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''O México se tornou o muro de Trump'': como AMLO se tornou um agente da imigração

O presidente mexicano, que pedia uma que fosse proporcionado passagem segura para pessoas que se dirigiam à fronteira, assumiu um novo papel: agente de migração

05/02/2020 15:09

Membros da guarda nacional mexicana brigam com migrantes da América Central em Ciudad Hidalgo, estado de Chiapas, no México (Alfredo Estrella/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Membros da guarda nacional mexicana brigam com migrantes da América Central em Ciudad Hidalgo, estado de Chiapas, no México (Alfredo Estrella/AFP/Getty Images)

 
Cidade do México - Quando um grupo de famílias da América Central invadiu o rio Suchiate no México na semana passada, ele foi recebido por uma muralha de guardas nacionais que emparelharam seus escudos de conter distúrbios e atiraram gás lacrimogêneo na multidão.

Questionado sobre o incidente, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, o considerou "um caso isolado" e disse que essas cenas "não eram o estilo deste governo".

No dia seguinte, a guarda nacional mais uma vez lançou bombas de gás lacrimogêneo contra imigrantes perto da fronteira com a Guatemala. Imagens de vídeos mostraram mulheres e crianças gritando de angústia quando os guardas os cercaram e os colocaram nos ônibus.

O presidente, geralmente chamado de Amlo, criticava os abusos sofridos pelos migrantes. Na oposição, ele pedia ao México que proporcionasse passagem segura para as pessoas que se dirigiam para a fronteira com os EUA.

Mas 13 meses após assumir a presidência - e sob a ameaça iminente de tarifas americanas - Amlo assumiu um novo papel: agente de imigração.

O presidente tem se esforçado para conciliar sua retórica passada com as ações atuais, reivindicando boas intenções a todo momento, invocando direitos humanos e até citando as escrituras para pedir o tratamento adequado dos migrantes.

Mas Amlo defendeu firmemente a guarda nacional, uma força policial militarizada que ele criou no ano passado ostensivamente para combater o crime organizado. Sua primeira convocação foi contra os migrantes, mesmo quando a violência continua assolando o país.

"A guarda nacional resistiu muito porque houve agressão por parte dos migrantes", disse ele a repórteres. "Eles não caíram na armadilha de responder com violência, o que possivelmente era o que os líderes dessas caravanas e nossos adversários políticos estavam procurando."

Os ministros do gabinete repetiram a mesma frase: "De maneira alguma houve um ato de repressão", disse a ministra do Interior, Olga Sánchez Cordero. "Uma tragédia foi evitada", disse o ministro das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard.

O Instituto Nacional de Imigração, entretanto, disse que havia "resgatado" 800 migrantes - usando a palavra como eufemismo para "prendido".

Ao chegar ao poder em 2018, Amlo prometeu encerrar uma amarga história de repressão governamental: sob sucessivas administrações, soldados e policiais foram frequentemente enviados para dispersar - e fazer desaparecer - manifestantes e ativistas da oposição.

"O México tem uma longa história de ações de seu governo contra seus próprios cidadãos", disse Esteban Illades, editor da revista Nexos.

Mas a chegada de caravanas migrantes da América Central expôs a extrema promiscuidade ideológica da política mexicana. Como seus ministros, membros da coalizão de Amlo, seguiram a liderança do presidente e se voltaram contra as caravanas.

Aqueles que criticaram a repressão, entretanto, incluem políticos de administrações passadas, cujas políticas de imigração falharam em proteger os migrantes contra gangues predadoras que os tomam como alvos para sequestro e extorsão.

"Eles estão transformando em armas o sofrimento das pessoas que vêm para cá", disse Rodolfo Soriano-Nuñez, sociólogo da Cidade do México, sobre a resposta de muitos dos adversários de Amlo.

O debate ocorreu sob o impacto das políticas punitivas de migração de Donald Trump e suas ameaças de infligir dor econômica a países que não conseguem parar o movimento de massas em direção aos EUA.

"O governo mexicano ainda tem que salvar a cara, ou pelo menos fingir que pode, apesar do fato de Trump estar ditando a política de migração mexicana - o México concordou em se tornar o muro de Trump", disse Carlos Bravo Regidor, especialista político na Cidade do México.

Como seus antecessores, Amlo descobriu que os presidentes mexicanos lutam para forjar uma política de migração própria.

Seu governo inicialmente prometeu vistos humanitários aos migrantes, o que lhes permitiria trabalhar ou estudar no México por um ano. Mas a iniciativa foi dissolvida depois que os migrantes simplesmente usavam os vistos para atravessar o país.

Pesquisas mostram que a opinião pública azedou sobre os migrantes, dando a Amlo uma mão livre para iniciar a repressão. Como as autoridades cercaram os migrantes na semana passada, os trabalhadores dos direitos humanos confirmaram vários casos em que as autoridades mexicanas separaram os filhos dos pais por até dois dias.

"Estamos diante de um cenário incontrolável", disse Carlos Heredia, professor da universidade CIDE, ao jornal El Financiero. "Vendemos nossa alma e nos tornamos o muro".

*Publicado originalmente no 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli



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