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A culpa pelo ataque ao Capitólio é de Trump

O presidente incitou seus seguidores à violência. Deve haver consequências

08/01/2021 15:34

(Samuel Corum/Getty Images)

Créditos da foto: (Samuel Corum/Getty Images)

 
O presidente Trump e seus facilitadores no Congresso incitaram um violento ataque na quarta-feira contra o governo que lideram e a nação pela qual professam amor. Isso não pode permanecer assim.

A retórica subversiva do Sr. Trump incitou uma multidão de milhares de pessoas a invadir o Capitólio dos EUA, alguns invadindo o Senado e a Câmara, onde os representantes eleitos da nação estavam reunidos realizando seu dever constitucional de contar os votos eleitorais e confirmar a eleição de Joe Biden como presidente.

Alguns carregavam a bandeira dos Confederados enquanto atacavam o trono do governo estadunidense e forçavam a suspensão do debate congressional. Eles quebraram janelas e portas, entrando em confronto com forças de segurança sobrecarregadas enquanto bradavam seu apoio ao Sr. Trump e sua recusa em aceitar os resultados legítimos da eleição de 2020. Uma mulher foi morta. Os líderes da nação correram por abrigo.

Explosivos foram encontrados no Capitólio e em muitos locais ao redor de Washington. Protestos pró-Trump também fecharam tribunais ao redor do país.

O Sr. Trump incitou esses ataques. Por meses ele protestou contra o veredito processado pelos eleitores em novembro. Ele convocou seus apoiadores a se reunirem em Washington e os encorajou a marcharem para o Capitólio. Ele disse que a eleição estava sendo roubada. Ele disse para eles lutarem. Ele disse que poderia se juntar a eles e, mesmo enquanto invadiam o prédio, ele se recusou a impedi-los por muitas horas, se recusou a condenar suas ações, se recusou a levantar um dedo em defesa da Constituição que ele jurou preservar e proteger. Quando finalmente falou, no final do dia, ele reafirmou a raiva dos protestantes, dizendo novamente que a eleição havia sido roubada, mas pedindo que fossem para casa. Foi a performance de um homem incapaz de cumprir com seus deveres enquanto presidente ou de confrontar as consequências do seu próprio comportamento.

O presidente precisa ser responsabilizado – por meio de procedimentos de impeachment ou penais – e o mesmo serve para seus apoiadores que conduziram a violência. Em tempo, deveria haver uma investigação sobre o fracasso da polícia do Capitólio em se preparar para um ataque que foi anunciado e planejado em público.

Esse não é somente um ataque aos resultados da eleição de 2020. É um precedente – uma permissão para oposições similares aos resultados das futuras eleições. Deve ser claramente rejeitado, e colocado além dos limites da conduta permissível.

Os líderes do Partido Republicano também carregam uma medida de responsabilidade pelo ataque ao Capitólio.

Muitos no Partido participaram da vigorosa costura de mentiras sobre a eleição. Eles buscaram menosprezar a confiança pública na democracia, questionando a legitimidade da vitória do Sr. Biden sem fornecer qualquer evidência para suas alegações. Suas declarações levaram algumas pessoas que confiam neles a concluir que a violência era necessária.

Poucos foram tão explícitos quanto Rudy Giuliani, o advogado pessoal do presidente, que na quarta-feira sugeriu, “que tenhamos um julgamento por combate!”. Mas mesmo enquanto extremistas ferviam ao redor do Capitólio, se jogando contra as barreiras de segurança, Republicanos na Câmara e no Senado estavam cutucando a democracia lá dentro.

O Senador Ted Cruz, Republicano do Texas, invocou a comissão de 1877 que decidiu a disputada eleição presidencial de 1876 como modelo para o que ele descreveu como dúvidas razoáveis sobre a eleição de 2020. Não há fatos para tais dúvidas acerca da eleição de 2020, mas a escolha do Sr. Cruz é historicamente ressoante. Na eleição de 1876, Democratas brancos usaram a violência política disseminada para evitar que as pessoas negras votassem e então exigindo o fim da Reconstrução como preço pela sobrevivência de uma República comprometida – introduzindo uma era de terror racial e cimentando a exclusão dos negros sulistas da democracia participativa.

O Partido Republicano moderno, em seus esforços sistemáticos para suprimir os votos, e sua recusa em reconhecer a legitimidade das eleições que perde, está similarmente buscando manter seu poder político na base da privação de direitos. A insurreição de quarta-feira é uma evidência de uma vontade alarmante de perseguir esse objetivo com violência.

É evidente que alguns líderes Republicanos estão começando a temer as consequências de viabilizar o Sr. Trump. Antes do início do ataque, o Senador Mitch McConnell, o líder da maioria, condenou os esforços de seus colegas Republicanos de reverter os resultados da eleição. Mas sua eloquência foi a definição de um gesto pequeno e tardio. Você colhe o que você planta.

Outros políticos acusaram mais firmemente. O ex-candidato à presidência Mitt Romney tuitou, “o que aconteceu no Capitólio dos EUA hoje foi uma insurreição, incitada pelo Presidente dos Estados Unidos”.

A Constituição exige que o Congresso conte e anuncie os resultados da eleição presidencial em 6 de janeiro do ano seguinte. Enquanto a multidão foi capaz de pausar o processo, não será capaz de impedi-lo, ou a inauguração do Sr. Biden em duas semanas.

Mas o ataque é um lembrete da fragilidade do auto-governo.

6 de janeiro de 2021, será lembrado como um dia obscuro. A questão é se, mesmo quando o mandato de Trump acabar, os EUA estão no início de uma descida a uma época ainda mais obscura e dividida ou no fim de uma. O perigo é real, mas a resposta não está predestinada. Políticos Republicanos têm o poder, e a responsabilidade, de trilhar um curso diferente encerrando suas retóricas que atacam a democracia estadunidense e de se levantar em defesa da nação que juraram servir.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares

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