Pelo Mundo

1968 (3) – A paz e a guerra

16/05/2008 00:00

Dois eixos contraditórios marcaram o ano de 1968, entre muitos: o da paz e o da guerra.

Estes eixos se cruzaram logo no início do ano, quando, ao final de janeiro, os vietcongues e o Vietnam do Norte lançaram a chamada ofensiva do Tet, ou do novo ano lunar. Apesar de não terem conseguido seus objetivos militares, entre eles o de destruir a embaixada norte-americana na então Saigon, nem políticos, que envolviam um levante popular para derrubar o governo sul-vietnamita, a ofensiva dos revolucionários causou espanto e admiração em todo o mundo. Sua ousadia, sua mobilização massiva, o fato de 19 vietcongues terem conseguido entrar no pátio da embaixada, mostraram uma determinação que cativou corações e mentes. O comando norte-vietnamita e vietcongue desistiram desse tipo de ofensiva, pelo desgaste que provocou, optando pela guerra de persistência que acabou lhes dando a vitória em 1975. De todo modo, a ofensiva foi um turning-point na guerra. Por quê? Por causa da paz.

Até 1968, embora os protestos contra a guerra do Vietnã fossem constantes, eles eram restritos e raras vezes passavam dos limites dos campi universitários. A partir da ofensiva do Tet eles ganharam as ruas, as praças e o mundo. Um movimento internacional pela paz, como não se via desde os tempos da Primeira Guerra Mundial, tomou conta também dos corações e mentes, das canções, dos movimentos de protesto, e foi um dos motivos principais deflagradores da grande rebelião em que se tornou esse ano de 1968 na história do século XX.

Guerra e paz, violência e resistência assim se misturaram, mas não só nesse nível, o da política mundial. As lideranças simbólicas em ascensão misturavam, além da guerra dos vietcongues e os protestos pela paz, as atitudes aparentemente díspares de Ghandi e de Guevara.

Uma das marcas desse ano tomado pelo espírito dos “jovens”, esse grupo de que não se ouvia falar tão revolucionariamente desde os tempos do Romantismo, ainda no século XIX, foi o de unir, ou dar coerência, a ética do espaço público e a do espaço privado. Neste, a violência também entrou em discussão, por exemplo, no espaço familiar.

Até o final da década de 50 o normal era as crianças apanharem bastante na sua formação. No Brasil, a campanha pela Escola Nova, deflagrada nos anos 20, fez recuar bastante as palmatórias e outros castigos corporais dos colégios, embora eles não desaparecessem de todo pelo menos até os anos 60. Até essa década, de quando em quando um galã de comédia ou melodrama norte-americanos aplicava uma coça no traseiro de sua amada, assim, para mostrar quem mandava. As mulheres, como as crianças, eram seres “indefesos” perante os próprios impulsos, e necessitavam, pelo menos simbolicamente, de “disciplina”.

Tudo isso foi ruindo nos anos 60, graças à divulgação de experiências educacionais revolucionárias, como a de Summerhill, na Grã-Bretanha, que reconheciam a integridade do infante, ao movimento feminista, e à progressiva divulgação de novos princípios de comportamento masculino que mudaram, por exemplo, o perfil simbólico da paternidade e do cônjuge masculino. É claro que tudo isso não aconteceu sem resistência, e resistência que dura até hoje. Mas o perfil familiar prestigiado culturalmente começou a mudar.

Ao mesmo tempo, essas mudanças e toda a pregação do amor livre daquele momento se confrontava com as repressões brutais em sociedades convulsionados como as latino-americanas, com a resistência de setores do conservadorismo oficial ou pára-oficial na Europa, com as burocracias empedernidas dos regimes comunistas do leste europeu, e com uma das guerras mais sujas da história humana, a do Vietnã, em que se chegou ao ponto de se desfolhar quase um país inteiro párea dificultar a vida dos guerrilheiros: pela primeira vez a consciência do meio-ambiente entrava na guerra.

Um dos filósofos marcantes desse momento, foi Herbert Marcuse, remanescente da Escola de Frankfurt, particularmente com seus livros “Eros and Civilization” e “The One Dimensional Man”, este traduzido horrendamente para o português como “A ideologia da sociedade industrial”. Partindo da desconstrução dos discursos ideológicos plantados na sociedade capitalista contemporânea, empreendida por Marx, de um lado, e de Freud, do outro, Marcuse retomava o tema da violência não ser prerrogativa de alguma barbárie extra-muros, mas sim algo constitutivo da própria idéia de civilização, através do mecanismo compensatório, sublimador ou simplesmente denegador da repressão. Assim o “homo civilizatorius” era desde sempre preparado para aceitar a violência, fosse como forma de auto-castração ou punição, fosse como castração ou punição compensatória do outro, da criança, da mulher, do estrangeiro, do diferente, do inimigo ou até mesmo da natureza, que nessa ótica permanece sendo, como nos tempos das religiosidades de antanho, a fonte dos males e dos impulsos que precisam ser neutralizados pela “operação civilizatória”, ou seja, a repressão social e individual, a política e a familiar, que assim se completavam.

Talvez sem saber, os movimentos pela paz brandiam as idéias de Marcuse e, curiosamente, os movimentos guerrilheiros que, inspirados pelos Vietcongues e pela trajetória já mitificada de Guevara, se espalhavam pela América Latina, inclusive o Brasil, pelos Estados Unidos, como no caso dos Panteras Negras, ou pela Europa, como no caso das Brigadas Vermelhas italianas ou do movimento depois conhecido como Baader-Meinhof na Alemanha.

No Brasil, diante da repressão brutal desencadeada pelo regime oriundo do golpe de 64, a partir de 68, uma pequena, mas resoluta multidão de militantes (entre alguns mais antigos, ainda do tempo do Estado Novo) optou pela política clandestina e/ou diretamente pela luta armada. Havia, é claro, uma “mesa”, se é que se pode usar o termo, “de discussão” sobre os destinos revolucionários do Brasil e do mundo. Mas não havia só isso, havia também a discussão sobre o que seria a “ética do revolucionário”. E essa coorte de jovens e militantes mais ousados rompeu com o que viam como o imobilismo “quietista” do Partido Comunista Brasileiro. Muitos desses jovens tinham sido formados em movimentos cristãos ou a eles, no fundo, ainda pertenciam. Uma aura de sacrifício acompanhava sua decisão de optar pela luta armada. Aliás “optar” era uma palavra-ícone deste tempo. “Optar” era também romper com a repressão – a repressão oficial do governo ilegítimo e repressor – e também com as peias da repressão interior, realizando a utopia de integrar ação política e transformação pessoal.

Os grupos armados da guerrilha revolucionária foram derrotados neste momento e no seguinte, no mundo inteiro, exceto no Vietnã e em alguns países da África, onde houve guerras de independência. Assim mesmo, houve casos como o de Angola, em que a vitória contra os movimentos contra-revolucionários e contra as forças da África do Sul só viriam com o apoio decisivo do exército cubano.

Por que esses movimentos foram derrotados, é tema de debate até hoje. Mas há, no caso brasileiro, pelo menos, mas penso que também em outros países da América Latina, uma ironia da história. Os jovens e militantes revolucionários das décadas de 60 e 70 eram na esmagadora maioria socialistas de coração, mente e carteirinha. E hoje são saudados, e com justiça, como heróis da resistência democrática e da re-entronização do Brasil (e dos outros países) no aprisco, nas conquistas e nas armadilhas da democracia liberal. O tempora, o mores!, exclamaria algum filósofo da antiguidade. Mas assim são os rumos da história, escrevendo torto o que queríamos direito, e vice versa e versa vice para a alegria de se ver o futuro como algo indeterminado.










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