Pelo Mundo

'Uma tempestade perfeita': pobreza e raça somam aos números da COVID-19 no sul dos EUA

Afro-americanos são atingidos desproporcionalmente pela pandemia e famílias inteiras se tornam vítimas

20/04/2020 13:56

Sem-teto ao lado de carrinho de compras em Nova Orleans, Lousiana (Carlos Barría/Reuters)

Créditos da foto: Sem-teto ao lado de carrinho de compras em Nova Orleans, Lousiana (Carlos Barría/Reuters)

 
Recentemente, em duas igrejas em Nova Orleans, dois pastores leram passagens diferentes da Bíblia ao enterrar quatro membros da mesma família. Morreram um em seguida do outro depois de contrair o novo coronavírus.

Na Igreja Metodista St James, uma construção térrea de tijolos no sétimo distrito da cidade, o Reverendo Joseph Tilly recitou Lucas capítulo 15 ao lamentar a morte de Timothy Franklin, 61, e de seus irmãos Anthony, 58, e Herman, 71. “Os três filhos pródigos”, ele disse à pequena congregação de familiares sentados distantes uns dos outros, “voltaram ao pai celestial”.

Tilly ensinava “os meninos” desde que eram crianças na escola dominical. “Eu rezei antes do culto e Deus me deu força”, ele disse.

No dia seguinte, na Igreja Batista Ebenezer, o pastor Jermaine Landrum leu Jó capítulo 1 ao lembrar a mãe dos irmãos, Antoinette Franklin, 86, devota antiga na igreja e quem, apenas algumas semanas antes, abraçou Landrum e agradeçeu por outro culto de domingo.

“Foi devastador”, disse o pastor, refletindo sobre o conselho que deu aos nove filhos sobreviventes de Franklin. “Consegue imaginar perder a mãe e três irmãos em uma questão de dias? É uma tragédia para a nossa comunidade.”

‘Uma taxa de mortalidade desproporcional atingiu a região mais pobre dos EUA’

Ao redor da cidade de Nova Orleans e pelo estado de Luisiânia, no extremo sul dos EUA, cenários similares de lamentação podem ser vistos entre centenas de famílias afro-americanas. Luisiânia está entre os estados mais atingidos pela Covid-19, com 755 mortes marcando uma das maiores taxas de mortalidade per-capita no país. 70% dos que morreram aqui são negros, apesar de afro-americanos representarem 32% da população do estado.

Essa taxa de mortalidade racial desproporcional começou a emergir entre outros estados no extremo sul, a região mais pobre dos EUA, onde uma relação entre pobreza intergeracional, uma prevalência maior de doenças de base, e menor acesso à assistência médica terão, certamente, consequências mais pronunciadas na comunidade negra enquanto o vírus se espalha.

“O sul possui a tempestade perfeita de características para ser uma região trágica em relação ao surto de coronavírus”, disse Thomas LaVeist, reitor de saúde pública e medicina tropical na Universidade de Tulane.

LaVeit apontou para maiores taxas de diabetes, hipertensão e doenças do coração – a maioria relacionadas a pobreza – entre os residentes negros de Luisiânia e outros estados incluindo Alabama, Mississippi, Georgia e Carolina do Sul, que compõem o extremo sul. Existem suspeitas de que todas essas doenças possam elevar o risco de morte por Covid-19.

“Afro-americanos não somente possuem maior prevalência dessas doenças crônicas, como também, em média, desenvolvem essas doenças mais jovens. Então quando falamos sobre pessoas acima dos 65 anos em estado de risco, para os afro-americanos, a idade é, provavelmente, 55, talvez até 50.”

Embora a maioria das mortes em Luisiânia ainda seja de pessoas acima dos 70 anos, 31% são de pessoas entre 50 e 69, uma proporção que é um pouco maior do que em Nova Iorque, o centro do surto nos EUA.

A “tempestade perfeita” a qual LaVeist se refere, se forma sobre uma região que quase unanimemente negou expandir os benefícios do Medicaid oferecidos pela lei de saúde de Barack Obama, a Lei de Assistência Acessível, que permitiria o acesso de milhões de sulistas de baixa-renda aos planos de saúde.

No Alabama, que viu uma das maiores taxas de fechamento de hospitais rurais nos EUA, e onde 75% dos hospitais rurais operam com déficit financeiro – parcialmente devido à decisão do estado Republicano de não expandir benefícios – defensores da assistência médica alertaram que a pandemia poderia levar a um grande número de hospitais fechados no pico de um surto devido às pressões financeiras associadas ao tratamento de pessoas sem seguro.

Mas, alertou Michael Saag, professor de doenças infecciosas na Universidade do Alabama em Birmingham, a falta de expansão de benefícios aqui poderia também impedir que as pessoas busquem tratamento para a Covid-19 até que seja tarde demais.

“Muitas pessoas que vivem na pobreza esperam doentes até que absolutamente tenham que ser examinados, então eles chegam com sintomas muito mais severos do problema que eles estão lidando.”

“Isso significa que as pessoas que pegarem vão, tipicamente, se apresentar tardiamente e é mais provável que sejam hospitalizadas e, com isso, é provável que tenham a doença mais avançada e precisem de um leito na UTI.”

O Alabama começou a ver um aumento nos casos recentemente com 80 pessoas morrendo por causa do vírus – 36% das mortes eram de afro-americanos que representam somente 26% da população do estado.

‘Estados do sul reagem vagarosamente, preferindo manter a economia aberta’

Adicionando mais uma camada a uma crise profunda no sul, está a inércia que caracterizou a resposta de muitos governadores à pandemia apenas semanas atrás, com alguns tentando manter a economia aberta pelo maior tempo possível.

Em Georgia, o governador Republicano, Brian Kemp, aliado próximo de Donald Trump, esperou até a última quinta para divulgar uma ordem de quarentena, bem depois de seus homólogos Democratas em outras jurisdições.

Georgia divulgou somente dados parciais sobre o colapso racial das mortes por Covid-19, que subiram para 425.

A história é a mesma no Mississipi, onde o governador Republicano, Tate Reeves, divulgou uma ordem de quarentena apenas um dia antes de Kemp. Duas semanas depois, enquanto continuava a resistir aos pedidos para assinar a ordem e como vizinho de Luisiânia e seu governador Democrata, John Bel Edwards, declarou estado de emergência – Reeves havia escrito um artigo de opinião na imprensa local, defendendo o poder da oração para combater o vírus e aconselhando os moradores a não entrarem em pânico.

82 pessoas morreram de Covid-19 no estado. O Departamento de Saúde do Mississipi se negou a divulgar os números por raça.

Às vésperas do final de semana de páscoa, com a maioria das igrejas ao longo dessa região profundamente cristã fechada, o defensor dos direitos civis Reverendo William Barber pregou um sermão online.

“Acenda uma vela em memória dos que já morreram e dos que estão morrendo sem necessidade”, disse Barber, que tem focado boa parte de sua campanha nas comunidades pobres do sul. “Morrer por causa da negligência humana. Não o que Deus fez, mas, ao invés, o que deixamos de fazer. Suas mortes não serão em vão. Seremos testemunhas de seu sofrimento.”

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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