Pelo Mundo

A Guatemala é aqui

 

09/04/2021 11:17

(Reprodução/bit.ly/3uDnZYI)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3uDnZYI)

 

De tantos relatos em um mundo ainda imerso numa pandemia, uma do professor e literato italiano Antonio Scurati segue me chamando a atenção. Scurati é autor do romance M, o filho do século, que conta a história de Mussolini e da ascensão do fascismo. Mas o que interessa aqui é a sua pequena narrativa, que tem um título bem sugestivo: Como explicar à minha filha que vejo o fim de uma era? Desde Milão, ele escreveu nos meses inicias de 2020, o que vê da janela de seu apartamento. E comenta sobre uma quase certeza: o mundo tal como viveu até então, sua descendência seguramente não conhecerá na velhice. Creio que ele deve estar certo. Mesmo que as grandes transformações não sejam tão rápidas, as estruturas que moldaram as relações sociais de produção nos últimos quarenta anos, bem como o eixo da geopolítica mundial, estão mudando. O oriente asiático volta a ser o centro, recuperando a posição que havia perdido na história das civilizações apenas com a chegada da revolução industrial em meados do século XVIII – um pequeno hiato de 250 anos de primazia atlântica. Num linguajar poético, o autor descreve o defrontar-se de sua geração, já entrando nos sessenta anos, com a realidade.

Seus conterrâneos fizeram parte do pedaço mais abastado da humanidade, desfrutaram um período longo de paz e prosperidade na cidade mais evoluída, rica e brilhante da Itália, uma das mais desejadas do planeta, capital da moda, do design, do aperitivo, mas também do Covid-19 no hemisfério norte, isto no inverno passado. O ponto de inflexão/reflexão de sua explanação é o olhar/percepção do movimento de pessoas na pequena e pouco sofisticada loja de conveniência, visível desde sua janela, gerida com esmero por uma família de imigrantes do Sri Lanka. Um estabelecimento que destoa no bairro elegante recebendo fregueses inesperados. Clientes que foram provavelmente turistas compulsivos pelo mundo, mas cuja aprendizagem na vida contraditoriamente foi consumida via eventos mediáticos. Todos com celular de última criação e eventualmente uma casa na praia.

Mas eram homens e mulheres que chegaram totalmente despreparados ao seu compromisso com a história. Em um mundo do trabalho que mudou muito nos últimos 30 anos na Itália: 300 mil chineses em confecções na Lombardia e voos diários diretos entre Milão e Wuhan; milhares de indianos trabalhando na cadeia produtiva do leite, situando-se em Parmalat o maior templo sikh fora da Índia. E agora estavam seus conterrâneos ali atônitos na fila do pão, como obviamente nós do terceiro mundo. Mas, o nosso encontro com a história não se deu trazendo melhorias contínuas nas condições de vida nas últimas décadas. Ao menos, não para a imensa maioria da população. Faço parte de uma geração que em sua juventude admirou a vitória sandinista (1979) e, com ela, as esperanças do que foi a última grande utopia revolucionária latino-americana. Uma utopia que exacerbou as contradições das nossas sociedades tão desiguais e que arrastou a América Central, direta ou indiretamente, para a guerra civil na década de 1980. Quando a paz finalmente chegou à região no início dos anos 1990, se deu no contexto de um novo processo civilizador no hemisfério ocidental, ao que nenhum país escapou. Se o anunciado “fim da história” não ocorreu com a simbólica queda do muro de Berlim ou a debacle da União Soviética, tudo acabou em globalização e neoliberalismo, com todo seu custo adicional por estarmos na periferia do sistema. Gostaria nesse ensaio de tratar rapidamente deste percurso na Guatemala, pois o mesmo nos ajuda a refletir sobre o Brasil.

Em 6 de dezembro de 1982, na selva de Petén, ocorreu um dos tantos massacres contemporâneos contra as populações indígenas. Nesse dia, na aldeia de Dos Erres, chegaram os 58 kaibiles, os soldados das forças especiais treinados pelos Estados Unidos. Eles não encontraram os fuzis que acreditavam que a guerrilha havia ali escondido, tampouco sinais de propaganda comunista. Ao saírem, deixaram para trás mais de 200 cadáveres – a maioria mulheres e crianças. Em 9 de junho de 2020, finalmente os EUA aceitaram deportar Gilberto Jordán para a Guatemala – um dos participantes do episódio. Uma ordem de prisão contra ele já havia sido emitida em 2000 e outra em 2010.

O escritor Mauricio Echeverría nasceu na Cidade da Guatemala, em 1976, ano em que o território foi devastado por um terremoto. Com o sismo, também chegaram ao país a maioria das atuais igrejas neopentecostais, de origem norte-americana, no intuito de organizar uma parte da ajuda humanitária. Em junho de 2013, Echeverría publicava o conto Ramiro olvida, no blog Prosas bastardas. Um relato de uma vida compartilhada desde a infância por dois amigos. Ambos pertenciam a setores acomodados na capital. Ramiro foi para o Exército, enquanto o companheiro tornou-se médico – o narrador da história. Para este, das lembranças de quando ainda eram novos, sempre ficaram as chamadas misteriosas convocando Ramiro para algum lugar. Ali, Ramiro fazia o que tinha que fazer para acabar com os guerrilheiros e o narrador o admirava por isso. Os anos passaram, o país mudou e Ramiro entrou na política – não havendo mais as chamadas especiais. Já maduros, em uma oportunidade, Ramiro relatou as atrocidades cometidas. Achava que Ramiro necessitava um pouco de cal para tantas paredes sujas de sangue. Agora estão velhos: Ramiro tem alzheimer e esquece. Talvez uma sorte para não ter que reviver coisas que fizera no passado e que o amigo achava, agora, que não devessem ter sido praticadas.

Os acontecimentos em que se inserem Gilberto e Ramiro marcam a sociedade guatemalteca até os dias de hoje, com uma polarização que permanentemente aflora. Desde 1954, quando um golpe militar interrompeu as reformas civis que se estavam implementando, a opressão social secularmente acumulada contra a população indígena conheceu vários momentos. Com o surgimento do primeiro grupo guerrilheiro, em 1962, e a ocorrência de um novo golpe militar, em 1963, iniciava-se a longa etapa de um conflito militar interno, que alcançou seu auge durante o governo de fato do general Ríos Montt (1982-1983). As Forças Armadas passaram a ocupar um lugar hegemônico na vida política e social – e isto se expressou nas três últimas constituições do país (1956, 1965 e 1985), todas elas promovidas desde esta instituição. Assim, em 1986, quando os civis retornaram ao poder, isso não significou a perda de seu protagonismo nas décadas seguintes, com o Exército controlando até mesmo algumas esferas da economia do país.

A partir de 1992, ganhava enorme visibilidade o movimento indigenista guatemalteco, reivindicando justiça e todos seus direitos negados como povo. Uma categoria com implicações políticas, em um país majoritariamente maia. No início de 1993, retornavam os primeiros grupos de refugiados que estavam no México. Em 1996, ocorreu a assinatura dos Acordos de Paz, culminando as negociações que se davam entre governo e guerrilha de esquerda para terminar o conflito armado. Eram um conjunto de tratados negociados em vários momentos, com o objetivo de superar as desigualdades sociais e econômicas que dividiam historicamente a sociedade, e que deveriam ser colocados em plebiscito para serem incorporados na constituição. Os informes Guatemala: nunca más e Guatemala: memoria del silencio, auspiciados respectivamente pelo Episcopado da Guatemala e pela ONU, que apontavam a ocorrência de um genocídio, foram divulgados em 1998 e 1999.

A consulta popular sobre os Acordos de Paz foi feita ainda em 1999, e o “não” ganhou nas quatro questões colocadas a referendo. Ao não serem incorporadas ao ordenamento jurídico e sua aplicação ficar dependente dos permanentes embates políticos dos distintos governos, essas questões foram perdendo força. Era a vitória de uma Guatemala que não se via como indígena, integrada pelos mestiços ladinos e também pelas Forças Armadas, que souberam insuflar o receio de uma futura balcanização do país – vivia-se, então, a desintegração da antiga Iugoslávia. Ao longo do século XXI, a tese do conflito armado interno ainda se mantém intacta, sendo uma representação do passado. Entretanto, a percepção de que houve um genocídio foi cedendo terreno, na medida em que o discurso oficial da reconciliação o foi negando. Estes acontecimentos seguem dando as pautas de uma sociedade racista e dividida. Através de todos esses anos, no entanto, as organizações de direitos humanos seguiram demandando ao Estado pela lentidão de não levar ante a justiça os altos comandantes que ordenaram, planificaram e executaram genocídios no país maia.

O caso mais famoso foi o do general Ríos Montt. Tendo fundado um partido, a Frente Republicana Guatemalteca, esteve com representação parlamentar de 1996 a 2003 e de 2008 a 2012. Com isso, conseguiu temporariamente imunidades em um julgamento por genocídio perpetrado à população Ixil. Mas, em 2013, finalmente ocorreu a audiência, sendo condenado a 80 anos de prisão. Apenas alguns dias depois, a Corte Superior anulou a sentença, por problemas processuais, com a causa retornando a uma fase anterior. O veredito final ocorreu em setembro de 2018, mantendo a condenação de 2013 e reconhecendo ter havido genocídio. Porém, Ríos Montt havia morrido alguns meses antes, em abril, com 91 anos. A notícia despertou emoções que coincidem no pesar. De uns, pela decepção na demora na aplicação da justiça. De muitos outros, pela tristeza da perda física de uma liderança. A Guatemala segue enfrentada em uma disputa feroz pela memória e pelos usos políticos do passado. Um percurso muito diferente da história contemporânea do Brasil?

O combate às Comunidades Eclesiais de Base (CEB) – sementes de uma doutrinação igualitária que se disseminou amplamente na década de 1960 – pelas elites e Forças Armadas de toda América Latina, imbuídas das Doutrinas de Segurança Nacional, abriu uma brecha importante. O desmantelamento foi favorecido pelo próprio Vaticano, com a ascensão do regressista polonês João Paulo II, em 1978. A prioridade do Papa em restaurar a “grande disciplina” acabava com a primavera do Concílio Vaticano II, e se dirigia contra todos os vinculados à Teologia da Libertação, de bispos a leigos. O Papa se unia à cruzada conservadora da década de 1980, encabeçada pelos EUA e pela Inglaterra.

¿Qué dirá el Santo Padre que vive en Roma, que le están degollando a sus palomas? Esse era o refrão irônico de uma canção da cantora e compositora Violeta Parra, do LP Recordando a Chile, de 1965. Os Papas normalmente se calaram, ao menos publicamente, ante os graves acontecimentos do século XX. Mas não foi o caso de João Paulo II, dependendo de onde vinha o vento ideológico. Recém chegado em sua visita à Nicarágua, gritou em alto e bom som para a multidão, em Manágua, na missa campal de 04 de março de 1983: Silêncio! Mas omitiu qualquer crítica aos crimes atrozes cometidos pelos “contras” patrocinados pelos EUA e que tinham suas bases, principalmente, em Honduras. E repreendeu publicamente o sacerdote Ernesto Cardenal – na época, Ministro da Cultura do governo sandinista – como primeiro detalhe de uma visita polêmica e difícil. Em 1997, seu irmão Fernando Cardenal, então com 63 anos, também sacerdote e ex-ministro da Educação, teve que viajar a El Salvador a repetir um noviciado. Esta era a única forma de poder retornar ao seio da Igreja, a milenar instituição que não se deu conta de quem foram os seus melhores filhos.

Foi nessa América Central de terra arrasada que os pastores começavam a chegar em maior número, tornando-se uma força reacionária frente a um setor da Igreja Católica que havia se radicalizado na opção pelos pobres. Em 23 de agosto de 1992, o general Ríos Montt pronunciava um discurso em um evento da igreja neopentecostal El Verbo, da Guatemala, da qual era pastor. Ali deixava claro seu desprezo pelos indígenas maias e a rotunda negação de uma diversidade étnica. Ríos Montt já não vive, mas sua prédica de ódio assentou ainda mais antigas raízes. Em 6 de junho de 2020, Domingo Choc Che foi queimado vivo na comunidade de San Luis, Departamento de Petén. Ele era um ajilonel, especialista em medicina maia e trabalhava em projetos de investigação com a University College London e a University of Zurich. O fato aconteceu dentro de sua própria aldeia, sob a acusação de bruxaria, sendo executado por grupos de fanáticos cristãos ultraconservadores, que ganharam força com a presença mais recente de igrejas neopentecostais entre as próprias populações maias.

Por acaso um percurso muito diferente da história do Brasil do tempo presente, com seu próprio genocídio, fundamentalismo religioso, racismo, militarismo, negacionismo... e seus Ramiros? Mudam apenas seus principais protagonistas. Lá um general, aqui um ex-capitão expulso da própria corporação por mau comportamento, mas hoje funcional aos seus interesses. A Guatemala não é aqui?

Luiz Felipe Viel Moreira é professor Doutor em História da América - UEM

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