Pelo Mundo

A crise da dívida nos EUA

13/08/2011 00:00

Mark Weisbrot (*)

Já que a “crise da dívida” estadunidense se converteu em uma grande notícia internacional há algumas semanas, cabe esclarecer o que é real e o que não é. Em primeiro lugar, o governo dos EUA não tem uma “crise da dívida”. O governo dos EUA paga juros de apenas 1,4% do PIB por sua dívida pública. Isso não é muito em qualquer comparação histórica ou internacional. Atualmente, o déficit anual, que é relativamente grande (9,3% do PIB), é principalmente o resultado da recessão e da débil recuperação da economia.

As projeções do déficit no longo prazo se orientam pelos custos da atenção médica no setor privado. Estes custos têm efeitos secundários aos gastos públicos, porque o governo dos EUA paga quase a metade do gasto total de saúde, a uma taxa duas vezes maior que a de outros países desenvolvidos. E esse valor vai aumentando rapidamente.

Nunca houve, de fato, nenhuma possibilidade de que os EUA deixassem de pagar sua dívida. A suposta “crise” foi fabricada desde o início, com os republicanos na Câmara dos Representantes utilizando um detalhe técnico para obter cortes impopulares que não poderiam conseguir nas urnas. A estratégia funcionou: realizaram um acordo que se compromete a grandes cortes sem nenhum aumento nos impostos para os ricos ou para os super ricos dos EUA, que aumentaram consideravelmente sua parcela de receita nacional durante as últimas três décadas.

A direita ganhou porque o presidente Obama decidiu colaborar com eles, tratando de aproveitar a “crise” fabricada também para implementar os cortes que ofenderam e desagradaram as pessoas que votaram nele. É certo que ele também queria aumentar os impostos para os ricos, mas ao aceitar a legitimidade da extorsão praticada pelos republicanos, ele perdeu isso também.

O dano mais grave desta “arma de distração de massa” – e a capitulação do presidente Obama a ela – é que o debate político nos EUA foi fortemente alterado. A falsa “crise da dívida” é considerada como o principal problema, e de modo ainda mais absurdo, como uma das causas da debilidade da economia. A economia dos EUA só cresceu no primeiro semestre deste ano, e há cerca de 25 milhões de pessoas, ou desempregadas ou trabalhando precariamente em tempo parcial, ou que simplesmente abandonaram a força de trabalho. Passamos por mais de um terço da “década perdida”, e a mudança no debate político na direção da redução do déficit aumentará a probabilidade de experimentarmos (a perda de) toda a década.

Se o presidente Obama perder ambas as Câmaras do Congresso e/ou a presidência nas próximas eleições, isso será resultado de uma economia fraca e de alto desemprego, e porque deixou seus oponentes não apenas sabotassem a economia – algo que fizeram com muito gosto -, mas também porque deixou que eles redefinissem o debate econômico para que, no futuro, se coloque a culpa no presidente e no seu partido por essa debacle.

Assim, na próxima vez que alguém se queixar de que a maior parte da América do Sul é governada por presidentes populistas de esquerda que lutam demasiadamente contra a elite de seus países, deve se lembrar que há piores classes de liderança: a liderança que comete suicídio político pelo bem do “bipartidarismo”.

(*) Co-diretor do Center for Economic and Policy Research, em Washington.

Tradução: Katarina Peixoto


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