Pelo Mundo

A Via Crucis da Europa II

 

18/09/2020 11:07

Créditos da foto: "A Europa é obrigada a enfrentar os extremos que rompem os próprios esquemas organizacionais da sua aliança" (Yves Herman/REUTERS/X00380)

 
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Falsamente presa entre a necessidade de sua autonomia ou de sua subordinação aos Estados Unidos, na realidade a Europa está dividida entre o surgimento que produziu o abandono do Estado de bem-estar e o grande esforço para sustentar um importante investimento social durante a maior parte do Século XX, como a necessidade de enfrentar a União Soviética durante a Guerra Fria.

O desaparecimento do campo socialista lhe permitiu dar à economia a verdadeira orientação desejada pelas elites. Assim, foram impostos modelos neoliberais que excluíam as grandes maiorias. É claro que, nessas condições, “aproximar-se” dos Estados Unidos e viver sob seu abrigo era a opção natural no novo cenário global.

Em consonância com esta situação, se impôs, também, a supremacia racista que persegue as minorias e declara indesejável os milhões de migrantes que abandonaram os seus países, devido às guerras coloniais e imperiais que a própria Europa desencadeou e/ou promoveu. Por isso ou europeus sentem, com horror, que em alguns anos mais o deles será um continente com maioria de negros, árabes e cidadãos do Sul da Ásia, e que sua religião predominante será a muçulmana.

Neste contexto, a Europa é obrigada a enfrentar os extremos que rompem os próprios esquemas organizacionais da sua aliança. O caso mais colossal e equivocado é a Polônia, um país em que um setor importante da população tem sentimentos antieuropeus. A reeleição do presidente Andrzej Duda, em julho, fortaleceu a corrente neofascista que também governa na Hungria. No entanto, o peso político da Polônia é muito maior, como o quinto país mais populoso da União Europeia, exercendo uma poderosa influência numa aliança antirrussa, que arrasta a Ucrânia e os países bálticos para um cinturão financiado pela União Europeia e pela OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Este grupo de países com forte presença da religião católica, composto por Polônia, Lituânia e Letônia, constitui a nova ponta de lança da organização atlântica contra a Rússia. É claro que os Estados Unidos alimentam o conflito, criando um novo dilema para a Europa, que não é capaz de resolver.

A dependência da Europa de energia que pode ser fornecida com segurança e muito mais barata pela Rússia enfrenta resistência na forma de pressão, ameaças e chantagem dos Estados Unidos. Em 16 de julho, o chanceler alemão Heiko Maas afirmou que seu país rejeitou as ameaças de sanções feitas pelo secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, relacionadas à construção do gasoduto Nord Stream 2. Maas afirmou que: “com seus anúncios de medidas e possíveis sanções contra empresas europeias, o governo dos Estados Unidos ignora o direito e a soberania da Europa de decidir por si onde e como receber nossa energia”, acrescentando que: “a política energética europeia é implementada na Europa, não em Washington”. Também anunciou sua rejeição às sanções extraterritoriais.

Esta afirmação é muito curiosa se observarmos que é a mesma que a União Europeia faz com outros países. Não me parece muito crível quando se pretende sustentar que um ataque à soberania europeia seja inválido quando eles também aplicam essas medidas em outras regiões do mundo – e o fazem, sobretudo, em cumprimento de decisões dos Estados Unidos, que não lhes dizem respeito.

Como é bem sabido, o governo dos Estados Unidos ameaçou os empreiteiros de gasodutos na Alemanha e em outros países europeus com “consequências de longo alcance para seu futuro envolvimento no projeto”. Além disso, no início de agosto, três senadores norte-americanos enviaram carta ao prefeito da cidade alemã de Sassnitz, onde fica o porto de Mukran, na ilha de Rügen, último trecho do gasoduto que levará o gás russo à Alemanha, exigindo a paralisação das obras e ameaçando que a cidade poderia estar sujeita a sanções que levariam à “ruína financeira”.

Segundo o proeminente jornalista brasileiro Pepe Escobar, o que estaria em segundo plano é o interesse de “uma grande operadora global de energia que abordou a Rússia com uma oferta de desviar para a China nada menos que 7 milhões de barris de petróleo por dia, e também gás natural. Aconteça o que acontecer, a proposta surpreendente ainda está na mesa de Shmal Gannadiy, um importante conselheiro do presidente Vladimir Putin”.

Esta proposta – caso se concretize – daria à China a satisfação de todas as suas necessidades energéticas provenientes da Rússia. E para este país, significaria contornar as possíveis sanções alemãs, alterando as suas exportações de petróleo para a China, que do ponto de vista russo é mais avançada em tecnologia de consumo do que a Alemanha.

Essa situação mudaria no caso de execução do Nord Stream 2. Nesse sentido, analistas de inteligência contratados por empresários alemães do setor avaliaram que se a Alemanha perdesse sua fonte russa de energia, e em caso de conflito de guerra em que o Estreito de Ormuz seja fechado pelo Irã – como resultado de um ataque norte-americano, por exemplo –, “a economia alemã simplesmente entraria em colapso”, como aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial.

Nesse quadro de coerção à Europa, e em particular à Alemanha, devido à necessidade dos Estados Unidos de redistribuírem suas tropas e aproximá-las da fronteira com a Rússia, Pompeo assinou um novo acordo com a Polônia, para localizar tropas estadunidenses oriundas da Alemanha. Embora o argumento utilizado tenha sido a insatisfação de Trump com a política de defesa de Berlim, na realidade, com essa medida, os Estados Unidos alcançam dois objetivos: por um lado, fortalecer o deslocamento de tropas na frente nordeste da Europa, composta essencialmente por países antirrussos, e, por outro, pressionar a Alemanha diante da fragilidade e submissão de suas autoridades, que não vão além de uma retórica de soberania.

O acordo inicial trará 5,5 mil soldados da Alemanha para a Polônia, para se juntar aos 4,5 mil que já estão no país, embora o ministro da Defesa polonês, Mariusz Blaszczak, tenha garantido que o contingente “pode %u20B%u20Baumentar rapidamente para 20 mil, se uma ameaça assim o justificar”.

Nessa lógica, podemos entender a nova revolução colorida que o Ocidente está tentando impor na Bielorrússia, país cuja captura fecharia a grande frente oriental antirrussa da OTAN. A recente aglomeração de forças da aliança atlântica na fronteira da Polônia e da Lituânia com a Bielorrússia é uma expressão do grande movimento estratégico que se ensaia, como expressão geopolítica dos interesses dos Estados Unidos, em que a Europa é dominada pela fraqueza dos seus dirigentes. Assim, o continente mostra que prefere se curvar à lógica imperial norte-americana do que assumir sua própria identidade.

Para manter as aparências, Berlim criticou duramente as eleições presidenciais na Bielorrússia. O porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, afirmou que as eleições não atenderam aos padrões democráticos mínimos, e lamentou que as autoridades bielorrussas não tenham aceitado o pedido da União Europeia de permitir que observadores da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa).

Curiosamente, a União Europeia e a Alemanha não disseram o mesmo sobre as horrendas fraudes eleitorais em Honduras e na Colômbia, ou na do México em 2006, e endossaram os golpes de Estado na Bolívia, Paraguai e Brasil. Sem falar na sua sociedade com as monarquias medievais da Ásia Ocidental, onde não há eleições nem partidos políticos, e muito menos parlamento, mas se pode viver tranquilamente sob o olhar cúmplice da velha Europa: uma política de dois pesos e duas medidas que a torna pouco crível como entidade neutra. Muito menos como árbitro eleitoral.

Com isso, protegem essas monarquias que, com o aval ocidental, desencadeiam furiosas guerras coloniais e servem de refúgio para monarcas europeus corruptos.

A Europa acredita que pode continuar a viver das glórias do passado, quando hoje nada mais é do que um apêndice da política externa dos Estados Unidos. Sabe-se também que a União Europeia não é homogênea, e que, ao final da Guerra Fria, a socialdemocracia de direita a levou a constituir um bloco na política externa com a direita assumida, e com setores fascistas e neonazistas presentes no parlamentos, à imagem e semelhança do que acontece nos Estados Unidos, onde o bipartidarismo joga a democracia na política interna enquanto organiza o intervencionismo e a agressão no resto do mundo. Aparentemente, a Europa não quer ser menos. Isso sem falar na manutenção de sua vocação colonial na África e na Ásia Ocidental, superando inclusive os Estados Unidos nesse espírito.

Na análise regional do desafio para a hegemonia interna não resolvida na União Europeia, vale a pena recriar um artigo da analista andaluza Carmen Parejo, diretora da revista La Comuna, com o título sugestivo “A União Europeia deve morrer para salvar a Europa”. Ela conta que durante a crise da covid-19, as duas principais potências europeias não pareciam apresentar uma visão única de como enfrentar a pandemia: enquanto a França se aliava à Itália e à Espanha, a Alemanha se aproximava da Holanda. Este “conflito” – que foi vendido como um confronto ideológico, em que a França exibia um ideal de solidariedade enquanto a Alemanha se apresentava como defensora da harmonia econômica – na verdade foi uma expressão da diferença de opiniões sobre como manter uma estrutura para continuar tirando proveito disso.

Parejo avalia que, quando a União Europeia foi criada, os dois países já tinham divergências de opinião, principalmente no que se refere à utilização e gestão da moeda única. Desse confronto, do qual a Alemanha saiu vitoriosa, a França não ficou “mal”, ao atingir seu objetivo final de criar uma moeda diferente do dólar, evitando a imposição do marco alemão. Parejo assegura que: “em qualquer caso, nenhuma das propostas tem nada a ver com a Europa dos povos ou da solidariedade”.

No plano da reestruturação global, Pepe Escobar garante que um grupo de pressão “nos escalões mais altos do governo russo” visa consolidar uma aliança eurasiana sobre um eixo formado por Pequim, Moscou e Berlim, que poderia ser concretizado uma vez que Merkel deixe o poder, no próximo ano. Até agora, este evento está travado pela possibilidade de perda do mercado norte-americano de veículos alemães, mas mesmo essa situação está mudando: por exemplo, 40% dos carros vendidos pela Volkswagen em 2018 foram para o mercado chinês. Também se avalia que 60% das exportações alemãs vão para outros países da União Europeia.

Segundo o analista brasileiro, também é possível um tratado entre Alemanha e Rússia que levasse Pequim a aderir posteriormente. Hipótese pela qual a iniciativa da Nova Rota da Seda poderia ser implementada em todo o espaço eurasiano, pois seria inquestionável que, depois da Alemanha, França e Itália também ingressarão. Por outro lado, se considerarmos que o acordo de intercâmbio multidimensional sino-russo já está em andamento, o “elo que faltava” nesta grande aliança é o acordo Berlim-Moscou.

Esta seria a maior de todas as Via Crucis da Europa, diante da qual tremem os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Pode ser consumado? O eixo da geopolítica global mudará?

Escobar lembra que em 1360 a peste bubônica (ou peste negra) estava presente em todos os cantos da Europa e da Ásia, do Atlântico ao Pacífico, do Mediterrâneo ao Báltico, matando mais de 100 milhões de pessoas, que representavam cerca de 60% da população europeia. Tal fato acabou atrasando o Renascimento em 100 anos.

Sem querer comparar a covid-19 com a da peste negra, ele deixa a pergunta: “que Renascimento esta pandemia poderia estar atrasando?”. E ele mesmo responde, afirmando que poderia realmente estar surgindo um renascimento da Eurásia.

É a Europa que deve decidir sobre o seu futuro, aproximá-lo com sucesso, ou afundar ao lado dos Estados Unidos, que implode lentamente em meio à recente pandemia e a uma crise econômica que, embora se tenha tentado esconder, já transcorre sem trégua há 40 anos.

*Publicado originalmente em 'Últimas Notícias' | Tradução de Victor Farinelli



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