Pelo Mundo

20 anos sem François Mitterrand

Vinte anos após a sua morte, os franceses ainda sentem sua falta. Consideram-no o último grande presidente francês.

05/01/2016 00:00

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No dia 8 de janeiro de 1996, a França acordava com a notícia da morte de François Mitterrand. Uma intensa emoção tomou conta do país e, aos poucos, foi se alastrando pelos quatro cantos do mundo. Vinha de desaparecer um dos mais importantes homens de estado do século 20. Após quatorze anos como presidente da República no interior de mais de cinquenta anos de vida política, era consenso em toda parte que François Mitterrand marcara profundamente a história de seu tempo e os destinos de seu século.
 
Nascido na pequena Jarnac em 1916, ele amargaria as grandes guerras e o entreguerras. A ocupação alemã e o regime de Vichy. A cooperação e a resistência ao marechal Pétain. A emergência da France libre e do general De Gaulle. A libertação e a fundação da Quarta República francesa. A descolonização e os dissensos na Argélia. O retorno do general De Gaulle em 1958 e a oposição permanente a ele e aos seus seguidores. Disputas, vitórias e derrotas eleitorais. Ascensão ao cargo máximo de seu país e a experiência da solidão agônica do poder.
 
Quando ele deixou o palácio do Élysée em maio de 1995, sua trajetória já participava do panteão dos gigantes contemporâneos.
 
Ele foi o mais jovem ministro francês ao assumir, em janeiro de 1947, aos 30 anos, o ministério dos antigos combatentes. Ele seria o maior opositor da presidência do general De Gaulle (1958-1969). Iria denunciá-lo de ditador e o desafiaria nas eleições presidenciais de 1965, levando-o a disputa ao segundo turno. Receberia 49,19% dos votos no escrutínio contra Valéry Giscard d’Estaing em 1974. E, enfim, venceria as eleições presidenciais em 1981.
 
A noite do dia 10 de maio de 1981, após a divulgação dos resultados de seu sucesso rumo à presidência, centenas de milhares de franceses em êxtase ocuparam a Bastilha para saudar o primeiro presidente francês à esquerda da segunda metade do século 20. Para muitos era a catarse de maio de 1968 que finalmente chegava ao poder.
 
François Mitterrand como o general De Gaulle possuía “uma certa ideia da França” e passaria suas duas presidências, 1981-1988 e 1988-1995, pondo-a em prática. Nesse empenho ele aboliria a pena de morte, nacionalizaria cinco grupos industriais e 39 bancos, estabeleceria a aposentadoria aos 60 anos, descriminalizaria a homossexualidade, promoveria o fim do monopólio estatal da radiodifusão, criaria a política do preço único para livros, implantaria no calendário nacional a festa da música, inauguraria o Musée d’Orsay, o Instituto do mundo árabe, a pirâmide do Louvre e a pedra fundamental da Biblioteca Nacional de France, reforçaria a relação franco-alemã, consolidaria a Comunidade Europeia e forjaria a União Europeia com a assinatura do tratado de Maastricht em 1992.
 
Mas também inauguraria a deletéria experiência da coabitação. Após perder a maioria legislativa nos pleitos de 1986 e 1993, ele se viu obrigado a convocar líderes da oposição para o cargo de primeiro-ministro. Em 1986-1988 e em 1993-1995 sua presidência de esquerda conviveria com governos de direta conduzidos por Jacques Chirac e Édouard Balladur respectivamente.
 
Seus últimos anos de poder e vida foram melancólicos. Desde 1992 seu câncer de próstata ficou latente. Cirurgias e internações se tornaram constantes e intensas. A morte começava a rondar seus dias de modo impiedoso. Além disso, extratos de sua vida privada viraram escândalos públicos. O jornalista Pierre Péan publicaria em 1994 o livro Une jeunesse française relatando a sua participação colaborativa no regime de Vichy do marechal Pétain. No mesmo ano, a revista Paris-Match revelaria a existência de sua segunda família com Anne Pingeot e de sua filha Mazarine Pingeot.
 
Sua relação com o Brasil foi relativamente discreta, mas não desimportante. Ele teria um encontro amistoso com o presidente Tancredo Neves em fins de janeiro de 1985, quando o brasileiro eleito fazia sua grande tournée de apresentação da Nova República brasileira pela Europa e pelas Américas. Em retribuição, o presidente francês promoveria uma visita de estado ao Brasil em outubro de 1985 e iniciaria a reaproximação entre os dois países. A rigor, François Mitterrand seria o primeiro presidente de país industrializado a visitar o ainda cambaleante recente regime democrático brasileiro sob a presidência de José Sarney. De 1986 a 1989 ele apoiaria o projeto Brasil-França, idealizado pelo chanceler Olavo Setúbal com a intenção de promover o reconhecimento mútuo dos dois países, e a partir de 1992, iniciaria a discussão sobre o acordo-quadro franco-brasileiro para unir em definitivo seus interesses estratégicos comuns.
 
Em maio de 1995, ele legaria o poder ao seu sucessor, Jacques Chirac, e no mesmo mês receberia do presidente Fernando Henrique Cardoso congratulações e convites para que visitasse o Brasil sem demandas presidenciais. O político francês não tardaria a agradecer da gentileza do presidente brasileiro, mas advertiria que, doravante, dependia dos caprichos das circunstâncias, a saber, a progressão de sua doença que acabaria por matá-lo meses depois.
 
Vinte anos após a sua morte, os franceses ainda sentem sua falta. Consideram-no o último grande presidente francês. Mas vendo em perspectiva e em dimensão mundial, ele talvez tenha sido, em verdade, um dos últimos grandes homo politicus de nosso tempo.
 
Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.





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