Pelo Mundo

A Fenícia de ontem, o Líbano de hoje

"Concentre o maior número possível de refugiados, como resultado de guerras criadas pelas potências e Estados vizinhos"

22/05/2019 11:08

 

 
Nunca foi fácil entender o que acontece no Líbano. Pátria dos fenícios e berço de civilizações que se cruzaram com os egípcios, os gregos, os romanos, os bizantinos e muitos outros, incluindo Alejandro Magno, até as recentes invasões militares da Síria e de Israel.

O país esteve sob o domínio do Império Turco por 400 anos, uma época que finalizou com a I Guerra Mundial, em 1918. Naquele então, a França declarou o país como seu protetorado, condição que durou até 1943, quando é outorgada a independência. Os poderes coloniais (Inglaterra e França), definiram suas fronteiras de acordo, naturalmente, com os seus interesses, a partir da divisão da Palestina, em 1948, e para permitir a criação do Estado de Israel. A Grande Síria, que incluía o que hoje é o Líbano, a Palestina, a Jordânia e outros territórios, acabou desaparecendo, e ficou reduzida às suas fronteiras. Somente em 2008, Damasco estabeleceu relações diplomáticas com o Líbano, em um reconhecimento de fato da sua independência. Hoje, sua população está estimada em mais de 6 milhões de habitantes – apesar de que o último censo foi efetuado em 1932 (1) –, os quais estão separados por 18 credos religiosos, entre muçulmanos, sunitas, xiitas e alauitas; cristãos maronitas, ortodoxos gregos, católicos armênios, melquitas e protestantes. Assim como os drusos, caldeus, assírios, coptos, entre muitos outros, conformam o país de somente 10,4 mil quilômetros quadrados, o que significa uma densidade de 582 habitantes por quilômetro quadrado.

O Líbano concentra o maior número de refugiados per capita do mundo, incluindo cerca de 1,5 milhão de sírios e uns 500 mil palestinos aproximadamente – ou seja, quase 33% da população do país. As cifras são contraditórias, e muitas vezes as do governo não concordam com as entregues pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) ou pela Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (UNRWA). É fácil imaginar que esta alta concentração de refugiados gera custos políticos para o governo libanês e para aqueles que desejam manter o carácter cristão do país. Entretanto, sunitas e xiitas conformam hoje a maioria da população, com a diferença de que entre os primeiros se encontram os palestinos e sírios refugiados, ou seja, pessoas “transitoriamente” instaladas no Líbano, e com limitações em seus direitos civis. O pequeno detalhe é que os refugiados palestinos estão lá desde 1948, ano em que se abriram os primeiros campos para albergar milhares de pessoas que fugiram do país ao ficar sem pátria nem passaporte, devido à ocupação israelense (2).

Existe, na atualidade, 12 campos que concentram cerca de meio milhão de refugiados palestinos, os quais vem recebendo ultimamente uma quantidade importante de sírios. Desde a abertura dos primeiros campos, praticamente quatro gerações de refugiados palestinos nasceram e cresceram em difíceis condições: vivem confinados em bairros de Beirute, com escolas, hospitais, asilos para anciãos, moradias precárias, mercados, organizados autonomamente, onde a polícia libanesa não entra. Tive a oportunidade de visitar os campos de Burj El Barajneh, e os mais conhecidos pela comunidade internacional: Sabra e Chatila, onde aconteceram os massacres de 1982, por obra de um grupo cristão libanês armado e instrumentalizado por Israel, que matou entre 2,5 e 3,5 mil mulheres, homens e crianças. O tempo e as investigações comprovaram que aquela ação foi parte de uma refinada operação de inteligência, na qual os agentes criaram as condições através de atos terroristas em Beirute, para justificar a posterior matança (3).

Em conversas com os responsáveis políticos e com o diretor do hospital de um dos campos, é fácil perceber a frustração e a desesperança sobre o futuro. Embora sejam agradecidos pela hospitalidade libanesa, eles se sentem cidadãos de segunda classe, que podem pagar para estudar nas universidades, mas não podem exercer suas profissões e tampouco ter acesso à cidadania libanesa. No campo de Burj El Barajneh, que reúne cerca de 18 mil pessoas, nascem cerca de 50 crianças por mês. Uma das sobreviventes dos massacres de Sabra e Chatila, assim como o responsável político de Burj El Barajneh, nasceram nesse lugar, em 1952. Passou a vida toda esperando voltar à Palestina. A guerra na Síria levou cerca de 1,5 milhão de refugiados a cruzar a fronteira, para se instalar em acampamentos precários, junto com os palestinos. Os sírios ao menos sabem que têm um país, destruído, mas que existe, e aonde provavelmente poderão regressar, com o apoio das Nações Unidas, que poderia protegê-los de eventuais represálias, uma vez conquistada a pacificação.

A outra cara da moeda é a população libanesa, que teve que receber estas centenas de milhares de pessoas, junto com os seus dramas, em um país onde a identidade nacional está marcada pela religião que divide as cidades e os bairros das zonas cristãs, sunitas ou xiitas. Outorgar a nacionalidade libanesa aos refugiados seria modificar substancialmente a composição do país e sua tradição. Também há alguns Estados árabes, e muitos entre os próprios palestinos, que rechaçam a ideia de entregar a nacionalidade, porque isso os privaria do direito de voltar à Palestina, que é o que Israel espera que aconteça. Naturalmente, tudo isso gera confusão, e a busca de equilíbrios que são muito frágeis. Um diplomata, com vários anos trabalhando no Líbano, me contou que “mais que uma convivência entre os credos religiosos, existe uma coexistência”. O país já viveu guerras civis: em 1958, e entre 1975 e 1990, sendo que esta última deixou uma cifra indeterminada de mortos, embora se calcule algo entre 100 e 200 mil.

O Líbano é uma invenção de duas potências coloniais, responsáveis histórias sobre o que ocorre nessa região. Em palavras de um destacado historiador israelita: “as nações síria, libanesa, jordaniana e iraquiana são o produto de fronteiras fortuitamente desenhadas na areia, por diplomatas franceses e ingleses, que ignoravam a história, a geografia e a economia dos povos que lá viviam”. Ele acrescenta que foram sobretudo os franceses que decidiram quem seria sírio e quem seria libanês (4). “Alimentou-se o mito de que Beirute era `a Suíça, ou a Paris do Oriente Médio´, devido ao grau de liberdade econômica, religiosa e cultural que apresentou durante um breve período”. A realidade se mostrou mais crua que isso, com as duas guerras civis, a manipulação constante e a intervenção dos serviços de inteligência das grandes potencias, e dos países vizinhos do Líbano.

Os fatos concretos mostram um país com vários países dentro de si, entre os quais existem cidadãos de segunda classe, segregados e marginalizados, como são os refugiados. Israel não só ocupa uma porção do seu território no sul do Líbano, a qual considera uma faixa de segurança, como também viola, regularmente, os espaços aéreos e marítimos. Isso contribui para legitimar a criação e a presença do Hezbolá (5), pela resistência armada que impõe aos bombardeios e à invasão israelense, o que ganhou a simpatia da maioria dos libaneses. Uma embaixadora deste país me contou que “não existe a possibilidade de estabelecer algum tipo de relação com Israel, ao menos enquanto mantenham uma parte do território ocupado”.

Na verdade, se percebe um sentimento de frustração entre os libaneses, independentemente de sua religião, por causa da situação política e econômica. De acordo com a pesquisa e informe da fundação alemã Konrad Adenauer, publicada em fevereiro de 2019, cerca de 77% dos libaneses são pessimistas a respeito do futuro, enquanto 95% estima que o país está seguindo um caminho equivocado, e outro 40% vincula seu pessimismo à corrupção. A economia segue crescendo somente entre 1% e 3%, e na última década, a dívida pública alcançou os 152,9% do PIB, fazendo com que a agência qualificadora Moody´s rebaixasse o seu índice creditício de B3 a CAA1. Muitos investidores conhecem as ricas potencialidades do país e de sua gente, mas consideram impossível materializar projetos importantes de infraestrutura, devido às latentes ameaças à segurança do país e à instabilidade da região.

O que outrora foi a Fenícia, cultura que originou o primeiro alfabeto articulado de 22 palavras, e de onde se expandiu o comércio, se fundaram colônias no Mediterrâneo e se albergaram tesouros culturais e arqueológicos maravilhosos, a pátria do grande poeta Gibran Khalil, é hoje um laboratório onde se mesclam os interesses das grandes potências e o interesse nacional libanês, que por sua vez está marcado pelas visões religiosas dos principais grupos que conformam o país. O futuro dos libaneses parece importar a poucos. Como me contou um importante empresário local, conhecedor da história do seu país, “os interesses econômicos não deixam o Líbano morrer, e tampouco o permitem viver”.

Notas:

1)
Foram registrados, naquele então, 875.252 habitantes, com os cristãos constituindo um 51%, enquanto os muçulmanos eram 49%. Isso determinou a distribuição dos mais altos cargos políticos do Estado no momento da sua independência. Assim, o presidente passou a ser um cristão, o primeiro-ministro foi um muçulmano sunita e o presidente do parlamento, um muçulmano xiita. Todas as projeções demográficas indicam que os muçulmanos hoje são cerca de 64%, contra 36% de cristãos, e essa é a principal razão pela qual não se realiza um novo censo, já que alteraria a distribuição dos cargos.

2) As Nações Unidas afirmam, em um informe de 2016, que há cerca de 504 mil palestinos refugiados no Líbano, e acrescenta que “os palestinos que vivem no país estão privados de certos direitos básicos. O Líbano excluiu os refugiados palestinos de 73 categorias de trabalho, incluindo profissões como medicina, direito e engenharia. Não é permitido a eles possuir propriedades, e inclusive precisam de uma licença especial para abandonar seus acampamentos de refugiados. Diferente do que acontece com outros estrangeiros no Líbano, a eles é negado o acesso ao sistema de atenção médica. O governo se negou a outorgar licenças de trabalho ou de posse de terras. Ademais, o número de restrições tem aumentado desde 1990”.

3) Tanto as Nações Unidas quanto Israel creditaram a responsabilidade aos serviços de inteligência deste último país, a partir das conclusões da chamada Comissão Kahan, que significou a destituição do ministro de defesa Ariel Sharon – que posteriormente, em 2001, se tornaria primeiro-ministro israelense.

4) Yuval Noah Harari, cujas citações neste texto fazem parte do seu livro “Sapiens: Uma breve História da humanidade”, de 2014.

5) Partido de Deus, criado no Líbano em 1982, como resposta à invasão israelense. Participou das eleições pela primeira vez em 1992, quando obteve 12 vagas no Parlamento. Em comparação com as últimas legislativas (2018), aumentou sua representação em 13 vagas, o que significa um 15,8% do total, que a tornam a maior força política do país.

Fernando Ayala é economista da Universidade de Zagreb e Mestre em Ciência Política da Universidade Católica do Chile. Ex-embaixador, atualmente é consultor para FAO em Roma sobre temas relacionados à cooperação Sul-Sul, além de colaborar com acadêmicos e parlamentares

*Publicado originalmente em inglês no Wall Street International Magazine | Traduzido para o português por Victor Farinelli a partir da versão em espanhol, publicada em Other News

A Fenícia de ontem, o Líbano de hoje




Conteúdo Relacionado