Pelo Mundo

A América Latina esquecida

A UE sabe bem que quando o assunto é expandir sua influência dentro de um país ou região, a China joga o jogo sem pressa. Mas a China também é adepta de identificar oportunidades para fazer um progresso rápido, e as crises crescentes da América Latina representam uma de ouro

19/07/2021 12:33

(YAMIL LAGE/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (YAMIL LAGE/AFP via Getty Images)

 
MADRI – Milhares de cubanos foram às ruas no final de semana passado para protestar contra a escassez de comida e medicamentos – a maior exibição de divergência vista no país em décadas. E os cubanos não estão sozinhos: pela América Latina, crises sociais, políticas e econômicas estão intensificando, com consequências graves. A União Europeia precisa começar a prestar atenção.

Ao redor da região, as economias foram enfraquecendo gradualmente, e o populismo foi ganhando energia, por um bom tempo. Mas a crise de covid-19 levou a América Latina a sua pior recessão econômica em 100 anos. Estripando a classe média, a pandemia aumentou a desigualdade onde já era a região mais desigual do mundo. Agora, um terço dos latino-americanos está vivendo em extrema pobreza (com 1 dólar e 90 centavos por dia ou menos, de acordo com a definição do Banco Mundial).

Pode parecer inapropriado, até desdenhoso, discutir a América Latina como uma entidade singular, tendo em vista a vasta diversidade socioeconômica da região. Mas há uma coincidência considerável em relação aos desafios que os países enfrentam.

Do Chile ao Equador, à Venezuela e ao Peru, as populações estão batalhando com as suas identidades nacionais. Em meio a corrupção desenfreada e captura do estado, os latino-americanos não confiam em suas instituições – uma tendência que contribuiu com o colapso de partidos políticos tradicionais e com a emergência de candidatos populistas. Os retrocessos democráticos e a desilusão são abundantes.

Para reverter essas tendências, a região precisa de mudanças estruturais profundas. E é papel da comunidade internacional – especialmente dos EUA e da UE – ajudar.

Durante a Guarra Fria, a América Latina foi frequentemente tratada como uma peça no xadrez geopolítico global. Até certo ponto, esse segue sendo o caso hoje, embora agora seja a China, não a União Soviética, que esteja competindo com os EUA por influência. Na realidade, a China trabalhou duro nos últimos anos para reorientar o comércio da América Latina para longe dos EUA, e agora está prestes a se tornar a maior parceira comercial da América Latina até 2035.

E mesmo a América Latina tendo sido manipulada e usada por grandes potências, também foi uma personagem global influente. Representando quase metade das delegações na Conferência de Bretton Woods em 1944, a região teve um papel importante para estabelecer as fundações da ordem mundial liberal.

Mais recentemente, a América Latina foi uma força motriz por trás da adoção de acordos internacionais basilares, da Agenda 2030 por um Desenvolvimento Sustentável ao Acordo de Paris. E a região é lar para muitas economias que, apenas alguns anos atrás, estavam sendo aclamados pelo seu grande potencial de crescimento.

Entre o legado problemático da intervenção externa na América Latina e o vasto potencial econômico e diplomático da região, não há falta de motivos para a comunidade internacional, especialmente as democracias ricas ocidentais, ajudarem a região a superar a cascata de desafios que encara. Ainda assim, isso simplesmente não aconteceu – e a negligência ocidental é particularmente gritante no caso da UE.

A política latino-americana do bloco começou essencialmente como uma segunda reflexão. Foi somente após a adesão da Espanha e de Portugal em 1986 que algo parecido como uma política regional mais focada nasceu. Mas, 35 anos depois, a política permanece embrionária. A Comissão Europeia proclama com orgulho que a UE é o mais importante parceiro de desenvolvimento da América Latina. Esse é um exagero significativo.

Considere o destino do acordo de livre comércio da UE com o bloco do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai). O acordo, assinado em 2019 como parte de um Acordo de Associação mais amplo entre as duas regiões, inspirou altas esperanças. Mais de 90% das barreiras tarifárias seriam reduzidas no curso de 10 anos.

Infelizmente, o acordo nunca foi ratificado. Ao invés, foi pausado por causa de preocupações ambientais – em particular, a destruição da Amazônia brasileira. A política comercial da UE agora mantém padrões ambientais e laborais rigorosos. Isso, junto com a nova estratégia do bloco para financiar a transição para uma economia sustentável, significa que não é provável que o pacto siga adiante sem novas provisões e condições.

É claro, há uma boa razão para isso: uma gestão correta dos recursos naturais é essencial para a prosperidade a longo prazo. No entanto, a Europa não pode ignorar a importância estratégica da América Latina, ou subestimar o interesse do Mercosul no acordo, que levou 20 anos para ser negociado, especialmente tendo em vista os esforços da China para consolidar sua presença na região. Afinal, preocupações ambientais não vão parar a China.

As mais recentes Conclusões do Conselho da UE refletem o reconhecimento europeu de que precisa estimular seu engajamento global. “Uma Europa Globalmente Conectada”, como é chamado o documento, “convida” a Comissão e o Alto Representante da política de segurança e relações exteriores, Josep Borell, a “identificar e implementar uma gama de projetos e ações de alto impacto e visibilidade globalmente”. Mas enquanto muitos países asiáticos são evidenciados, a América Latina é uma citação de pé de página.

As Conclusões também não mencionam a China. Mas isso não significa negligência: contrariar a China é a motivação principal por trás das recomendações do documento. O mesmo é verdade sobre a Estratégia de Cooperação da UE na região Indo-Pacífica, que também evita qualquer menção explícita à China.

A UE sabe bem que quando o assunto é expandir sua influência dentro de um país ou região, a China joga o jogo sem pressa. Mas a China também é adepta de identificar oportunidades para fazer um progresso rápido, e as crises crescentes da América Latina representam uma de ouro. A região precisa de ajuda vinda de algum lugar. Se a UE não agir rapidamente para fornecê-la, a China irá.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares



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