Pelo Mundo

A Europa não está preparada para a recessão do COVID-19

Se há um órgão europeu que tem demonstrado, consistentemente, sua falta de estrutura para gerir crises econômicas, é o Eurogrupo dos ministros das Finanças da eurozona. Certamente vai responder à crise do COVID-19 com anúncios heróicos salientando números impressionantes que mascaram a irrelevância e a timidez das políticas acordadas.

25/03/2020 18:30

(John Thys/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: (John Thys/AFP via Getty Images)

 
ATENAS – O Eurogrupo de ministros das Finanças da eurozona está lutando para concordar sobre uma resposta fiscal coordenada e macroeconomicamente significativa aos grandes efeitos da pandemia do COVID-19. O resultado, eu temo, serão anúncios heróicos salientando números impressionantes que mascaram a irrelevância e timidez das políticas acordadas.

A primeira indicação disso vem do anúncio do pacote de auxílio financeiro do governo alemão ao setor privado. Enquanto a mídia internacional se refere a ele como uma bazuca de 600 bilhões de dólares, inspeções detalhadas sugerem que não é mais do que uma pistola de água.

Adiando impostos e grandes linhas de crédito, o pacote alemão revela um sério mal-entendido da natureza da crise. E é o mesmo mal-entendido que empoderou a crise do euro uma década atrás. Agora, como antes, empresas e lares estão lidando com a falência, não com a iliquidez. Para prender a crise, os governos devem “ir com tudo” com uma expansão fiscal estupenda. Mas é exatamente isso que o pacote alemão quer evitar.

Ministros das Finanças de países com problemas econômicos mais profundos do que a Alemanha (a Itália e a Grécia, por exemplo) vão, sem dúvida, insistir por uma expansão fiscal necessária. Mas vão dar de cara na parede da oposição do ministro das Finanças alemão e seus apoiadores leais dentro do Eurogrupo. Logo, os “sulistas” vão fazer as malas, sua conformidade assegurando outro pacote europeu fiscalmente insignificante que será suprimido pela recessão que está por vir.

Como posso ter tanta certeza? Porque eu já estive lá. Representei a Grécia nas reuniões do Eurogrupo em 2015, onde foi decidida a derrota da desesperada batalha do nosso governo para evitar mais empréstimos às custas de uma recessão mais profunda. O jeito metódico com o qual essas reuniões do Eurogrupo fechavam qualquer caminho que levasse a um debate racional sobre políticas fiscais apropriadas é a chave para entender por que o Eurogrupo também irá falhar em estabelecer uma defesa fiscal eficaz contra o choque induzido pela pandemia.

Uma reflexão sobre essas reuniões cruciais do Eurogrupo de cinco anos atrás sobressai: qualquer ministro das Finanças de um país em dificuldade e que ousa se opor à diretriz de Berlim, ou propõe soluções que beneficiem a maioria dos europeus ao invés do setor financeiro, deve se preparar para os obstáculos no caminho.

Eu tive um caminho cheio de obstáculos. Qualquer um que escutar as longas horas de reuniões do Eurogrupo em 2015, agora disponíveis, vai ouvir o presidente do Eurogrupo ameaçando encerrar as negociações se eu ousasse apresentar propostas que a Alemanha não quisesse discutir (somente para depois dizer à mídia que eu cheguei “sem nada nas mãos”).

Depois tivemos o líder do fundo de resgate europeu, o Mecanismo de Estabilidade Europeu, me acusando de me importar demais com lares não endividados e de menos com a capitalização do banco (já falido). E não vamos esquecer do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, exigindo manter no orçamento alemão – “meu orçamento”, como ele colocou - os lucros do Banco Central Europeu com o comércio de títulos gregos. A UE havia concordado que esse dinheiro deveria voltar para a Grécia; no final, Schäuble ficou com esse dinheiro, de fato, para o orçamento alemão.

Tudo isso enquanto ministros europeus nortenhos empunhavam a ameaça do “Grexit” e, de maneira equivalente, o Plano B (uma moeda alternativa para a Grécia) para me forçar a aceitar mais empréstimos. Ao invés de oferecerem redução de dívidas e reestruturação, fomos atingidos por uma barragem de ultimatos “isso ou nada”, e uma longa lista de calamidades que cairíam sobre nosso povo se não aceitássemos mais empréstimos e níveis ridículos de austeridade adicional que garantiam que a Grécia nunca seria capaz de pagar.

As reuniões de 2015 do Eurogrupo oferecem aos ouvintes um lugar na primeira fileira do esporte sangrento que é o poder irresponsável. Está tudo lá: decisões cruciais voando na cara da ciência e da matemática simples. Bullying com os fracos até eles se renderem. Roubo disfarçado. Fake News como armas contra aqueles que ousarem resistir. E por último, mas não menos importante, desprezo pela transparência e outros equilíbrios essenciais em qualquer democracia.

Não é coincidência que esses temas estejam, agora, prevalecendo no Ocidente. As reuniões de 2015 do Eurogrupo eram o campo da derrota da democracia européia, que tinha repercussões não apenas na Europa como também nas Américas e outros lugares. Em menos de um ano, Brexit e a eleição de Donald Trump não eram mais hipóteses cômicas. As práticas que o establishment liberal agora repreendem estavam evidentes naquelas reuniões do Eurogrupo - a mesma instituição que, hoje, está decidindo a resposta da política fiscal europeia à recessão do coronavírus.

Eurocéticos, seja fora da União Européia, como Trump e o presidente russo Vladimir Putin, ou dentro, como Viktor Orbán da Hungria, Matteo Salvini da Itália e Marine Le Pen da França, vão, sem dúvidas, ganhar coragem com a divulgação das transcrições de 2015 do Eurogrupo. Mas torná-los públicos é do interesse do europeísmo. Revelar aos europeus o processo de tomada de decisão da UE, as verrugas e tudo, é um pré-requisito de empoderamento dos democratas para salvar a UE tomando o controle das nossas instituições.

Os europeus não são burros. Mesmo que não saibam exatamente o que acontece por trás das portas fechadas das instituições decisivas da Europa, eles podem sentir que as decisões resultantes falham em usar recursos existentes para o interesse da maioria dos europeus na maioria dos estados membros.

Temos o dever de esclarecer aos cidadãos sobre como, mesmo em nossas democracias liberais, as decisões são rotineiramente tomadas em seus nomes, contra seus interesses, e sem seu conhecimento por funcionários que detestam a democracia mesmo ao fingir que a defendem.

Se falharmos, as decisões da UE, especialmente durante essa pandemia, sobre política fiscal, investimento verde, saúde, educação e política migratória certamente serão tão ineficazes quanto as que magnificaram a crise do euro dez anos atrás. Então, somente os Trumps e Putins, e os próprios Orbáns, Salvinis, e Le Pens europeus, que querem dissolver nossas instituições comuns de dentro para fora, vão se beneficiar.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado