Pelo Mundo

5 pontos para entender a greve geral na Argentina

Sem subestimar o poder do governo para atomizar a oposição, depois de 33 meses e meio de gestão, a proposta governista deixou de ser uma novidade

26/09/2018 10:50

Bernardino Avila

Créditos da foto: Bernardino Avila

 

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A jornada de 36 horas de protestos, incluindo uma greve geral de 24 horas, configuram um cenário que pode ser lido através de cinco temas essenciais:

1) A comunhão entre as organizações sindicais foi superior às suas diferenças. As duas vertentes que utilizam a sigla CTA (Central de Trabalhadores Argentinos) convocaram juntas uma jornada de protestos, iniciada ao meio dia da segunda-feira (24/9), finalizando à meia-noite que inicia a quarta (26/9). Contou com a adesão do setor da Confederação Geral do Trabalho (CGT) liderado pelos caminhoneiros Hugo e Pablo Moyano, e que também conta com o apoio da Corrente Federal, que inclui, entre outros, os bancários de Sergio Palazzo, os professores particulares de Mario Almirón e María Lázzaro, e os supervisores de eletricidade de Carlos Minucci. Todos eles criaram, na semana passada, uma nova iniciativa, a Frente Sindical para o Movimento Nacional, com uma característica: os membros dessa frente que estão na CGT não formaram uma central nova. A CGT, dirigida pelo triunvirato Héctor Daer, Carlos Acuña e Juan Carlos Schmid, preferiu aderir somente às 24 horas de greve durante a terça-feira, ao menos oficialmente. Mas é o suficiente para dizer que nem todos os setores estavam presentes na manifestação desta segunda – mas quase isso.

2) Além da plena recomposição da unidade sindical, as organizações sociais também formaram parte de uma mobilização que começou em grande escala, com marchas em todo o país, e com enorme possibilidade de chegar a ser uma greve potente. A recomposição inclui grupos como Bairros a Pé e a divisão política da organização Livres do Sul, liderada por Victoria Donda e Daniel Menéndez. Quem também vai ganhando cada vez mais peso político é Juan Grabois, do Movimento de Trabalhadores Excluídos e da CTEP (Confederação de Trabalhadores da Economia Popular). Essa primeira leitura sugere que a recomposição orbita ao redor da sigla CFK, como se tudo se limitasse a que Donda e Grabois acatem ou não a liderança de Cristina Fernández de Kirchner. A questão é mais complexa que isso. Politicamente, o que se discute é se Cristina é um limite para a esquerda, não se é a única liderança possível.

3) O protesto sindical e social se traduz em iniciativas políticas. Um caso que explica essa situação é a reunião de dirigentes sindicais com Sergio Massa, líder da Frente Renovadora (corrente do peronismo contrária ao kirchnerismo), na qual participaram Facundo Moyano e Marco Lavagna. “A Argentina necessita de uma alternativa a um governo que hoje representa uma perda sistemática do poder de compra dos setores mais vulneráveis”, disse Massa a outros dois líderes sindicais, Carlos Acuña e Omar Plaini. Não foi um encontro para se chegar a acordos. Até agora, o único peronista aspirante à Casa Rosada que não participou em jogo de alianças com o movimento social é o governador da Província de Salta, Juan Manuel Urtubey. Mas ninguém que se reivindique peronista pode se manter alheio a uma greve sindical majoritária. Esta é outra porta que ficará aberta, e com vários dirigentes sindicais tendo uma cópia das chaves.

4) O jogo governamental das ameaças políticas (contra opositores que se opõem às medidas do governo) já não é suficiente, por dois motivos. Um desses motivos é que o governo está fragilizado, muito mais do que no começo do mandato de Mauricio Macri, quando sua popularidade garantia o sucesso dessa estratégia. A outra razão é a crise econômica e social, que é a principal preocupação de nove em cada dez pessoas, segundo o Centro de Estudos de Opinião Pública. A queda do consumo em quase 5% desde janeiro e os 12% de desemprego na Grande Buenos Aires, junto com a disparada do dólar (aumento de quase 90%) e dos preços no atacado (51% nos últimos doze meses), fazem com que seja muito mais difícil para o macrismo soar como uma força política confiável quando tenta atacar a imagem dos sindicatos e mostrá-los como instituições desprezíveis. As declarações dos ministros Dante Sica e Guillermo Dietrich sobre a greve ser “política” dispensa comentários. Se trata de uma rotina deprimente, repetida por todos os governos que não conseguem conter protestos generalizados.

5) A política governista fica nitidamente marcada. Fracassou tanto na administração das finanças do Estado como nas políticas para a economia real. Hoje, sequer consegue apostar em uma agenda alternativa. Macri, assim como Fernando de la Rúa em 2000 e 2001, tenta ser uma espécie de messias. Enquanto o Papa Francisco pede que “rezem por mim”, Macri usa o seu “acreditem em mim”. As apostas do governo são financeiras: dólar com preço fixado durante alguns meses, nova chance de investimento para os especuladores e fundos abutre que o escutaram em Nova York, durante a reunião organizada pelo diário Financial Times, e entrada de dólares graças ao aval da Casa Branca. E depois, quem sabe, outra vez a promessa de que tudo será melhor no segundo semestre de 2019 (justamente o das eleições presidenciais), e em 2020.

Sem subestimar o poder do governo para atomizar a oposição (sua meta é criar barreiras entre os diferentes graus, separando o antimacrismo do não-macrismo moderado), depois de 33 meses e meio de gestão, a proposta governista deixou de ser uma novidade. A novidade agora é a quantidade e a diversidade de motores sociais em marcha. Até junho de 2019, quando se definirão as pré-candidaturas, os dirigentes terão por diante nove meses para se tornarem em uma maquinária política competitiva. A não ser que alguém pense, ingenuamente, que a alternativa ao macrismo pode se limitar à resistência sindical.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli

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