Pelo Mundo

A Via Crucis da Europa I

 

10/09/2020 16:04

(Yann Schreiber/AFP)

Créditos da foto: (Yann Schreiber/AFP)

 
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Em editorial de 3 de maio do jornal francês Le Monde, analisou-se como a crise produzida pelo coronavírus transformou o ambiente geopolítico global. A publicação observa que os Estados Unidos perderam a liderança mundial e que a ordem internacional criada no final da Segunda Guerra Mundial “não se adapta mais à realidade do equilíbrio de poder do Século XXI”.

O jornal parisiense entende que este sistema já era frágil antes da pandemia, embora reconheça a opinião de quem acredita que era mesmo antes, ou seja, a partir do momento em que ocorreu o fim da Guerra Fria. Também considera que esses eventos, aos quais acrescenta o surgimento da China, “desequilibraram gradualmente” a ordem bipolar, dando lugar a uma multipolar.

Neste contexto, o editorial estabelece que a unidade da Europa não resistiu ao golpe infligido pela pandemia, uma vez que não foi capaz de dar uma resposta solidária aos membros mais afetados. Da mesma forma, o artigo deplora o “egoísmo” de alguns países que optaram, na prática, por restaurar as suas fronteiras, pondo em risco “dois pilares da União Europeia”: o espaço Schengen e o mercado único.

Finaliza dizendo que apesar de a Europa acreditar no multilateralismo, está sendo “abandonada pelos Estados Unidos e cobiçada pela China, enquanto se mantém fria com a Rússia”. Então, se o continente quer ter um papel de liderança no mundo pós-pandêmico, deve começar por restabelecer sua organização interna.

Três dias após a publicação deste editorial, realizou-se virtualmente a cúpula da União Europeia, em uma videoconferência centralizada em Zagreb, na Croácia, país que detém a presidência rotativa da aliança. Embora a questão central fosse a luta conjunta contra o coronavírus e as medidas a serem tomadas para a recuperação econômica do conglomerado, nenhuma resolução foi tomada, indicando a vontade dos 27 membros em ampliar seu quadro de sócios, ao qual há seis novos aspirantes, todos países do Balcãs.

Os esforços desesperados da Sérvia para concordar em ser incluída na organização regional europeia levaram o presidente desse país, Aleksandar Vu%u00Di%u007, a opiniões contraditórias, que foram desde a aceitação, em março deste ano, de que “a solidariedade europeia não existe”, até o comentário de que “apenas a China pode nos ajudar”, e a decisão, agora em setembro, sob a influência dos Estados Unidos, de fazer um acordo comercial com Kosovo, país que não reconhece – embora ambos tenham decidido instalar suas embaixadas em Jerusalém, violando uma resolução das Nações Unidas.

Talvez este o fato seja sintomático, mais do que qualquer outro, da perda de compasso e dos delírios da Europa nas questões internacionais, o que teve repercussões na redução do seu prestígio e na perda de posição e proeminência na cena global. A vaga identidade que a levou a abandonar a vocação europeia para assumir uma postura atlantista, que a subordina aos Estados Unidos (apesar dos óbvios retrocessos e conflitos que isso gera), pressagia um futuro complicado para a aliança que a reúne boa parte dos países do Velho Continente.

Em primeira instância, a preocupação imediata da União Europeia é tentar reparar os danos da crise “e preparar um futuro melhor para a próxima geração”, de acordo com a presidenta da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, ao apresentar, no Parlamento Europeu, as linhas principais da sua proposta de um fundo de recuperação em função da crise do coronavírus. Porém, para Juan Torres López, professor de Economia Aplicada da Universidade de Sevilha, “os próprios termos utilizados e a natureza das medidas adotadas indicam que o que se pode alcançar com este plano é algo muito diferente do que foi dito”.

Além das complicações internas e da ineficiência demonstrada no tratamento da crise pandêmica, a União Europeia enfrenta outros problemas que, como já foi analisado, se referem a definições de natureza identitária. Um deles é a decisão, ainda não estabelecida, para definir se é aliado ou subordinado aos Estados Unidos. Nesta área, a Alemanha, principal potência regional, que tem se caracterizado como a “locomotiva econômica” do bloco, mas enfrenta um cardápio variado de pressões dos Estados Unidos.

Por um lado, Trump ameaçou retirar 9,5 mil de seus 34 mil soldados presentes no país da Europa Central. Uma decisão unilateral de seu governo que não foi consultado com Angela Merkel. Em uma resposta morna e vergonhosa, o ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, comentou que “a decisão” não foi 100% consensual dentro do governo dos Estados Unidos, então “não é surpreendente” que a iniciativa não tenha sido acordada com Berlim. Quando o alto funcionário alemão foi questionado sobre a relação bilateral com seu “aliado” norte-americano, Maas se limitou a dizer que a relação entre os dois países era “complicada”.

Por sua vez, na véspera do dia em que a Alemanha assumiu a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, em 1º de julho, a chanceler Angela Merkel, surpreendentemente, assegurou que ainda não era chegado o momento da soberania estratégica europeia, porque ainda há “motivos de sobra”, como a China ou a Índia (cuidado, ele não mencionou a Rússia) para “continuar a apostar numa aliança de defesa transatlântica e num escudo de proteção nuclear comum”. Um primeiro olhar para esta afirmação reflete as dúvidas da principal dirigente europeia quanto à sua capacidade de defesa, e a justificativa da necessária subordinação aos Estados Unidos. Merkel deixou isso claro quando afirmou que o ambiente global atual exige que a Europa “contribua mais” para a causa comum da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), do que em tempos de Guerra Fria, quando os Estados Unidos e a União Soviética lutavam para cumprir o papel de serem os maiores potências mundiais. Considerando essa declaração, é mais do que curioso que o fato de não haver maior contribuição da Alemanha para a OTAN seja a causa apresentada por Trump para retirar os soldados americanos das bases militares naquele país.

Apesar disso, e adicionando uma nova vantagem ao jogo geopolítico global, Merkel foi forçada a reconhecer que, para desgosto de Trump, a China tem um papel relevante nas decisões políticas e econômicas do mundo. Por isso, a chanceler alemã deixou claro que Berlim continuará a colaborar com Pequim.

Mesmo na presidência rotativa alemã, o governo de Merkel e ela mesma estão trabalhando para realizar a primeira cúpula entre a União Europeia e a China no formato 27 1, pela primeira vez em 45 anos, apesar dos devidos adiamentos. O coronavírus e as tensões que surgiram entre o Ocidente e a China após os acontecimentos em Hong Kong também foram um fator. A Alemanha não pode esquecer, também para desgosto de Trump, que a China é o seu principal investidor externo.

É por isso que a Alemanha não tem tomado as mesmas medidas que os Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália em relação a Hong Kong, não adotando sanções contra a China e tentando manter uma neutralidade que não gere problemas com Pequim, onde também veem a presidência alemã como uma possibilidade de aumentar os vínculos.

Aqui está uma das expressões da via crucis a que me refiro. Embora a Europa saiba que as negociações com a China não serão fáceis, considerando que deve tomar uma decisão antagônica entre a necessidade de ter o mercado chinês, o comércio crescente entre as duas partes e sobretudo o investimento que flui em abundância da potência asiática, por um lado, enquanto, por outro, ainda luta contra a necessidade de contar com os Estados Unidos para a proteger de um inimigo que eles próprios construíram à custa da vontade dos norte-americanos, uma vez que não há ameaça crível para a Europa, seja por parte da Rússia ou do Irã.

Trata-se de definir até que ponto vai a autonomia real da União Europeia em relação aos Estados Unidos, o que parecia evidente no tempo de Charles de Gaulle, hoje já não é mais. A Europa busca desesperadamente encontrar uma abordagem equilibrada e pragmática, como observou o vice-diretor do Instituto da Europa da Academia Russa de Ciências, Vladislav Belov.

A Europa parece estar tentando resolver a questão da sua relação com a China, e o fará por razões econômicas inevitáveis, e pelo pragmatismo forçado, mas a agenda internacional se alimenta de muitos elementos em que a mesma condição não se manifesta, por não existirem requisitos econômicos obrigatórios. Esse mesmo pragmatismo a leva a não se envergonhar no momento de prostrar-se diante do mestre imperial que a assedia e humilha.

Continuará na próxima semana…

*Publicado originalmente em 'Últimas Notícias' | Tradução de Victor Farinelli



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