Pelo Mundo

A crise tripla do capitalismo

Após a crise financeira de 2008, aprendemos, pela maneira mais difícil, o que acontece quando os governos inundam, de forma irrestrita, a economia com liquidez, em vez de estabelecer as bases para uma recuperação sustentável e inclusiva. Agora que uma crise ainda mais grave está em andamento, não devemos repetir o mesmo erro.

30/03/2020 16:59

(Erin Schaff/Pool/Getty Images)

Créditos da foto: (Erin Schaff/Pool/Getty Images)

 
LONDRES - O capitalismo está enfrentando pelo menos três grandes crises. Uma crise de saúde induzida por uma pandemia, rapidamente, desencadeou uma crise econômica com consequências ainda desconhecidas para a estabilidade financeira, e tudo isso está ocorrendo no contexto de uma crise climática que não pode ser tratada pelo padrão usual dos negócios. Até apenas dois meses atrás, a mídia estava cheia de imagens assustadoras de bombeiros sobrecarregados, e não de prestadores de serviços de saúde sobrecarregados.

Essa tripla crise revelou vários problemas com a forma como fazemos o capitalismo, os quais devem ser resolvidos ao mesmo tempo em que lidamos com a emergência de saúde imediata. Caso contrário, estaremos simplesmente resolvendo problemas em um lugar e criando novos em outro lugar. Foi o que aconteceu com a crise financeira de 2008. Os formuladores de políticas inundaram o mundo com liquidez sem direcioná-la para boas oportunidades de investimento. Como resultado, o dinheiro acabou em um setor financeiro que era (e continua sendo) inadequado para seu propósito.

A crise da COVID-19 está expondo ainda mais falhas em nossas estruturas econômicas, principalmente a crescente precariedade do trabalho, devido ao aumento da economia de trabalho temporário e a uma deterioração de décadas do poder de barganha dos trabalhadores. O trabalho remoto simplesmente não é uma opção para a maioria dos trabalhadores e, embora os governos estejam prestando alguma assistência aos trabalhadores com contratos regulares, os trabalhadores por conta própria podem ficar completamente desamparados.

Pior, agora os governos estão concedendo empréstimos a empresas em um momento em que a dívida privada já é historicamente alta. Nos Estados Unidos, a dívida total das famílias pouco antes da crise atual era de US$ 14,15 trilhões, o que é US$ 1,5 trilhão a mais do que em 2008 (em termos nominais). E para não esquecermos, foi a alta dívida privada que causou a crise financeira global.

Infelizmente, na última década, muitos países buscaram austeridade, como se a dívida pública fosse o problema. O resultado foi a corrosão das instituições do setor público de que precisamos para superar crises como a pandemia de coronavírus. Desde 2015, o Reino Unido cortou os orçamentos de saúde pública em £ 1 bilhão (US$ 1,2 bilhão), aumentando o ônus para os médicos em treinamento (muitos dos quais saíram completamente do Serviço Nacional de Saúde) e reduzindo os investimentos a longo prazo necessários para garantir que os pacientes sejam tratados em instalações seguras, atualizadas e com equipe completa. E nos EUA - que nunca tiveram um sistema de saúde pública adequadamente financiado - o governo Trump tem tentado persistentemente cortar fundos e capacidade para os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, entre outras instituições críticas.

Além desses ferimentos autoinfligidos, um setor de negócios excessivamente "financeirizado" tem desviado valor para fora da economia, recompensando os acionistas por meio de esquemas de recompra de ações, em vez de sustentar o crescimento de longo prazo investindo em pesquisa e desenvolvimento, salários, e treinamento de trabalhadores. Como resultado, as famílias foram exauridas de suas reservas financeiras, dificultando o acesso a bens básicos como moradia e educação.

A má notícia é que a crise do COVID-19 está exacerbando todos esses problemas. A boa notícia é que podemos usar o estado atual de emergência para começar a construir uma economia mais inclusiva e sustentável. A questão não é atrasar ou bloquear o apoio do governo, mas estruturá-lo adequadamente. Devemos evitar os erros da era pós-2008, quando os resgates permitiram às empresas obter lucros ainda mais altos quando a crise terminou, mas falharam em estabelecer as bases para uma recuperação robusta e inclusiva.

Desta vez, as medidas de resgate devem, certamente, vir com condições atreladas. Agora que o estado voltou a desempenhar um papel de liderança, ele deve se colocar como o herói, e não como um insensato ingênuo. Isso significa oferecer soluções imediatas, mas projetá-las de maneira a servir o interesse público a longo prazo.

Por exemplo, condicionalidades podem ser postas em prática para o apoio do governo às empresas. Deve ser demandado, às empresas que recebem resgates, que retenham trabalhadores e garantam que, após o término da crise, invistam em treinamento e melhores condições de trabalho. Melhor ainda, como na Dinamarca, o governo deve apoiar as empresas para continuarem pagando salários, mesmo quando os trabalhadores não estão trabalhando - ajudando simultaneamente as famílias a manter sua renda, impedindo a propagação do vírus e facilitando a retomada da produção.

quando a crise acabar.

Além disso, os resgates devem ser projetados de modo a orientar empresas maiores a recompensar a criação de valor em vez da extração de valor, evitando recompras de ações e incentivando o investimento em crescimento sustentável e uma pegada de carbono reduzida. Tendo declarado no ano passado que adotará um modelo de valor para todas as partes interessadas, esta é a chance da Rodada de Negócios (Business Roundtable ) de dar sustentação a suas palavras com ação. Se a América corporativa ainda protelar agora, devemos denunciar seu blefe.

Com respeito às famílias, os governos devem olhar, além dos empréstimos, para a possibilidade de alívio da dívida, especialmente considerando os altos níveis atuais de dívida privada. No mínimo, os pagamentos dos credores devem ser congelados até que a crise econômica imediata seja resolvida e as injeções diretas de dinheiro estejam disponíveis para as famílias que mais necessitam.

E os EUA devem oferecer garantias governamentais para pagar de 80 a 100% dos salários das empresas em dificuldades, como fizeram o Reino Unido e muitos países da União Europeia e Ásia.

Também é hora de repensar as parcerias público-privadas. Muitas vezes, esses arranjos são menos simbióticos do que parasitários. O esforço para desenvolver uma vacina para a COVID-19 pode se tornar mais um relacionamento de mão única, no qual as empresas obtêm lucros maciços ao vender de volta ao público um produto que nasceu de pesquisas financiadas pelos contribuintes. De fato, apesar do investimento público significativo dos contribuintes dos EUA no desenvolvimento de vacinas, o Secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Alex Azar, admitiu recentemente que os tratamentos ou vacinas COVID-19 recém-desenvolvidos podem não ser acessíveis a todos os americanos.

Precisamos desesperadamente de estados empresariais que invistam mais em inovação - da inteligência artificial à saúde pública e às energias renováveis. Mas, como essa crise nos lembra, também precisamos de estados que saibam negociar, para que os benefícios do investimento público retornem ao público.

Um vírus assassino expôs grandes fraquezas nas economias capitalistas ocidentais. Agora que os governos estão preparados para a guerra, temos a oportunidade de consertar o sistema. Se não o fizermos, não teremos chance contra a terceira grande crise - um planeta cada vez mais inabitável - e todas as crises menores que virão com ela nos próximos anos e décadas.

*Publicado originalmente em 'Project Syndicate' | Tradução de César Locatelli



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