Pelo Mundo

"Quantos mortos ainda para vocês se sentirem cidadãos de Gaza?"

06/01/2009 00:00

Mustapha Barghouthi

Ramallah, 27 de dezembro de 2008

E lerei amanhã, nos seus jornais, que acabou a trégua em Gaza. Não é portanto um bloqueio, mas uma forma de paz, esse campo de concentração devastado pela fome e pela sede. E de que depende a diferença entre a paz e a guerra? Da contabilidade dos mortos? E as crianças corroídas pela subnutrição, como as contabilizamos?

Morre de guerra ou de paz aquele que se vai porque falta eletricidade no bloco cirúrgico? Diz-se paz quando não há mísseis – mas como se diz quando falta todo o resto?

E eu lerei nos seus jornais, amanhã, que tudo isso não é senão um ataque preventivo, que é somente um direito legítimo, inviolável, de autodefesa. A quarta potência militar do mundo, seus músculos nucleares contra os mísseis de ferro fundido, de papel machê e de desespero. E naturalmente vão me precisar que não se trata de um ataque contra civis – e aliás como poderia sê-lo, se os três homens que conversam sobre a Palestina, aqui, no meio da rua, são para as leis isralenses um núcleo de resistência e portanto um grupo ilegal, uma força combatente? - se nos documentos oficiais somos marcados como uma entidade inimiga e sem o mínimo freio ético, o câncer de Israel?

Se o objetivo é erradicar o Hamas, tudo isso reforça o Hamas.

Vocês chegam em aviões de caça para exportar a retórica da democracia, a bordo de aviões de caça, em seguida, chegam a estrangular a democracia –mas qual é a outra opção que resta? Não a deixe explodir sobre você com frequência. Não é o fundamentalismo que se bombardeia neste momento, mas tudo o que se lhe opõe. Tudo o que não restitui gratuitamente a essa ferocidade indiscriminada uma raiva igual e contrária, mas uma palavra nua de diálogo, a lucidez de raciocinar, a coragem de desertar. Isso não é um ataque contra o terrorismo, mas contra a outra Palestina, terceira e diferente, à medida que se esquiva dos mísseis, acuada entre a cumplicidade do Fatah e a miopia do Hamas.

Estava se assassinando pela autodefesa, eu deveria assassiná-lo em autodefesa – um dia os sobreviventes assim contarão o que está se passando.

E amanhã lerei nos jornais de vocês que todo processo de paz é impossível, os israelenses, vejam só, não têm sequer uma pessoa com quem conversar. E, com efeito – como poderiam tê-lo, entrincheirados por trás de um Muro de betão de oito metros? E, sobretudo, por que deveria tê-lo, se o Mapa do Caminho não é outra coisa que uma arma inimiga de distração em massa para a opinião pública internacional? Quatro páginas onde se exige, por exemplo, que cessem os ataques terroristas e onde se diz que, em troca, Israel não vai empreender qualquer ação que possa minar a confiança entre as duas partes como – textualmente – os ataques contra civis. Assassinar civis não mina a confiança, mas o direito; é um crime de guerra, não se trata de uma questão de cortesia. E se Anápolis é um processo de paz, tanto como esperamos, aqui, a única carta que avança são as terras confiscadas, as oliveiras arrancadas, as casas demolidas, as colônias ampliadas – por que, então, a proposição saudita não é um processo de paz? O fim da ocupação em troca do reconhecimento por parte de todos os Estados árabes. Poderíamos ter ao menos um sinal de reação? Alguém aí, do outro lado do Muro, por acaso escuta?

Mas cá estou a lhes falar do vento. Porque amanhã só lerei uma linha nos seus jornais e somente amanhã, em seguida não lerei outra coisa, ainda, que a indiferença. E é apenas isso o que sinto, enquanto os F16 sobrevoam minha solidão em direção de centenas de danos colaterais dos quais conheço cada nome, cada vida – somente um vestígio do abandono e do erro infinitos. Europeus, americanos e também árabes – porque se alcançou a soberania egípcia, na passagem de Rafah, a moral egípcia tem o selo de Rafah? -, nós simplesmente estamos sós. Vocês desfilam, aqui, uma delegação após outra – e, falando, diria Garcia Lorca, as palavras restam no ar, como bóias na água. Vocês oferecem ajuda humanitária mas nós não somos mendigos, queremos dignidade, liberdade, fronteiras abertas; não pedimos favores, nós reivindicamos direitos. E, ao contrário, vocês chegam, indignados e desejosos de participar e perguntam o que podem fazer por nós. Uma escola? Uma clínica, talvez? Bolsas de estudo? E tentamos a cada vez convencê-los – não, não a generosa solidariedade, ensinava Bobbio, somente a justiça severa – das sanções, das sanções contra Israel. Mas vocês respondem – neutros em cada vez e portanto partilhando do desequilíbrio, partidários dos vencedores – não, isso seria anti-semita. Mas quem é mais anti-semita, aqueles que viciaram Israel ano após ano durante sessenta anos, até desfigurá-lo ao ponto de fazê-lo o país mais perigoso do mundo para os judeus ou aqueles que os advertem de que o Muro marca um gueto de dois lados?

É talvez anti-semita reler Hannah Arendt hoje, em que nós, os palestinos, somos sua escória da terra, é anti-semita voltar a iluminar essas páginas sobre o poder e a violência, sobre a a última raça submetida ao colonialismo britânico, que teria sido, enfim, os próprios ingleses? Não, isso não é anti-semitismo, mas o exato contrário, defender os numerosos israelenses que tentam escapar de uma nakbah chamada sionismo. Porque não se trata de um ataque contra o terrorismo, mas contra o outro Israel, terceiro e diferente, à medida que se esquiva do pensamento único cerrado entre a cumplicidade da esquerda e a miopia da direita.

Eu sei o que lerei amanhã, nos seus jornais. Mas não autodefesa, não a exigência de segurança. Tudo isso não se chama outra coisa que Apartheid – e genocídio. Porque pouco importa se os políticos israelenses, tecnicamente, aderem ou não aos milímetros das definições delicadamente lavradas pelo direito internacional, seu formalismo aristocrático, sua pretensa objetividade não são senão inimigos colaterais, aqui, que auxiliam e multiplicam a força dos vencedores. A essência desses aviões é a sua neutralidade, é o seu silêncio, são as explosões.

Alguém se sinta berlinense, diante de um outro Muro. Quantos mortos restam, ainda, para vocês se sentirem cidadãos de Gaza?

Mustapha Barghouthi é médico, deputado no Conselho Legislativo Palestino e secretário geral da Iniciativa Nacional Palestina, um partido e movimento social engajado na assistência social laica e numa agenda política laicizante, bem como na defesa da independência e na democracia nos territórios palestinos ocupados. Foi candidato à presidência da Autoridade Palestina, em 2005, obtendo 19,7% dos votos. Amigo de Edward Said, que defendia a formação de um estado laico, democrático e binacional, Barghouthi advoga, contudo, a solução de dois estados, as fronteiras isralenses da linha verde, datadas de 1967, e trabalha nas emergências de hospitais na Palestina, militando contra o Muro de anexação da Cisjordânia.

Tradução: Katarina Peixoto

Conteúdo Relacionado