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'Uma praga fantasma': o Cinturão da Bíblia dos EUA minimizou a pandemia e até ganhou dinheiro. Agora dezenas de pastores estão mortos

O direito aos cultos surge como campo de batalha na iminente guerra cultural, enquanto muitas congregações são duramente atingidas pelo coronavírus

30/04/2020 14:22

 

 
Dezenas de pastores, em todo o Cinturão da Bíblia [estados de predomínio evangélico do sul dos EUA], sucumbiram ao coronavírus depois que igrejas e televangelistas minimizaram a pandemia e incentivaram ativamente os fiéis a desrespeitarem as diretrizes de autodistanciamento.

Agora, confirmou-se que 30 líderes religiosos, da maior denominação African American Pentecostal (Pentecostal Afro-americana) do país, morreram no surto, enquanto seus membros desafiavam as advertências de saúde pública para evitar grandes reuniões e prevenir a transmissão do vírus.

As mortes, em todo os EUA em áreas onde a Church of God in Christ (Igreja de Deus em Cristo) está presente, tiveram origem em funerais e outras reuniões, entre clérigos e outros funcionários da igreja, realizados durante a pandemia.

A tragédia, em meio a um dos maiores grupos pentecostais negros, vem na sequência de uma mensagem desafiadora de muitas igrejas norte-americanas, particularmente grupos cristãos conservadores, de ignorar as ordens de governos estaduais e locais que proibiam reuniões de grupos, com a polícia sendo acionada, cada vez mais frequentemente, para fazer cumprir as proibições e responsabilizar os pregadores.

O vírus teve um impacto desproporcional entre as congregações negras, muitas das quais confiavam no culto em grupo.

No entanto, apesar do crescente número de mortos, muitos líderes de igrejas dos EUA, em todo o Cinturão da Bíblia, não apenas continuaram a realizar os cultos, mas incentivaram os fiéis a continuar pagando o dízimo – pedindo doações que incluíam os recentes cheques de estímulo à economia enviados pelo governo - para apoiar sua missão.

O bispo Gerald Glenn, fundador e líder desde 1995 da Igreja Evangélica New Deliverance em Chesterfield, Virgínia, foi o primeiro capelão negro da polícia da cidade. Ele jurou continuar pregando, "a menos que eu esteja na prisão ou no hospital", antes de sua morte por coronavírus, no início deste mês.

O bispo revelou, à sua congregação, a crença de que "Deus é maior que esse temido vírus", apenas alguns dias antes de o governador da Virgínia, Ralph Northam, exortar as pessoas a evitarem reuniões "não essenciais" de grupos.

Durante um culto, em 15 de março, no qual quase 200 pessoas compareceram, o bispo disse: "Estou feliz por estar na casa do Senhor. Não precisava ser assim. O governo poderia ter dito que não podíamos nos reunir de jeito nenhum. Imagine se o governo tivesse autoridade para dizer que você e eu não podemos ir à igreja. Você não está feliz por estar livre para se levantar e vir?

A maioria das congregações está seguindo as orientações para ficar em casa, de acordo com pesquisas recentes que descobriram que quase 90% das congregações fecharam suas igrejas e foram incentivadas a fazer seus serviços religiosos em casa.

Mas 20% dos paroquianos dizem que são incentivados a comparecer pessoalmente, e outros 17% continuam a fazê-lo. A pesquisa descobriu que os evangélicos eram mais propensos a relatar cultos presenciais. Tanto nos estados com restrições de ir à igreja, quanto nos que não têm, quase um terço dos evangélicos que frequentam a igreja disseram que continuam assistir aos cultos pessoalmente.

Embora muitos cristãos continuem praticando sua fé em casa ou assistindo a cultos transmitidos ao vivo de igrejas vazias, os locais de culto nos EUA têm sido associados a vários surtos.

Um relatório do Centro de Controle de Doenaças e Prevenção (CDC) mostrou como os serviços religiosos em particular podem ser vetores mortais para a doença.

O CDC ilustrou como um funeral em Chicago se tornou um "evento super disseminador" que "desempenhou um papel significativo na transmissão" do vírus.

Entre várias pessoas que adoeceram após o serviço, um paciente que desenvolveu sintomas de Covid-19 dois dias após o funeral foi hospitalizado uma semana depois e colocado em um respirador. O paciente morreu mais tarde.

O pastor pentecostal da Flórida, Rodney Howard-Browne, realizou vários serviços em igrejas lotadas, apesar das advertências de autoridades de saúde e médicos para evitar grandes reuniões para evitar a propagação da doença, que ele chamou de "praga fantasma" antes de ser preso por violar as regras de distanciamento social.

O xerife Chad Chronister, do condado de Hillsborough, disse que o "desrespeito imprudente [do pastor] pela vida humana coloca em risco centenas de pessoas em sua congregação", juntamente com milhares de moradores da Flórida.

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, até interveio nas diretrizes de distanciamento social de Louisville, quando o prefeito alertou os moradores sobre lotar as igrejas na Páscoa.

Ele disse: "As pessoas religiosas não devem ser escolhidas para tratamento que os desfavoreça".

O direito ao culto emergiu como uma das principais batalhas da iminente guerra cultural provocada pelo coronavírus, enfatizando dramaticamente o papel desmedido do extremismo conservador norte-americano através dos EUA e na Casa Branca.

A pandemia também renovou a defesa da Segunda Emenda, com a Associação Nacional do Rifle (NRA) alegando que os bloqueios durante a pandemia dão uma chance para "eles" que “querem suas armas" [A NRA divulgou um comercial advertindo os possuidores de armas que “eles querem suas armas, eles querem todas elas”], enquanto as lojas de armas estão fechadas junto com outros negócios “não essenciais”.

As alegações foram ecoadas por Donald Trump em sua série de tuítes para "libertar" estados com governadores democratas, incluindo a Virgínia, onde ele disse que os direitos a armas estão "sitiados". As autoridades republicanas também usaram a crise para fechar clínicas de aborto e negar assistência ao aborto sob ordens do governo para interromper procedimentos não-eletivos.

[“Do mesmo modo que Ohio, Alabama e alguns outros estados com governo republicano, o Texas incluiu inicialmente o aborto entre os procedimentos médicos opcionais que, segundo ele, teriam que esperar até que a ameaça imediata do vírus passasse”, disse matéria recente do New York Times.]

Roy Moore, que foi apoiado pelo presidente durante sua tentativa fracassada de conseguir um assento no senado no Alabama, defendeu o pastor da Louisiana, Tony Spell, depois que ele foi acusado de descumprir continuamente a proibição estadual de grandes reuniões.

Sua igreja, Life Tabernacle Church, está ligada a pelo menos uma morte por coronavírus.

O legista da Paróquia de East Baton Rouge determinou que a morte de um homem de 78 anos que havia visitado a igreja se devia a Covid-19. O pastor disse que os resultados são "uma mentira".

Spell se envolveu em uma batalha legal por sua oposição à ordem estadual de permanecer em casa, enfatizando aos seus seguidores que é seu "dever" continuar assistindo aos cultos da igreja, apesar da pandemia.

Recentemente, ele foi preso e acusado de agressão por supostamente tentar apoiar um protesto com o ônibus da igreja. Ele disse que não é culpado.

Seu advogado Jeff Wittenbrick foi internado no hospital geral de Baton Rouge na semana passada com febre alta e tosse persistente depois de participar de dois eventos na igreja no início deste mês.

Enquanto isso, Spell planejava sediar um culto de 2.000 membros no domingo de Páscoa.

O chefe do Departamento Central de Polícia, Roger Corcoran, disse ter contado cerca de 330 pessoas que entraram na igreja.

O reverendo Spell também orientou os paroquianos a doar seus cheques de estímulo federal - enviados no início deste mês para apoiar norte-americanos desempregados e subempregados durante a crise - para seu site.

Vários outros líderes evangélicos e televangelistas de destaque da direita cristã, que confiam na cura milagrosa em seus ministérios, também tentaram capitalizar com a crise.

Kenneth Copeland [um televangelista norte-americano] insistiu para que os telespectadores pagassem o dízimo, apesar de perderem seus empregos em meio a uma quantidade de pedidos de auxílio desemprego sem precedentes. Jim Bakker pediu aos telespectadores que doassem ao seu ministério para evitar a falência, depois que ele foi cortado das empresas de processamento de cartões de crédito por vender uma "cura" falsa do coronavírus por US$ 80.

Mas a pandemia criou um atrito legal inédito entre os governos estaduais e locais e as igrejas, que os conservadores sugerem que continuará durante a quarentena.

Nesta semana, um juiz do tribunal federal da Califórnia negou o pedido de três igrejas no estado para continuar prestando serviços pessoalmente, que um pastor alega ser "comandado pelas escrituras" para que "ponha as mãos nas pessoas e ore por elas" "

O juiz rejeitou argumentos da Shield of Faith Family Church, Word of Life Ministries International e Church Unlimited, que alegavam que a ordem de permanência em casa do governador Gavin Newsom viola os direitos da Primeira Emenda.

Após a decisão, Harmeet Dhillon, que atua no Comitê Nacional Republicano da Califórnia e como CEO do Center for American Liberty, disse que os americanos deveriam "contar com mais restrições a todos os seus direitos civis" sem "ter um final à vista".

*Publicado originalmente em 'Independent' | Tradução de César Locatelli



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