Até agora morreram 5 homens durante os distúrbios e quase outros mil foram encarcerados. A polícia golpeou mulheres e pela primeira vez um escritório do partido governante, o Partido Nacional Democrático foi incendiado. Os rumores são aqui tão perigosos como gás lacrimogênio. Um jornal do Cairo disse que um dos principais conselheiros de Hosni Mubarak voltou de Londres com 97 maletas repletas de dinheiro, mas outros repórteres falam de um presidente furioso, que grita para o alto comando das polícias, porque não trataram com mais severidade os manifestantes.

Mohamed el Baradei, prêmio Nobel e ex-funcionário da Organização das Nações Unidas (ONU) voltou sexta-feira ao Egito, mas ninguém acredita – salvo talvez os estadunidenses – que possa concentrar em torno de si os movimentos de protesto que surgiram em todo o país.

Já há sinais de que quem está farto do regime corrupto e antidemocrático de Mubarak estão convencendo os policiais mal pagos que patrulham o Cairo a se unirem a eles. Irmãos! Quanto lhes pagam? Uma multidão começou a gritar aos policiais da capital. Mas ninguém negocia: não há nada a negociar, exceto a partida de Mubarak para o exílio; e o governo egípcio não diz nem faz nada, que é mais ou menos o que vinha fazendo durante as três décadas passadas.

As pessoas falam de revolução, mas não há quem substitua os homens de Mubarak – que jamais tinha designado um vice-presidente -, e um jornalista egípcio me disse na sexta passada que tinha encontrado alguns amigos que lamentavam pelo presidente isolado e solitário. Mubarak tem 82 anos de idade e ainda assim insinuou que postulará de novo a presidência, para indignação de milhões de egípcios.

A verdade nua e horrível, no entanto, é que, salvo por sua polícia brutal e seu exército execravelmente dócil – o qual, por certo, não vê Gamal, o filho de Mubarak, com agrado -, o governo carece de poder. Esta é uma revolução pelo Twitter e pelo Facebook e há muito que a tecnologia derrubou as normas caducas da censura.

Os homens de Mubarak parece terem perdido toda iniciativa. Os jornais de seu partido estão cheios de autoengano: jogam as notas sobre as manifestações para os pés da primeira página, como se com isso fossem tirar as multidões das ruas; como se, de fato, pelo apequenamento das notas os protestos jamais tivessem ocorrido.

Mas não se precisa ler os jornais para saber o que se tem falado. A sujeira e as cidades perdidas, confusas, os esgotos a céu aberto e a corrupção de todo funcionário público, as prisões superlotadas, as eleições risíveis, todo o vasto e esclerosado edifício do poder levou, por fim, os egípcios às ruas.
Amr Moussa, chefe da Liga Árabe, apontou algo importante na recente reunião de cúpula dos países árabes, no centro turístico egípcio de Sharm el Sheikh: Túnis não está longe de nós: os homens árabes estão destroçados.

Mas será verdade mesmo? Um velho amigo me contou uma história horrível de um egípcio pobre que afirmou não ter interesse em afastar os chefes corruptos de suas comunidades do deserto. Ao menos agora sabemos onde vivem, disse. Há mais de 80 milhões de pessoas no Egito, 30% delas são menores de 20 anos e já não tem medo.

Uma espécie de nacionalismo egípcio – mais que islamismo – faz-se sentir nas manifestações. O dia 25 de janeiro é o Dia Nacional da Polícia – para honrar a força que deu a vida combatendo as tropas britânicas em Ismailia -, e o governo reprimiu os manifestantes, dizendo que eles desonravam os mártires. Não, gritaram as multidões: esses policiais que morreram em Ismailia eram homens valentes; seus descendentes atuais, de uniforme, não nos representam.

O governo, no entanto, não é tonto. Há certa astúcia na liberação gradual da imprensa e da televisão nesta pseudodemocracia desengonçada. Deu aos egípcios apenas o ar suficiente para respirar, para mantê-los calados, para desfrutar sua docilidade nesta vasta terra laranja. Agricultores e não revolucionários, mas quando vários milhões invadiram as cidades, os bairros baixos e a casas em ruínas e as universidades, as quais lhes deram os títulos mas não empregos, alto teria de ocorrer.

“Estamos orgulhosos dos tunisianos: eles mostraram aos egípcios o que é ter orgulho – disse um colega egípcio, nesta sexta. Foram uma inspiração, mas aqui o regime foi mais rápido que o de Ben Ali, em Túnis. Passou um verniz de que tolera uma oposição, ao não prender toda a Irmandade Muçulmana e a dizer logo aos estadunidenses que o grande perigo é o islamismo, que Mubarak é o único que se interpõe entre eles e o “terror”...mensagem que Washington tem se disposto a escutar ao longo dos 10 anos passados.

Existem várias pistas de que as autoridades no Cairo se preveniram acerca do que se avizinhava. Vários egípcios me disseram que em 24 de fevereiro agentes de segurança descolariam imagens de Gamal Mubarak nos bairros baixos, por temor de que provocassem as multidões. Mas o grande número de detenções, os golpes da polícia – em homens e mulheres, igualmente – e o quase colapso do mercado egípcio de valores tem mais a marca do pânico do que a da astúcia.

E um dos problemas foi criado pelo próprio regime: o sistema se desfez de toda pessoa dotada de carisma; expulsou-as do país, e castrou politicamente qualquer oposição real, ao prender muitos dissidentes. Os estadunidenses e a União Europeia pedem que o regime escute o povo, mas que povo e quem são seus líderes? Não é um levante islâmico – embora possa chegar a sê-lo, mas, salvo a cantilena da participação da Irmandade Muçulmana nas manifestações, é apenas uma massa de egípcios asfixiada por décadas de fracasso e humilhação.

No entanto, tudo o que os estadunidenses parecem capazes de oferecer a Mubarak é uma sugestão de reformas, coisa que os egípcios já escutaram muitas vezes. Não é a primeira vez que a violência chegou às ruas do país. Em 1977 houve tumultos por comida – eu estava então no Cairo e havia muitas pessoas famintas e excitadas; o governo de Anuar Sadat conseguiu controlar as pessoas baixando os preços dos alimentos e aplicando prisões e tortura. Tem havido motins policiais que o próprio Mubarak tem reprimido. Mas isso é algo novo.

É interessante que não parece haver animosidade contra os estrangeiros. Muitos jornalistas foram protegidos pelas multidões e – apesar do deplorável apoio de Washington a ditadores do Oriente Médio – nem uma só bandeira dos EUA foi queimada. Isso mostra o que é novo. Talvez um povo tenha crescido... só para descobrir que seus governantes envelhecidos são todos crianças.

Tradução: Katarina Peixoto

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