Pelo Mundo

A bronca do Financial Times

31/10/2007 00:00

O anúncio na terça-feira, dia 30 de outubro, de que o Brasil sediará a Copa do Mundo de 2014 não surpreendeu ninguém do ramo, de torcedores a comentaristas e políticos. Também não houve surpresas quanto a reações de dúvidas na imprensa européia quanto à capacidade brasileira de sediar o evento, com base no argumento de que o Brasil enfrenta ;problemas de infra-estrutura (transporte e estádios), de segurança, e de corrupção (como se tudo isso fosse monopólio nosso). Também não surpreende o ceticismo que se manifesta em alguma imprensa brasileira, sempre baseado na idéia de que somos mais ufanistas do que nosso pobre país permite. Como também não surpreendem as reações eufóricas de políticos, por exemplo. Vai ver que alguns de nós somos mesmo mais eufóricos do que devíamos, assim como alguns somos mais auto-depreciativos (não depressivos) do que deviam.

É claro que apesar da CBF e seus problemas, e dos inegáveis problemas do Brasil, a decisão da FIFA é uma vitória para o país, e uma oportunidade de ouro para se apressarem mudanças (para melhor) que estão em curso nele, em todas as áreas. Com exceção, é certo, do transporte aéreo cuja crise brasileira segue tendência mundial (repito, mundial) de insolvência no setor, pelos motivos os mais variados.

Na Alemanha houve reações moderadamente críticas por parte pelo menos de duas publicações, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, de Frankfurt, e Focus, de Munique, matriz estética e estilística da “nossa” Época. Também o Neue Zürcher Zeitung, de Zurique, seguiu esse padrão, observando as dificuldades que o país deve superar para organizar adequadamente a Copa.

Essas manifestações foram compensadas pelas reações entusiastas de Franz Beckenbauer, aqui ainda apelidado de o Kaiser do futebol, membro do Comitê da Fifa, e Michel Platini, ex-seleção francesa, hoje presidente da União Européia de Futebol, apontando o Brasil como um país ideal para o evento.

Mas o tom ficou mesmo com o Financial Times, de Londres, um dos “formadores da opinião” conservadora na Europa e no mundo. Em artigo bastante agressivo, publicado antes do anúncio confirmando a esperada decisão da FIFA, o jornal londrino simplesmente decretava que o Brasil não tem condições de realizar o evento pelos motivos acima referidos. Ao final deixava a ressalva de que o país teria de realizar a ciclópica e münchausica tarefa de se erguer pelos próprios cabelos para sair do espetáculo de ineficiência, insegurança e outras negações com que brindamos o mundo.

Como nota destoante do azedume, ele reproduzia observação de Juca Kfouri, segundo a qual, se a África do Sul foi escolhida para 2010, porque o Brasil não poderia sê-lo para 2014?

A bem da verdade, essa é a pergunta. Se na África do Sul pode, porque no Brasil não pode? A fúria do Financial Times se dá numa moldura complicada: a Europa, que disputa a hegemonia futebolística com a América Latina, ficará desprovida da competição – e dos bilhões, em qualquer moeda, que ela traz, durante muitos anos. São os quatro entre 2006 e 2010, mais os quatro entre 2010 e 2014, mais o tempo que se levará para determinar os investimentos para a de 2018, quando provavelmente voltará ao continente europeu.

Na África do Sul, a Copa terá hegemonia financeira de grupos europeus e norte-americanos, a começar pelo farto transporte aéreo necessário (além de enventualmente uma presença asiática mais intensa). Aliás, o que fará a Chins, país agora em investimento contínuo no continente africano?

Já no Brasil não será assim. Vai haver muita repartição com grupos brasileiros, de marcas de cerveja à Petrobrás. That’s the question, diria um certo príncipe dinamarquês nascido na Inglaterra, mais precisamente em Stratford-on-Avon, nas mãos parteiras de um certo William bom de bola no palco.

Tem razão, portanto, a fúria que se desencadeou, aqui e ali em se atacar o Brasil. Nelson Rodrigues tem um livro de título genial, reunindo suas crônicas sobre futebol: “À sombra das chuteiras imortais”. Pois é. À sombra delas, gravitam os interesses dos mortais, ávidos de financiamentos e de outras benesses e bons negócios.

Sem falar que, se conseguirmos seguir no masculino o exemplo de hoje do futebol feminino, de garra, dedicação e disciplina, periga o Brasil ganhar as duas copas, a da África e a da América. A não ser que o Uruguai... mas isto é outra história.

PS – Estou devendo aos internautas uma explicação sobre por que, de repente, estas “Cartas de Berlim”. Aguardem, em breve.


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