Pelo Mundo

'O Euro pode ser inviável sem a Grécia'

A Carta Maior entrevistou o ex-presidente do Banco Central do Chipre, que sabe bem o que são restrições bancárias, já que lidou com cenário semelhante

03/07/2015 00:00

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As restrições bancárias que começaram na segunda-feira (29/6) estão sufocando o consumo, os investimentos e a produção de uma economia que já estava na corda bamba. As crônicas jornalísticas registram que em algumas empresas não houve nenhum cliente durante todo o dia. Com um limite de 60 euros, sem garantias de que os caixas eletrônicos tenham dinheiro no futuro, a reação de alguns setores foi a de guardar o máximo possível de dinheiro em casa, como um seguro para um futuro onde não se sabe o que vai sobrar. O impacto está começando a ser sentido em algumas pesquisas sobre o referendo de domingo, que dão uma ligeira vantagem ao “sim”, a favor da austeridade proposta pela Troica. Em entrevista à BBC, um taxista disse, quase chorando, que votaria pelo sim, não porque está a favor da austeridade, mas porque tinha filhos e se sentia “muito fraco para resistir”.
 
Numa recente carta aberta publicado pelo Financial Times, Joseph Stiglitz (Prêmio Nobel de Economia em 2001), Thomas Piketty, o ex-primeiro-ministro italiano Massimo D'Alema e outros 25 economistas defenderam a retomada das negociações com a Grécia. Um dos assinantes da carta foi o ex-presidente do Banco Central do Chipre, Panicos Demetriades, que atualmente é professor da Universidade de Leicester. Demetriades sabe bem o que são as restrições bancárias, já que lidou com cenário semelhante durante a crise cipriota, em 2013. A Carta Maior conversou com Demetriades sobre a margem de manobra que a economia grega tem hoje, estando com a corda no pescoço.
 
Carta Maior – As restrições estão afetando toda a economia. Quanto tempo a Grécia pode aguentar essa situação?
 
Panicos Demetriades – Ninguém está a salvo de uma situação assim. O consumidor não tem dinheiro para comprar, o empresário não pode pagar salários, as companhias não podem importar material imprescindível. Um sistema bancário disfuncional impacta toda a população. Não me surpreenderia se começasse a haver problemas de acesso aos produtos de primeira necessidade. Muitos aposentados não têm cartão para poder usas os caixas eletrônicos, e precisam pegar enormes filas nos bancos. Os turistas, tão importantes para a economia grega, começarão a desistir de viajar ao país, já que muitas agências e ministérios de relações exteriores advertem esses problemas e aconselham a levar dinheiro e evitar usar os caixas, que em breve já não terão cédulas. Se continuar assim, na próxima semana, as coisas se agravarão mais, e a economia se paralisará por completo. Não vejo uma saída, a não ser que haja um acordo entre a Grécia e os credores. Se não houver, teremos um longo período em que os bancos terão que permanecer fechados e só voltarão a abrir quando haja uma nova moeda. Contudo, uma coisa é falar de uma nova moeda, outra é implantá-la. A logística para a criação de uma nova moeda dura pelo menos três meses. Sem contar as complicações legais, econômicas e diplomáticas.
 
CM – O que aconteceria se, no domingo, os gregos decidem a favor da austeridade proposta pela Troica, tal como foi recomendado pela Alemanha e a Comissão Europeia?
 
Demetriades – Se votarem a favor, seria muito difícil que o primeiro-ministro Alexis Tsipras possa continuar no poder. Se renuncia, terá que convocar eleições, mas isso tampouco pode ser feito do dia para a noite, e durante esse processo, até a formação do novo governo, os bancos também permanecerão fechados. Portanto, não existe uma solução mágica a essa crise através do mero resultado do referendo. É verdade que, com a vitória do “sim”, é maior a possibilidade de que os bancos abram, mas isso não vai acontecer assim tão rápido.
 
CM – Se o resultado for a favor do “não”, Tsipras disse que voltará à mesa de negociação no dia seguinte. Muitos dirigentes europeus parecem se opor a isso. Em 2013, você lidou com uma crise similar no Chipre. Haverá uma nova negociação?
 
Demetriades – Inevitavelmente, vão ter que voltar a negociar, seja qual for o resultado do referendo. O único sentido deste referendo é o da retomada da negociação. Não creio que o resto da Europa ofereça novos termos para um acordo com a Grécia. Certamente colocarão sobre a mesa a mesma proposta.
 
CM – O próprio FMI considera que, no esquema atual, a dívida grega é impossível de administrar. Que sentido tem, então, aumentar a austeridade?
 
Demetriades – Nesse aspecto, o governo grego tem razão. O que estão oferecendo são acordos, mas não soluções. Estão segurando a bola no campo de ataque para ver quando podem fazer uma jogada de gol, mas sem muitas ideias sobre como solucionar realmente esse assunto. Não se pode continuar assim. É preciso algum tipo de alívio da dívida. Seja com a reestruturação da mesma, com prazos maiores, com taxas de juros menores ou períodos especiais. Para pagar a dívida é preciso ter crescimento, e o governo grego pediu que o pagamento fosse proporcional ao crescimento. Uma ideia razoável, mas que poderia ter problemas de implantação. Ainda assim, se houver vontade política, deveria surgir uma solução. Também existe um cansaço político devido ao processo de negociação, que já dura cinco meses.
 
CM – A Grécia, nas últimas duas semanas, aproximou muito a sua posição a que foi pedida anteriormente pelos credores. Em um momento, parecia que havia a base para um acordo. Porém, no dia seguinte, surgiram novamente as diferenças por parte dos credores. Dá a impressão que, para eles, não se trata somente da Grécia. Existe um temor concreto de que se a estratégia de Tsipras funciona, outros países ensaiariam uma reação igual.. Na Espanha, para as eleições de novembro, há um partido similar ao Syriza, o Podemos, com boas possibilidades.
 
Demetriades – É difícil saber o que aconteceu com esse acordo, que parecia definido. Mas é verdade que os casos de outros países estão em jogo aqui. Por isso é um problema tão difícil. A eleição de domingo é crucial. Provavelmente, o desgaste social gerado pela situação leve as pessoas a votar no “sim” à austeridade. Mas, aconteça o que acontecer, haverá uma nova negociação, tem que haver. Não acho que, caso o “não” vença, o resto da Europa poderá se livrar do problema.
 
CM – Você acha que o euro seria viável sem a Grécia?
 
Demetriades – Não. Este é um dos grandes perigos que muitos não parecem entender em toda a sua dimensão. Há muitos que pensam que a saída da Grécia é algo que se pode absorber facilmente, porque se desconectaram muitos dos pontos de contato financeiro entre o país e o resto da Europa. Calculam que perderão cerca de 100 bilhões de euros se houver uma moratória, mas se esquecem de uma premissa básica da união monetária: que ela era irrevogável. A razão para essa premissa é que, de outra forma, a moeda não poderia enfrentar ataques especulativos. Uma vez que se revoga o vínculo de um país com uma moeda, estão dizendo que a união monetária em si é revogável para qualquer outra nação. E os mercados buscarão o próximo candidato, seja Itália, Espanha ou Chipre. Além disso, esses 100 bilhões, que no papel podem parecer um mal menor, na prática política seriam um grande problema. Só a Alemanha perderia 40 bilhões de uma só vez. O que o seu governo dirá ao parlamento sobre isso? E se vier outra crise de liquidez? Nesse sentido, não deveriam ser tão obsessivos com os efeitos a curto prazo.
 
Tradução: Victor Farinelli





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