Pelo Mundo

A conexão alemã do 11 de Setembro

08/09/2011 00:00

Flávio Aguiar

Créditos da foto: Flávio Aguiar
Eles eram todos jovens, estudavam na maioria, e alguns tinham bolsas de estudo. Eram 11, e seu líder era o egípcio Mohammed Atta – o piloto que no dia 11 de setembro de 2011 jogou o avião que sequestrara com mais alguns companheiros contra a Torre Norte do World Trade Center. Eles formavam o que veio a ser conhecido como “A célula de Hamburgo”, cujos membros foram acusados de “terrorismo islâmico”, embora dois fossem inocentados.

A maior parte das informações que estão disponíveis sobre os membros desta “célula” vem do serviço de inteligência alemão, ou do norte-americano, e muitas delas, neste último caso, foram obtidas sob tortura na prisão de Guantânamo ou em outros locais do mundo (não há indícios nem provas da participação do serviço secreto alemão nessas operações da CIA, mas há indícios documentados de participação pelo menos do M16, o serviço secreto britânico).

Essa chamada “célula de Hamburgo” se estabeleceu nessa cidade do norte da Alemanha de 1998 a 1999. Outro de seus membros, Marwan Al Shehhi, foi o piloto do vôo 175, que explodiu de encontro à Torre Sul, alguns minutos depois da primeira explosão. Um outro piloto, Ziad Jarrah, também é citado como membro da “célula”, e seu avião, o do vôo 93, foi o que caiu na Pensilvânia, a caminho de Washington.

Há diferentes versões sobre essa queda: a oficial é a de que houve uma revolta dos passageiros, diante das notícias sobre o destino dos outros aviões (inclusive o que fora jogado contra o Pentágono), que eles receberam por celulares, e no tumulto o avião caiu. Há a versão também de que diante da possibilidade de que os passageiros tomassem o controle da aeronave, Jarrah a jogou contra o solo. E há ainda a versão, oficialmente negada, de que ele foi derrubado pela Força Aérea.

Dos outros membros da “célula”, um está condenado a 15 anos na Alemanha, um na Síria, um está preso em Guantânamo, junto com Khalid Sheikh Mohammed, acusado de ser o “pai intelectual” do ataque. Um é dado como morto no Paquistão, outro (Zakariya Essebar), que viajou ao Afeganistão para comunicar a Osama Bin laden o dia do ataque, está desaparecido, assim como Mamoun Darkazani. Finalmente Sahid Bahaji, hoje com 36 anos (26 em 2001), foi recentemente avistado no Paquistão, ainda depois da morte de Osama Bin Laden.

O papel deste no ataque teria sido, na verdade, o de autorizá-lo quando proposto por Khalid, que seguidamente afirma (e não há por que não acreditar) ter sido torturado naquela prisão infame. Além disso, teria escolhido os pilotos do plano, por terem desenvoltura no inglês e familiaridade com a cultura ocidental. Esse foi um dos problemas de Ramzi Binalshibh, que está preso em Guantânamo: por dificuldades com a língua, não foi bem no treinamento para pilotagem, e foi substituído. Atta, por sua vez, fez curso de piloto na Flórida e treinou depois do Afeganistão.

A descoberta posterior que alguns dos autores do atentado haviam se encontrado na Alemanha e dali partido para a execução do plano criou uma efervescência não só no serviço secreto e no governo alemães, mas na Europa inteira. Em parte, analistas apontam essa preocupação, que virou obsessão, pelas falhas que levaram ao ataque terrorista, dessa vez neonazista, que vitimou quase uma centena de jovens na Noruega.

Preocupados quase exclusivamente com o terrorismo islâmico, os serviços secretos se descuidaram de outras possibilidades. Agora mesmo, nesta quinta-feira (8) em que redijo esse artigo, está na mídia a notícia de que dois jovens de ascendência árabe, um de 24 e outro de 28 anos, foram detidos em Berlim suspeitos de planejar algum atentado terrorista.

O motivo da ação policial foi a suspeita deflagrada pela compra, nos últimos tempos, de produtos químicos que tanto podem ser usados como fertilizantes quanto para o preparo de explosivos. A mesma compra desses materiais ocorreu durante meses com o assassino norueguês (que tinha um sítio como disfarce); só que, no seu caso, apesar de seus notórios antecedentes neonazistas e de apologia da violência, inclusive na internet, ninguém prestou a devida atenção.

Na Alemanha, de todo modo, onde tem havido detenção regular de suspeitos de “terrorismo islâmico” (havendo inclusive a menção repetida a uma outra “célula”, dessa vez sediada em Düsseldorf), houve, desde 2001, apenas um caso concreto desse tipo de ataque. Foi o assassinato de dois militares norte-americanos no Aeroporto Internacional de Frankfurt, pelo jovem Arid U. (na Alemanha é proibida a divulgação do nome completo de suspeitos até seu julgamento), de 21 anos, em março de 2011, quando ele atirou contra um ônibus da Otan.

Quanto ao outro 11 de setembro, o da queda de Salvador Allende, a situação também envolveu, historicamente, controvérsias acirradas. Diga-se, antes de mais nada, que o ex-presidente chileno é devidamente venerado no país e em Berlim, em particular. É nome de rua, e objeto de várias manifestações favoráveis com freqüência, inclusive no aniversário de sua morte e do golpe que jogou o Chile no pior momento de sua história.

Mas há alguns anos um professor de filosofia e história do Instituto Latino-Americano de Berlim publicou um livro acusando Allende de ser anti-semita e partidário da eutanásia, com base em afirmações de sua dissertação de mestrado. Esse professor, Victor Farias, se exilou na Alemanha em conseqüência do golpe de 1973. Depois, publicou alguns livros com temas polêmicos, como a vinculação do filósofo Martin Heidegger ao nazismo, ou um suposto ocultamento por parte de Jorge Luis Borges, o escritor argentino sabidamente com opiniões políticas de direita, de alguns textos que escrevera.

O caso teve repercussão, embora mesmo na mídia alemã se lembrasse de que na época (ainda antes da Segunda Guerra Mundial) tais crenças – eutanásia no caso de portadores de deficiências mentais, ou mesmo o anti-semitismo – eram muito mais universais do que hoje se admite, e que, mesmo que isso constasse em algumas afirmações do ex-presidente, hoje mártir da democracia chilena, de sua juventude, nada autorizaria pensar que ele tivesse continuado pensando dessa maneira.

Partidários de Allende acusaram Farias de “manipulação de frases” e a família se recusou a comentar a acusação, que considerou “patética”. Farias sumiu durante algum tempo e recentemente reapareceu no Chile, dando aulas numa universidade particular. Suas acusações polêmicas caíram no esquecimento, a não ser, talvez, por parte de fanáticos de direita. Felizmente.



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