Pelo Mundo

15-M visto a partir do Maio de 68

07/06/2011 00:00

À esquerda, o editor Mario Muchnik em sua casa. Ao seu lado, o pintor Eduardo Arroyo. (FERNANDO GARCÍA / ULY MARTÍN - El País)

Créditos da foto: À esquerda, o editor Mario Muchnik em sua casa. Ao seu lado, o pintor Eduardo Arroyo. (FERNANDO GARCÍA / ULY MARTÍN - El País)
Matéria publicada originalmente em português no site do IHU/Unisinos

Eduardo Arroyo não é um revolucionário, é um provocador. Um artista. Maio de 68 lhe pegou em Paris e o fez submergir na euforia da revolução. Testemunha e protagonista, coordenou a produção dos cartazes propagandísticos da Escola de Bela Artes ocupada. 40 anos depois, outra revolta o supreendeu a poucos minutos do seu estúdio. Tem caminhado pelas barracas dos indignados, mas sua curiosidade é cética. Já não acredita nas revoluções: “Das revoltas na França, os Estados, com De Gaulle à frente, apenas extraiu uma conclusão: “Plus jamais ça” [Isso nunca mais se repetirá].

Toca a campainha. Mario Muchnik, editor e fotógrafo, chega tarde à reunião do estúdio do seu amigo. Desculpa-se entre piadas: “Incrível, ao dar o endereço ao taxista lhe disse: ‘Para a casa do grande pintor Eduardo Arroyo’, não sabia onde era. É como se em Paris dissesse ao taxista: ´Para a casa de Picasso’, e ele ficou ali parado”.

Muchnik e Arroyo participaram de Maio de 68 em Paris, mas se conheceram faz apenas 15 anos. Agora, que ambos já tem mais de 70 anos, concordam que aqueles dias foram mais do que uma revolução para eles: são lembranças da juventude. Por isso, não reconheceram nada do que viveram em sua visita ao acampamento Sol. A creche foi uma das coisas que mais lhes chamou atenção: “Imagine em Paris, as pessoas trazendo suas crianças para a revolução?”, pergunta o pintou ao seu companheiro. “À diferença com Maio de 68 é que estes querem arrumar o sistema. Nós queríamos explodi-lo”, resume Arroyo com contundência. “Não dá para comparar”, insiste mais prudente Muchnik, “mas a minha sensação é de que Sol é um marco muito pobre”. Em sua visita ao Sol, o editor de Elías Canetti e Primo Levi, que acaba de lançar "Ofício: editor", o quarto volume de sua biografia, lembrou os dias que se fez de cronista fotográfico das revoltas parisienses. Entre as imagens de então há uma de um jovem ruivo e olhar perdido. Chamou-lhe a atenção o seu rosto. Depois soube que era Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do Maio de 68.

Daniel, O Vermelho, era, junto a Alain Geismar e Jacques Sauvageot, uma das cabeças vísiveis da revolução de Maio de 68, que teve seu gérmen no 22 de março na Universidade de Nanterre. Tinham capacidade de interlocução com as autoridades e poder de mobilização entre os revolucionários. Uma hierarquia que Sol tem evitado. Os indignados revezam porta-vozes para renovar rostos e evitar que os meios de comunicação personifiquem a revolução. Organização horizontal, nem bom, nem mal. “Querem ir embora da praça e não podem”, diz Arroyo.

“Naquela época não nos preocupava o desemprego, tampouco a lei eleitoral. Queríamos fazer a Revolução, com letras maiscúlas, ainda que ninguém soubesse o que queria dizer isso”, diz Arroyo. O artista estudou jornalismo, mas conseguiu fama como pintor em seu exílio do outro lado dos Pirineus. Hoje, em pese que as suas provocações aumentam os seus inimigos, expõe nos melhores museus do mundo e se encarrega da cenografia do Teatro Real de Madri. Uma das chaves do estopim tão forte na França foi a união com o movimento sindical. Com a aliança ganharam força, ainda que trouxesse problemas para a coordenação: “Havia muito desconfiança entre operários e estudantes”. Trotskistas, comunistas, maoístas... Todos estavam enquadrados ideológicamente. “Sabíamos o que queríamos. Agora discutem para saber quem são”, opina Arroyo.

Naqueles debates não havia moderador, nem grupo de dinamização de assembleias com acontece em Sol. “Como se organizava o uso da palavra”? “Se arrancava do companheiro”!, brinca Arroyo. “Bom, sim, mas tudo transcorria dentro de uma ordem”, destaca Muchnik por detrás dos seus grandes óculos.

O teatro Odeón se transformou no símbolo assembleísta de 68, as reuniões duravam 23 horas ao dia. Parava-se apenas para limpar. Arroyo faz a sua leitura: “Havia situações em que se colocava cartazes em todas as paredes e um estudante vinha atrás recolhendo. Eu me perguntava: ‘Que tipo de Revolução é esta?’. Agora sei que o único que tinha razão era o que limpava”.

Os indignados tem aprendido esta lição, com acréscimos. O civismo da Puerta del Sol não é o de Paris. As revoltas lá foram violentas: carros virados e ideias loucas como pintar a Sorbonne de roxo. Nove milhões de franceses participaram da greve. Arroyo, amante dos touros e do boxe, compara com ironia: “Ontem havia 10 mil pessoas em Sol e 23 mil nas touradas de São Isidoro”.

As revoltas de Paris cresceram rapidamente, sem que existisse um motivo explícito. Os cartazes que se faziam na Escola de Belas Artes passaram de uma tiragem de 200 exemplares a 200 mil em poucos dias. As fachadas empapeladas se convertaram em porta-vozes da revolução. A produção era volumosa, mas a o processo artesanal. Apresentava-se para votação uns cinco ou seis modelos novos de cartazes a cada dia; se escolhia um, no máximo dois. Arroyo, em que pese ser um pintor de categoria mundial, não publicou mais do que três, o quais diz: “eram muito ruins”. – Encarregava-me sobretudo do processo de criação. Tenho alma de capataz, de mando.

Vermelho, branco e negro combinava as cores dos cartazes. Produzi-los não era algo simples. “Havia dois bolivianos... Não, um boliviano e um argentino. Tomavam muito leite, antídoto para os venenos das tintas”, Arroyo mistura as nacionalidades em sua memória: “Lembro daquele peruano e do argentino... Dois mineiros, tipos duros, forjados na tipografia e na luta”.

Dos pasquins sairam muitos lemas de 68: “Sejamos realistas, peçamos o impossível”, “Uma vez abertos os olhos, não se pode mais fechá-los”... Poesia diaz Muchnik, que cita com ironia o lema “Não há pão para tanto chorizo”, uma das frases de Sol. “É algo que faz falta nessa revolta: criar um discurso artístico próprio”, resume o pintor.

Talvez a razão seja de que o 15-M não tem uma máquina de propaganda. A comissão de comunicação faz as vezes de comissão de imprensa. Em 68, não havia redes sociais por onde lançar os slogans, nem e-mails para enviar comunicados aos meios de comunicação. “Agora, com isto das novas tecnologias, a revolução se faz em casa, com tua Coca-Cola à frente do computador”, diz Arroyo.

“Sinto que os acampados se perguntam: ‘O que será de mim’? Estão preocupados com o seu futuro, o que é certo, mas para nós não importava isso”. Muchnik era um imigrante argentino com medo de perder a licença de residência. Arroyo vivia entre cafés fazendo retratos e caricaturas: “Vendia algum quadro, mas às escondidas, isso era mal visto”. Hoje, de tudo aquilo apenas lhes sobra a lição do esforço. “Maio de 68 foi um fracasso, os Estados sobreviveram e ficaram ainda mais fortes. Em lugar de enfraquecê-los, lhes demos uma vitória”. Plus jamais ça. São dois sobreviventes de sua propria decepção revolucionária, mas, em que pese seu ceticismo, sentem simpatia pelos indignados. Talvez Sol, pacífica em sua forma, possa lhes trazer uma supresa.

Tradução: Cepat

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