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''Privilégios inéditos'': por que evangélicos brancos americanos veem em Trump seu salvador

O presidente não poderia estar mais distante de um modelo de piedade, mas muitos usam uma figura da Bíblia para justificar apoio a Trump

14/01/2020 11:35

Trump com o o Pastor David Platt, em visita à McLean Bible Church, em Vienna, Virgínia, em junho de 2019 (Jim Watson/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: Trump com o o Pastor David Platt, em visita à McLean Bible Church, em Vienna, Virgínia, em junho de 2019 (Jim Watson/AFP/Getty Images)

 
Antes do fim de 2016, havia pouco na vida de Donald Trump, ou em sua campanha política frequentemente ofensiva, que pudesse sugerir que, como presidente, ele seria aclamado como um representante de Deus na Terra, amado por cristãos renascidos ou comparado a um rei bíblico.

Mas foi exatamente o que aconteceu nos três anos desde que Trump assumiu a presidência americana, cercando-se de ministros e conselheiros tementes a Deus e desenvolvendo uma relação improvável, mas extremamente benéfica, com apoiadores evangélicos brancos.

Uma relação que, para Trump, garantiu o apoio inabalável de uma base importante de eleitores, que, por sua vez, aplaudiram a guinada conservadora dos tribunais e o ataque aos direitos reprodutivos e da população LGBTQ.

Mas esta relação tem gerado inquietações sobre até onde Trump iria, no caso de um novo mandato, para atender às ambições políticas de seus apoiadores evangélicos.

"É extremamente preocupante", disse Rachel Laser, presidente da Americans United, organização apartidária dedicada à separação de igreja e estado.

"Trump está assegurando privilégios inéditos a uma pequena fatia da religião", disse Laser. "Em troca, ele tem recebido lealdade constante nas urnas, independentemente do que ele faça."

A improvável aliança entre aqueles que seguem de forma literal as interpretações bíblicas do certo e errado e um homem que se casou três vezes, foi acusado (de forma consistente) de agressão sexual e que sabidamente pagou pelos serviços de uma atriz pornô criou um elenco rico – e bizarro.

O esforço permanente de influentes vozes cristãs em justificar os crimes pessoais e a crueldade política de Trump levou ao uso frequente da imagem de Trump como um vaso imperfeito a serviço da vontade de Deus. Trump foi comparado, mais especificamente, ao rei Ciro, que, segundo a Bíblia, apesar de ser um governante persa, libertou os judeus do cativeiro na Babilônia.

Um dos primeiros a fazer a conexão Trump-Ciro foi Lance Wallnau. Consultor de negócios que se autodenomina doutor – sua página no LinkedIn aponta a Phoenix University of Theology como sua alma mater, mas a universidade teve seu status revogado pelo Internal Revenue Service em 2017 e seu campus parece ser uma caixa postal em Arizona – Wallnau afirma que o “Senhor falou” com ele durante as eleições.

Segundo Wallnau, Deus teria dito, especificamente: "Donald Trump é uma bola de demolição no politicamente correto".

Wallnau não está sozinho. Mike Evans, líder evangélico convidado a falar diante de Trump em um jantar de fé na Casa Branca, também embarcou na analogia de Ciro. Ele explicou a ideia à rede de TV Christian Broadcasting Network em 2017.

“[Ciro] foi usado como instrumento de Deus para a libertação na Bíblia, e Deus tem usado esse vaso imperfeito, esse ser humano imperfeito como você e eu, de uma maneira incrível e maravilhosa para cumprir seus planos e propósitos”, disse Evans.

Em uma manifestação de campanha na Flórida, na semana passada, para impulsionar o apoio evangélico, Trump foi apresentado por Guillermo Maldonado, pastor de uma mega igreja de Miami, como Ciro. "Pai, te louvamos e horamos e pedimos que ele possa ser o Ciro que trará reafirmação e mudanças a esta nação, e todas as nações da Terra dirão que os EUA são a maior nação da Terra", disse Maldonado.

Os fiéis também já adotaram o conceito de vaso imperfeito, e Wallnau agora está vendendo "moedas de oração Trump-Ciro” – o rei está ao fundo, com um perfil de um Trump pensativo em primeiro plano – a 45 dólares por moeda.

"Se uma comunidade de fé faz um acordo político com o presidente, e vende sua alma, é preciso buscar uma justificativa teológica, e essa parece ser o conceito ideal", avalia Laser.

Desde então, o conceito se internacionalizou, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, usou a analogia em março de 2018.

Encorajados por essas e outras figuras proeminentes – como a televangelista Paula White, que afirma que Trump foi "erguido por Deus" e foi nomeada para liderar a Iniciativa Fé e Oportunidade (Faith and Opportunity Initiative) de Trump em novembro – os cristãos evangélicos brancos continuam a apoiar Trump.

Em troca, foram recompensados com ataques aos direitos reprodutivos e às liberdades das pessoas LGBTQ e com a nomeação de muitos juízes conservadores.

Pessoas com as mesmas crenças evangélicas também foram nomeadas para posições-chave no governo, já que Trump entupiu seu gabinete de cristãos devotos, alguns dos quais são explícitos sobre como sua fé influencia sua atuação no governo.

"Muitos dos nomeados políticos de Trump têm, como qualificação básica, o compromisso com uma agenda religiosa muito clara e conservadora”, aponta Katherine Stewart, autora do livro (no prelo) The Power Worshippers: Inside the Dangerous Rise of Religious Nationalism (Adoradores do Poder: os bastidores da perigosa ascensão do nacionalismo religioso).

"Se não fosse o governo Trump, muitos deles nunca frequentariam os corredores do poder. Por isso, devem tudo a Trump e sua turma."

Entre eles está Mike Pompeo, secretário de Estado de Trump, criticado em outubro pelo destaque dado no site do departamento de estado a seu discurso "Ser um líder cristão", onde fala sobre como pede a Deus orientação em seu trabalho. Em 2015, Pompeo também confirmou acreditar no Arrebatamento, o conceito de fim dos tempos – geralmente por algum tipo de catástrofe – quando Jesus Cristo retornará à Terra e guiará crentes qualificados ao céu.

Outro evangélico comprometido é o vice-presidente Mike Pence, que, quando governador de Indiana, aprovou uma lei permitindo que empresas se recusassem a servir pessoas LGBT, citando liberdade religiosa.

Algumas das pessoas nomeadas por Trump já estão fazendo a diferença. Como Ben Carson, responsável pela pasta da habitação e desenvolvimento urbano desde 2017. Sob a liderança de Carson, aponta Laser, a pasta propôs uma regra que permitiria que abrigos para sem teto financiados pelo governo federal pudessem discriminar pessoas trans, por motivos religiosos.

Enquanto isso, o conceito de que Trump personifica a vontade de Deus ganha credibilidade nos mais altos níveis do governo dos EUA.

Rick Perry, outro membro evangélico do gabinete de Trump que ocupa o posto de secretário de energia, repetiu a teoria de uma figura bíblica imperfeita em novembro – embora sem fazer referência a Ciro.

"Deus tem usado pessoas imperfeitas ao longo da história. O rei Davi não era perfeito. Saul não era perfeito. Salomão não era perfeito”, disse Perry à Fox News em novembro, durante entrevista sobre – teoricamente – a audiência de impeachment. Perry acrescentou que Deus havia escolhido Trump para a presidência.

Há sinais de que a aliança continuará forte. Em março de 2019, pesquisa da Pew Research descobriu que os “protestantes evangélicos brancos” continuavam apoiando Trump de forma esmagadora, enquanto a maioria dos outros grupos religiosos mostrava-se tão dividida quanto o povo americano como um todo.

É com esse apoio que Trump, o vaso imperfeito, contará em novembro de 2020.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Clarisse Meireles

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