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7 modos que 2020 expôs os EUA

 

19/06/2020 14:52

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Se não aprendermos mais nada com esses tempos sombrios, aqui estão sete lições que devemos tirar de 2020:

1. Os trabalhadores mantêm os Estados Unidos funcionando, não os bilionários. Os trabalhadores norte-americanos são forçados a colocar suas vidas em risco para prover serviços essenciais, mesmo quando seus empregadores não os protegem com os equipamentos adequados. Enquanto isso, os bilionários do país se retiram para suas mansões, iates e propriedades.

O CEO da Amazon, Jeff Bezos, retornou ao seu rancho no oeste do Texas, com 165.000 acres (670 km²), enquanto os funcionários dos armazéns da Amazon trabalham muito próximos uns dos outros, geralmente sem máscaras, luvas ou desinfetante. A empresa já reduziu o mísero aumento de US$ 2 por hora de risco que deu aos trabalhadores dos depósitos, mesmo com a riqueza de Bezos saltando incríveis US$ 23,6 bilhões desde o início da pandemia.

2. O racismo sistêmico está literalmente matando norte-americanos negros e pardos. Os afro-americanos representam 42% das mortes de coronavírus até agora, apesar de representar apenas 21% da população. À medida que suportam o impacto dessa pandemia, os afro-americanos são forçados a lutar por sua humanidade de outra maneira - indo às ruas em todo o país para protestar por décadas de assassinatos injustos, por policiais, de membros de sua comunidade, e se defrontarem com mais violência policial.

E entre as comunidades nativas americanas, os números da Covid-19 são ainda mais horríveis. A nação navajo tem uma taxa de infecção per capita mais alta do que qualquer outro estado, mas não pode cuidar adequadamente dos doentes, graças a anos de subfinanciamento federal e negligência de seu sistema de saúde.

Décadas de moradias segregadas, poluição, falta de acesso a assistência médica e pobreza deixaram comunidades de cor vulneráveis ao pior deste vírus e ao pior dos Estados Unidos.

3. Se pudemos nos dar ao luxo de socorrer empresas e Wall Street, com toda a certeza podemos investir no povo norte-americano. Estou cansado de ouvir que não podemos pagar o Medicare for All (um programa de saúde universal), um Green New Deal ou eliminar a dívida dos estudantes - no mesmo instante em que o Congresso distribui bilhões a grandes bancos, corporações e ricos.

Por insistência dos republicanos do Senado e do governo Trump, a legislação de alívio de coronavírus distribuiu pelo menos US$ 243 milhões [sic] para grandes corporações, incluindo US$ 72 milhões [sic] para empresas de petróleo e gás e US$ 25 milhões [sic] para o setor aéreo. Milionários receberam US$ 82 bilhões em cortes de impostos. O Partido Republicano não ligou para a "responsabilidade fiscal", mesmo durante uma crise nacional. É uma questão de prioridades, não o que podemos ou não pagar.

4. Governadores e prefeitos estão administrando o país, não Trump. Enquanto Trump vomita mentiras e ataca a mídia, os líderes locais e estaduais não tiveram escolha senão intensificar e combater a pandemia por conta própria. Eles fecharam acordos com nações estrangeiras para obter testes e equipamentos médicos, e desenvolveram pactos interestaduais para coordenar compras e diretrizes regionais para o momento e a forma de reabrir.

O governo Trump não apenas ficou de fora e deixou para os estados – ele ativamente colocou obstáculos em seu caminho. Trump e seus lacaios se recusaram a ajudar os estados a assegurar respiradores, ordenaram à FEMA apreender remessas de equipamentos de proteção individual dos estados, ameaçou processar estados que mantêm ordens de bloqueio das atividades e até sugeriu manter os estados reféns de ajuda federal até que acabem as cidades-santuário [que não cooperam com a Imigração]. Enquanto isso, Trump diz que planeja enviar nosso precioso suprimento de respiradores para seu querido amigo, Vladimir Putin. Engraçado como isso funciona.

5. Os cuidados de saúde têm que ser corrigidos nos Estados Unidos. No país mais rico do mundo, é um ultraje moral que os norte-americanos nem sequer recebam os cuidados de que precisam durante uma pandemia.

Mesmo antes da crise, estima-se que 27 milhões de americanos não tinham seguro de saúde. E, de acordo com um relatório recente, 43 milhões adicionais poderão em breve perder a cobertura fornecida pelo empregador porque perderam o emprego. Sem seguro, uma internação hospitalar para tratar a COVID-19 pode custar até US$ 73.000. Lembre-se disso na próxima vez que ouvir especialistas dizendo que o Medicare for All é radical demais.

6. Nossas redes de segurança social estão tristemente falidas. Nenhuma outra nação avançada estava tão despreparada para a pandemia quanto os Estados Unidos. Nós não fornecemos assistência médica universal. Somos um dos poucos países do mundo que não oferece, a todos os trabalhadores, algum tipo de licença médica remunerada.

Outras nações industrializadas mantiveram suas taxas de desemprego baixas, garantindo contracheques durante a pandemia. Aqui, em meados de maio, 36,5 milhões de americanos entraram com o pedido de auxílio desemprego e receberam apenas um cheque único de US$ 1.200 para mantê-los. E esse número provavelmente está subestimado - os escritórios para registro de desemprego ficaram tão sobrecarregados que muitas reclamações nem sequer puderam ser registradas.

7. O governo importa. Durante décadas, os conservadores nos disseram que o governo é o problema e que devemos deixar o mercado livre seguir seu curso. Bobagem. A pandemia de coronavírus mostrou, mais uma vez, que o livre mercado livre não nos salvará. Após 40 anos de ‘reaganismo’, nunca ficou mais claro: o governo é de fato necessário para proteger o público.

É trágico termos precisado de um desemprego recorde, vídeos chocantes de negros americanos sendo assassinados e milhões de pessoas indo às ruas para muitos de nós entendermos como nosso sistema está danificado, é atrasado e é racista.

Não podemos nos apegar à ideia de "voltar ao normal" porque o "normal" é o que nos trouxe até aqui. Não podemos mais aceitar reformas fragmentadas de nossos sistemas danificados. Precisamos reimaginar um sistema político e econômico que valorize a humanidade e construa prosperidade para todo norte-americano. Vamos ao trabalho.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli

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