Pelo Mundo

A Venezuela a bico de pena: contornos nítidos do país

21/02/2004 00:00

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Créditos da foto: Reprodução

Pasteurizados e filtrados pelos satélites da grande imprensa, os ventos que sopram da Venezuela têm chegado a nós comumente reduzidos à brisa com vago odor de caos, imagens difusas de golpes, greves e enfrentamentos violentos e pedaços rasgados de discursos entusiasmados ou catastrofistas sobre um novo movimento revolucionário latino-americano, personificado pelo polêmico presidente Hugo Chávez. Foi este conjunto de imagens difusas que o jornalista e – detalhe importante – cartunista Gilberto Maringoni, autor do recém-lançado livro "A Venezuela que se Inventa" (Editora Fundação Perseu Abramo, www.fpabramo.org.br, 248 pgs., R$ 30), retrabalhou e transformou num quadro focado e cuidadosamente detalhado, apresentando ao público brasileiro uma Venezuela complexa e intrigante. Digna, no mínimo, de ser examinada mais de perto.

Antes de falar do livro, no entanto, gostaria justificar esta última observação. 

Caracas, 2 de fevereiro de 2004, 22h30. Recém-chegados à capital venezuelana – viemos ao país para cobrir o Fórum Social Panamazônico para a Agência Carta Maior -, estamos rumando de táxi para o restaurante onde jantaríamos com o assessor presidencial Maximilien Arvelaiz (citado e fotografado no livro). No banco dianteiro, ao lado do taxista, Maringoni dispara a pergunta que seria repetida tantas vezes mais a tantos outros motoristas de táxi na nossa estadia de oito dias na Venezuela: o que pensa do Chávez? A resposta, similar à de 99% dos demais taxistas, é enfática. "Chávez é o homem. Por ele e pela revolução bolivariana vamos às ruas e lutaremos até o fim." Algo parecido havia dito, horas antes, a pequena senhora de metro e meio e boina vermelha, uma das milhares de pessoas que lotavam os espaços diante da sede do governo em Miraflores, durante o discurso do presidente na comemoração de cinco anos de seu governo. Com um acréscimo: "estamos recuperando nossa dignidade". Dias depois, Chávez voltaria a falar para uma multidão embevecida em Ciudad Guayana, município onde ocorreria o Fórum, e novamente nos impressiona a veneração do povo aglomerado, onde garotas de 12 anos reagem com gritos e lágrimas como se estivessem diante de um astro de rock. Por fim, um dia antes da nossa partida, as palavras de um líder indígena calam fundo: "Chávez é o único homem em quem confiamos; por ele damos nossas vidas".

Que país é esse, quem é essa gente e quem é esse homem, Hugo Chávez, capaz de suscitar tanta devoção?

De forma cuidadosa e extremamente conscienciosa, Maringoni vai respondendo essas perguntas, no decorrer do livro, através de uma leitura pessoal (legitimada pelas várias visitas que fez à Venezuela e pelo estudo de ampla literatura sobre o país), de entrevistas com importantes analistas do presente e do passado venezuelano e com opositores e apoiadores do presidente. O livro não se detém em descrições simplistas dos projetos sociais do governo, que incluem de educação a mercados populares, e que parecem valer a Chávez o apoio esperançoso dos historicamente excluídos deste país. Procura desvelar, por meio da recuperação da história venezuelana, os elementos políticos, econômicos e sociais que propiciaram ou permitiram o surgimento do fenômeno Chávez, líder de um governo despartidarizado, militarizado, aparentemente oponente do neoliberalismo, mas baseado em um conceito vago autodenominado revolução bolivariana, traduzido no conjunto de medidas de forte cunho social adotadas por Chávez nos últimos anos.

Apresenta um país, um povo e um governo que dificulta comparações e definições - como a infinidade de “ismos” com que costumamos taxar processos e líderes políticos -, mas oferece, ao mesmo tempo, elementos interessantes para quem quer, por exemplo, traçar um paralelo com o Brasil e o governo Lula no chamado novo cenário da esquerda latino-americana.

Não obstante a seriedade jornalística com que Maringoni aborda a Venezuela e sua conjuntura histórica, um livro escrito por um cartunista tem um "bonus track" interessante. Há algo de contador de história nesta obra, amarrada por uma narrativa não-linear de acontecimentos presentes e passados, entremeados de descrições de cenas e personagens que deixam transparecer, além do olhar atento do desenhista acostumado a capturar almas no papel, algo raro neste tipo de tratado: é como se todo o trabalho do autor estivesse permeado de um profundo carinho pelo objeto em questão, um interesse profundo pela Venezuela e seu povo que deve contagiar o leitor mais sensível. Sem final feliz, sem final at all, porque trata de um milésimo de segundo da vida de uma nação, "A Venezuela que se Inventa" apresenta os elementos necessários para que possamos seguir acompanhando a epopéia deste país. E provavelmente torcer por ele.

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