Pelo Mundo

''Macri é um novo Nero''

Juan Carlos Monedero analisa qual é a novidade da aliança peronista Frente de Todos, e porque sua campanha alcançou um grande triunfo diante do macrismo

19/08/2019 13:37

 

 
Fundador do partido espanhol Podemos e professor de Ciência Política, este madrilenho de 56 anos é um dos acadêmicos ibéricos mais sensíveis à realidade da América Latina e da Argentina. Falamos de Juan Carlos Monedero, que visitou organizações sociais argentinas e teve, durante sua estadia, encontros com dirigentes e candidatos.

Em entrevista ao Página/12, em um bar do bairro San Telmo, em Buenos Aires, o cientista político afirmou que a vitória da aliança peronista Frente de Todos deixou ensinamentos. Ele acredita que “aumentaram as possibilidades de triunfo quando as forças populares se centram no social (emprego, preço da luz e do gás, sucateamento da educação, da saúde e das aposentadorias), quando se alcança a unidade de todo o campo progressista, quando se cria comunidades escutando mais as pessoas que o marketing, e quando não se mente. Quando se escuta mais o marketing e se está mais atento à construção do seu relato, acontece o mesmo que aos maridos infiéis. Tem que tentar fazer com que todas as mentiras sejam não se desmintam, e no final não há mais como conectá-las. O marketing leva às contradições que debilitam a ideologia e geram muita desconfiança entre a população. A mudança, se você se centra no aspecto social, têm uma linha ideológica clara. Tem um corpus”.

As coisas concretas são o que pauta a agenda?

Vivemos em sociedades capitalistas, que são sociedades de classes, onde não se pode estar a favor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos recicladores de papelão ao mesmo tempo. A realidade obriga a dizer de que lado cada um está. No momento em que você demonstra abertamente de que lado está, isso fixa os critérios da frente popular. O mais esclarecedor é pensar as decisões concretas que deves tomar sobre as políticas públicas. A partir daí não há mais discussão.

Sempre que haja realismo, não?

Olha, isso é uma mescla de inteligência e humildade. É possível comprar os serviços de uma consultora caríssima e comprar pesquisas, espaços publicitários e o que mais seja necessário. Ou pode escutar as pessoas. Subir num carro e percorrer 160 mil quilômetros. Há dois grandes estilos. As campanhas daqueles que não têm nenhuma base popular, gente como Mauricio Macri, Jair Bolsonaro e Donald Trump, que se fundamentam no dinheiro. E a outra fórmula e a dos Lula, dos Mandela, dos Evo, que visitam povoado por povoado, que se deixam tocar pelo povo. Aqui há um elemento muito importante. A Espanha é muito é muito dependente dos especialistas de comunicação e marketing. Todos conhecemos o assessor eleitoral de Macri (o publicitário equatoriano Jaime Durán Barba), mas ninguém sabe quem é o responsável pela ideologia do macrismo. Parece que as ideias valem menos que as habilidades em comunicação. No final, Rosa Luxemburgo tinha razão ao dizer que o partido trabalhara para se impor na sociedade, o comitê central se impõe sobre o partido, e o secretário-geral para se impor sobre o comitê central. Mas agora, o publicitário se impõe sobre o secretário-geral.

Na Argentina, até antes das primárias, parecia que o dono da big data, das informações sobre a vida e a obra de cada eleitor, ganharia só por isso.

O big data funciona se você pode enviar mensagens segmentados à população. É algo que existe e é caro, não tão fácil como dizem, mas chega a cada pessoa com uma mensagem personalizada. Na Espanha, Facebook e Whatsapp criaram obstáculos aos partidos políticos para fazer isso. E isso que o Facebook sempre tratar pior os partidos progressistas que os da direita. Mas nem sempre ganham. Na Argentina, foram derrotados os caminhadores brancos. E isso que, como na série “Game of Thrones”, eles pareciam invencíveis.

E por que não foram invencíveis?

Estamos diante de uma mudança de ciclo, mais favorável à direita que à esquerda. As novas gerações não têm memória dos direitos trabalhistas. Sua socialização foi em um mundo sem clemência, mais competitivo, mais selvagem. Os efeitos da crise de 2008 foram demolidores com os velhos direitos trabalhistas. E coisas que eram parte do sentido comum para as gerações anteriores, como os convênios e a existência dos sindicatos, as jornadas de trabalho fixas, os salários dignos, entre outras, desapareceram de repente. Mas há outra questão, que é mais importante na América Latina que na Europa: os governos de transformação social deixaram mais marcas que o que nós costumamos reconhecer. É verdade que ganharam Macri na Argentina, Sebastián Piñera no Chile, Bolsonaro no Brasil, que ganhou Lenín Moreno no Equador e depois virou a casada, mas a experiência de direitos dos governos pautados pela transformação social está presente. Também é o que explica que, apesar de todos os erros cometidos, ainda há um setor popular amplio que apoia Nicolás Maduro. Na Espanha, o deserto de 40 anos de ditadura e dos 40 de convalescência democrática levaram o país a conhecer uma nova geração, a dos indignados, que pensam as coisas de forma diferente. Isso também explica por que o neoliberalismo não gosta de lidar com a memória.

Por que?

Porque a memória nos faz saber quem despertou nossa indignação, brigou por nossos direitos e marcaram o caminho à dignidade. Por isso o neoliberalismo não consegue lidar com os sindicatos. Os sindicatos expressam a memória das lutas e ensinam a reclamar pelos direitos. É curioso que também há uma memória vinculada à nação. Quando vejo o que ocorre hoje com a manipulação do conceito de “mudança”, se reforça a minha ideia de que Macri não tem pátria. E que há um empresariado global muito vinculado ao mundo financeiro e aos mercados especulativos, que tampouco tem pátria. Gente como Macri tem, por um lado, um enorme desprezo de classe, e por outro, o também enorme privilégio da impunidade, o que os permite viver desterritorializados, como se nada os afetasse. Como se estivessem fora deste mundo que eles constroem, manipulam e definem. Por isso existe o alto risco de que, nestes dois meses, Macri prefira atear fogo na Argentina em vez de aceitar que ficou sem saída. O macrismo é uma besta ferida, disposta a morrer matando. Por isso, é urgente na Argentina de hoje que o atual presidente moral da Argentina, que é Alberto Fernández, fale com os empresários patriotas, como já está fazendo, e com os responsáveis internacionais que estão manejando os interesses econômicos da Argentina. Macri é um novo Nero. Alberto deve evitar que esse novo Nero toque fogo no país inteiro, para depois ficar olhando, da sua mansão, como arde toda a Argentina.

O que pode acontecer com o FMI, que chegou a emprestar dinheiro, embora ele entrava no país e logo fugia para a mão dos especuladores?

Não descarto que o Fundo tenha que prestar contas pelo uso ilegítimo e quase certamente ilegal que fez do empréstimo à Argentina, que claramente teve fins eleitorais. Assim como os setores financeiros que estão especulando com o peso, o FMI deverá prestar contas com os órgãos pertinentes. A desvalorização do peso após as primárias é uma obra de terrorismo financeiro que pode ser entendida pela lógica dos fundos abutre, mas não para a do presidente de um país.

Você se encontrou com dirigentes e candidatos da Frente de Todos. Que novidade encontrou?

Na Argentina há um choque entre a sensibilidade que se deve ter diante das enormes desigualdades dos que sofrem e a sensibilidade de também se deve ter pelos que não sofrem tanto em carne própria, mas que se preocupam pelos interesses coletivos. Há um choque entre as pessoas mais sensíveis ao aquecimento global, as mais sensíveis à causa feminista. Esses elementos juntos estão reconfigurando a política na Argentina. Me chama muito a atenção ver esta frente ampla construída em prol da candidatura da Frente de Todos. O peronismo é a nave mãe, mas há mais partidos, setores, movimentos sociais e sindicais envolvidos. Todos entenderam que não se podem mais lidar com a realidade com as ferramentas do passado.

E na Espanha?

Para se ter uma maioria absoluta no Congresso é preciso ter 176 votos. Os partidos de direita unidos têm 147. O PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, do presidente Pedro Sánchez) tem 123. O Podemos tem 42. Para construir um governo estável é preciso somar os 165 do PSOE e do Podemos juntos. Depois, será preciso outros 11 votos, e há um acordo com os deputados nacionalistas bascos e catalães, para que exista também uma solução ao conflito territorial na Espanha. Mas o PSOE parece preferir governar em solitário. Os socialistas têm um terço do parlamento e querem ter 100% dos cargos de governo. Quis estabelecer um acordo de governo em apenas 48 horas de diálogo, o que é uma frivolidade, e apresentou ao Podemos uma oferta vazia. Uma vice-presidência sem atribuições, um ministério pouco importante e a administração de entidades cujas autonomias estão em risco de serem desmontadas pela promessa de mais poder às comunidades autônomas. Eles ainda têm 40 dias para resolver esse problema (ou então, serão convocadas novas eleições. Veremos o que acontece.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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