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'Para a classe trabalhadora branca, Trump é quase um fenômeno religioso'

Deixando para trás um cômodo habitat de intelectuais que compartilhavam seus ideais progressistas, pesquisadora adentrou no Sul profundo dos EUA.

27/10/2016 18:11

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O que acontecerá depois das eleições do dia 8 de novembro? A maioria dos comentaristas liberais, no sentido anglo-saxão do termo, sonham em varrer para baixo do tapete a revolta do “trumpismo” – como um pesadelo repleto de fanatismo e deplorável ignorância –, após vencer o magnata nas urnas. Isso seria um erro enorme, segundo a socióloga estadunidense Arlie Russell Hochschild.
 
A aclamada investigadora social realizou um profundo estudo, que consiste numa espécie de exame de consciência em nome do Partido Democrata, e plasmou essas penitências em um novo livro: Strangers in their Own Land: Anger and Mourning on the American Right (“Estrangeiros em sua própria terra: ira e luto na direita americana”).
 
Russell Hochschild começou sua investigação muito antes de que Trump entrasse na corrida política, quando ela detectou a fratura entre a direita radical “anti Estado”, materializada no então emergente Tea Party e nas elites progressistas, carregadas de desdém e autossuficiência. Para a professora emérita da Universidade de Berkeley, grande parte da classe trabalhadora branca, “muita gente boa, com preocupações muito reais”, se sentem esquecidas pelo Partido Democrata, apesar de serem seus aliados naturais. “Muitos sentem simpatia por Bernie Sanders, e por isso vemos que a bola está no lado dos democratas, e terão que lidar com um erro, que primeiro terão que assumir: abandonaram a classe trabalhadora”, adverte a acadêmica.
 
Para fazer esta investigação, ela decidiu deixar para trás um cômodo hábitat de intelectuais que compartilhavam seus ideais progressistas para adentrar no Sul profundo dos Estados Unidos. Se mudou a uma pequena cidade no interior do Estado de Luisiana, homogeneamente branca, cristã, rural e empobrecida, para tentar entender o que alimentava o ódio ao Estado e às políticas de redistribuição de renda que imperavam nesta zona. O resultado é um formidável retrato da direita estadunidense e do que Russell Hochschild chama sua deep story (história profunda), e que valeu a ela uma nomeação ao National Book Award – um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos.
 
– Por que você decidiu embarcar neste projeto, que consumiu cinco anos?
 
– Há cinco anos, eu já notava uma enorme divisão nos Estados Unidos entre esquerda e direita. Uma brecha que crescia e crescia, não porque a esquerda estivesse movendo mais para a esquerda, mas sim porque a direita vem se movendo mais para a direita. Percebi que eu não estava compreendendo este fenômeno absolutamente, e que vivia num lugar (Nova York) habitado por gente que tampouco o compreendia. Portanto, decidi viajar, para encontrar um ambiente o mais diferente possível do meu. E o encontrei no sul, onde a direita crescido mais rapidamente. O Estado de Luisiana, por exemplo, é um lugar que representa o “supersul”, branco, velho e religioso. Era o que eu queria conhecer de verdade.
 
Meu objetivo era descifrar o paradoxo deste Estado tradicionalmente favorável aos republicanos. Nos Estados Unidos, são Estados mais pobres, os que têm mais famílias desestruturadas, os piores sistemas sanitários e de educação, e os que mais recebem dinheiro do governo federal do que o que arrecadam em impostos, e ao mesmo tempo são os que se opõem mais fortemente ao Estado, e querem reduzir o seu poder. Esse é o paradoxo. Se você tem um problema, por que não quer que te ajudem?
 
Esse debate, em Luisiana, se leva ao extremo. É o Estado mais pobre da União, cerca de 44% de seu orçamento vem do governo federal, e ainda assim é o Estado mais a favor do Tea Party, o mais conservador. Pensei “isto é perfeito”. Desconectei meu sistema de alarmes político e moral para poder escutar e tentar escalar a “parede da empatia” que me separava dessas pessoas. Queria averiguar o que elas sentiam e porque sentiam aquilo. Esse era o projeto.
 
– Você descreve sua viagem de cinco anos como a busca por uma deep story. A que se refere?
 
– É o conceito básico do livro. Quando perguntamos a alguém “quais são suas ideias políticas?”, é de se esperar que respondam falando se seus valores, e do tipo de políticas que gustariam de ver aplicadas. Porém, debaixo desse discurso há algo mais básico. Eu chamo isso de deep story (história profunda).
 
Todos, sejamos de esquerda ou de direita, temos nossas histórias profundas. É a história da vida, como cada um a sente, a vida desprovida de juízos morais e de fatos. É como um sonho, mas que parece real. A história profunda da direita, a que aparece em todos os relatos que escutei durante estes cinco anos, é esta: você se encontra fazendo fila, como numa espécie de peregrinação. E no final dessa fila está o sonho americano, que você deseja e acredita que merece desfrutar, porque cumpriu com as regras e trabalhou duro toda a sua vida. Mas a fila não se move. De repente, começa a ver como os outros furam a fila lá na frente. Isso provoca uma enorme sensação de injustiça
 
– Quem fura essa “fila”? ¿Não há ninguém nesse contexto encarregado de evitar isso?
 
– Os que furam a fila são os negros, os beneficiários das políticas positivas antidiscriminação, que têm acesso aos trabalhos que normalmente estavam reservados aos brancos. Antes das chamadas Affirmative Actions, as políticas estatais de antidiscriminação, as mulheres não podiam postula a trabalhos de homens. Agora podem, e o mesmo com imigrantes, refugiados, todos esses grupos.
 
Essas pessoas que esperam na fila não têm rancor contra ninguém especificamente. Elas só querem alcançar o sonho americano, mas algo se interpõe no seu caminho e os empurra para trás. E nessa história, a culpa de tudo é de Barack Obama, que deveria patrulhar a fila. Para todos eles, parece que o presidente é quem facilita a vida dos que furam a fila. Esse pensamento faz do governo federal uma máquina gigante de marginalização. “É o governo deles (dos que furam a fila), não é o nosso. Eu não quero pagar os impostos. Quero estar fora desse sistema. Sou um estrangeiro dentro da minha própria terra”.
 
Há outro aspecto a se considerar dessa deep story: enquanto a fila não avança, essa pessoa vê alguém se virar e dizer “sulistas estúpidos, vocês são atrasados, são ignorantes”. E isso é como uma bofetada.
 
– O que você pensou quando ouvir Hillary Clinton chamar de “deploráveis” esses eleitores mais radicais de Trump?
 
– Gostaria que ela fosse comigo até Lake Charles, Luisiana. Eu a apresentaria às pessoas desses pequenos povoados, que eu conheci muito bem, e pediria a ela que se sentasse, tomasse uma cerveja, fosse pescar com elas, e que conhecesse algumas dessas pessoas, que não são nada deploráveis, mas sim muito admiráveis, mas que vivem uma verdade diferente. Aliás, ela poderia fazer muito para resolver seus problemas se resolvesse se preocupar em conhecê-los.
 
– Você acha que essas pessoas se sentem ignoradas pelo Partido Democrata?
 
– Exatamente. Essa é a mensagem do livro, que há muita gente boa, com preocupações muito reais, que se sente esquecida. O Partido Democrata, o partido dos trabalhadores, se está dessangrando. A massa trabalhadora está abandonando o partido, fazendo que seja a esquerda a que se torna estrangeira em sua própria terra. Não são pessoas deploráveis. São seus aliados naturais. Muitos sentem simpatia por Bernie Sanders, e o chamam, com afeto, de “tio Bernie”. Ao conhecê-los, passei a estar de acordo com eles em muitas coisas. Por exemplo, em que a bola está no campo dos democratas. O erro do partido é ter abandonado a classe trabalhadora.
 
– Um dos personagens do livro se chama Mike, um sujeito que viveu uma péssima experiência devido a um desastre meio ambiental, e que é muito ativo em lutas ecologistas, mas que também se opõe à regulação estatal. Como essas ideias podem conviver juntas dentro dele?
 
– O Mike é um ecologista, e um ecologista que vai a votar por Donald Trump. Por que ele desconfia do Estado e não quer pagar impostos? Creio que há três respostas para este caso. Uma delas é a deep story. Ele me disse: “eu encarno a tua metáfora”, considera que o Estado é um instrumento da sua marginalização, e também acredita que eu represento o Norte do país, sempre dizendo ao Sul o que ele deve fazer, como nos tempos da Guerra Civil, e ele não gosta disso. E há também uma terceira razão: Mike sente que o governo de Luisiana tem sido um instrumento a serviço do petróleo, e pensa o mesmo sobre o governo federal, que é um instrumento a serviço da indústria.
 
Isso se aproxima bastante a uma perspectiva progressista. Tal como eu entendo, as grandes empresas petroquímicas e petroleiras são as novas plantações escravistas. São organizações que recebem altos investimentos e produzem enorme rentabilidade, e que, segundo essa percepção, compraram o governo estatal. Pagam ao Estado para que este lhe entregue as licitações. É como se o Estado formasse parte da empresa. Estas grandes empresas vem usando uma estratégia emocional. Dizem: “nós necessitamos mil e quinhentos milhões de dólares em dinheiro dos contribuintes, para poder fincar nossas raízes aqui em Luisiana, e não no Texas”. Com um pedacinho desse dinheiro, eles entregam pequenos presentes, pagam os uniformes do time futebol americano da Universidade Estadual de Luisiana, financiam as ações da Audubon Society para a proteção da natureza, ou as aulas de ciências das escolas primárias. E as pessoas dizem: “as empresas são bondosas. Nos dão presentes e nos dão trabalho”.
 
São, entretanto, plantas altamente automatizadas, que importam trabalhadores estrangeiros e trazem técnicos do Instituto Tecnológico de Massachusetts. Geram pouquíssimos trabalhos permanentes para as pessoas de Luisiana, cerca 16%, segundo a maioria dos estudos. Os demais cidadãos do Estado são professores, enfermeiras, funcionários do setor público, etc. Mas a empresa goza de uma boa reputação, e é o Estado que está fazendo o trabalho sujo das empresas. Sua missão é fingir que protegem as pessoas da contaminação, embora não o faça realmente. Deste modo, as pessoas passam a odiar o Estado e amar as empresas.
 
Os progressistas chegam e perguntam, consternados “por que amam a empresa que está contaminando e odeia o Estado que poderia solucionar o seu problema?”. E eles não estão vendo o cenário desse ponto de vista. Luisiana é um Estado cativo. Não me estranha que eles não gostem do Estado. É um lugar dominado, um instrumento do petróleo.
 
– Você mencionou as plantações onde trabalhavam os escravos, parte da longa, profunda e enraizada história da discriminação racial em Luisiana. Muitos progressistas desprezam as queixas de gente como os personagens do seu livro dizendo que são nostalgia por privilégios imerecidos desse passado escravocrata, e acusam os que pensam assim de racistas. O que falha nessa análise?
 
– Ela é parcial e distorcida. Sugere que o problema existe só no Sul. Creio que é um problema nacional. Também coloca os preconceitos raciais fora de um contexto mais amplo. Eu me refiro a isso no livro como o sufocamento cultural. Essas pessoas se sentem abandonadas de muitas formas. É gente religiosa, inserida numa sociedade tradicionalista. Não se pode dizer “feliz natal” num lugar público, deve-se falar “felizes festas”, ou somente “feliz”.
 
Como sulistas, eles se sentem desprezados, menosprezados como região. É mais cool estar em Nova York, San Francisco, Los Angeles. Sentem que suas ideias com respeito à família agora são ilegais, desde que a Corte Suprema determinou que as mulheres têm o direito a abortar em certas circunstâncias e que os homossexuais têm direito a se casar. Tudo isso os leva a se sentir demográfica, social, cultural e economicamente marginados. Os sentimentos raciais são uma parte disso. Se sentem competindo constantemente com os negros. Sentem que os negros estão elevando seu nível de vida, enquanto eles estão caindo, e eque eles também são uma minoria.
 
– Donald Trump ainda não havia dado o salto à política quando você começou sua investigação e durante a maior parte dela. Como o seu ascenso e sua nomeação pelo Partido Republicano afetaram as pessoas que aparecem em seu livro?
 
– Quando fui a um comício do Donald Trump, antes das primárias em Luisiana, em março deste ano, percebi que havia passado quatro anos e meio estudando um monte de lenha, e agora com Trump eu estava observando a faísca que acenderia essa fogueira. Eles se sentem estrangeiros em sua própria terra, à deriva, a bordo de um país sem rumo. E então aparece o Donald Trump e se apesenta como um salvador, e promete tudo o que eles querem ouvir, falando em recuperar a dignidade. Ele fala por essas pessoas: “sim, você se sente abandonado, sente que está caindo pouco a pouco… eu os levantarei”. Para eles, é quase como um fenômeno religioso.
 
– O livro descreve seu encontro com uma cantora gospel, Madonna Macy, que falou de seu locutor de rádio favorito, um jornalista extremamente conservador. O que você aprendeu ao conhecê-la?
 
– Eu conheci numa reunião do grupo de Mulheres Republicanas do sudoeste de Luisiana, em Lake Charles, e ela me disse “eu amo o Rush Limbaugh”, um conhecido comentarista de rádio de direita, desses agressivos e extremamente conservadores, provavelmente o mais popular nas ondas americanas. Eu perguntei porque ela gostava do que ele dizia, e a resposta foi “ele odeia as feminazis”. Então pedi para ela me explicar o que é uma feminazi, para ela. “São essas feministas que querem ser iguais aos homens. Elas são más, ambiciosas, egocêntricas”. Essa era a sua visão. Logo, me disse amavelmente se foi difícil escutá-la, e agregou: “na verdade, eu vejo no Rush Limbaugh alguém que me protege de gente como você. Os liberais acreditam que eu sou retrógrada e inculta, e que tenho uma atitude equivocada, que sou racista, sexista e homofóbica, e também uma gorda desprezível”. Ela sentia que os progressistas impunham inclusive regras alimentárias no sul, região onde se ama a comida frita.
 
– Há outro personagem no livro, chamado Lee, que encarna o grande paradoxa porque ele também apoia as causas ecologistas e ao mesmo tempo as políticas antirregulamentação do Tea Party. E ele foi despedido depois de um caso de contaminação de um estuário. Como pode ser que ele não culpe a empresa da qual era empregado e para a qual cumpria ordens, e que continua sendo muito poderosa no Estado de Luisiana?
 
– O Lee é um homem que passou anos tendo que fazer o trabalho sujo da empresa onde trabalhava. Todos os dias, ao pôr do sol, ele derramava resíduos quentes, tóxicos e perigosos numa corrente de água pública. Se sentia culpado por isso. Ele ficou doente isso, porque estava exposto a um produto químico tóxico. Foi afastado por questões de saúde, e então despedido por pouca produtividade.
 
Ele odiava a empresa (Axiall) por ter feito isso. Me contou que sua mulher teve que esconder a pistola que tinha em casa. “Estava revoltado pelo que me fizeram”, dizia. Ao mesmo tempo, ele sentia que o Estado não o estava protegendo dos abusos da empresa. É a lógica que eu vi em vários lugares: as pessoas odeiam o Estado, porque arrecada impostos e se supõe que ele têm que fazer coisas boas, mas depois sentem que ele os mantém marginalizados.
 
A história de Lee continuou, e ele conseguiu se vingar da empresa. Os resíduos estavam contaminando o rio e os peixes, e isso levou o governo a sugerir um limite na quantidade de pescados que as pessoas podiam comer. Os pescadores e os donos de restaurantes ficaram furiosos. As recomendações do Estado os deixou sem negócio. Houve uma grande reunião, com mais de mil pessoas. O Lee estava presente, e subiu no palco com um cartaz que dizia: “fui eu que derramei os resíduos tóxicos na água”. Os pescadores coçaram a cabeça e disseram: “suponho que a culpa não é do Estado, mas sim da empresa”.
 
Mas agora, o Lee quer se vingar também do Estado. Aos seus 83 anos, ele está distribuindo cartazes em favor do candidato do Tea Party ao Congresso, pelo Estado de Luisiana.
 
– Em seu livro, você se refere à emoção como um ingrediente crucial na política. Por que é tão importante como elemento de análise?
 
– Creio que chegar a entender a história profunda de cada um de nós é um passo preliminar para respeitar e entender, fundamentalmente, o que leva as pessoas a pensarem o que elas pensam em termos de política. Isso nos abre aos outros. Não é um em si mesmo exatamente, mas é algo que devemos fazer. Do contrário, o diálogo será inútil e defensivo. Temos que criar uma zona de segurança em que possamos nos comunicar sobre estes assuntos de maneira aberta e produtiva, e me refiro à nação em seu conjunto, esquerda e direita. Isso não acontecerá, a não ser que analisemos as bases emocionais de nossas convicções políticas.
 
Tradução: Victor Farinelli



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