Pelo Mundo

A denúncia de Trump sobre a conspiração entre Hillary Clinton e Wall Street

É em Davos onde Clinton arrecada dinheiro todos os meses de janeiro, para o seu fundo filantrocapitalista, o veículo por onde trafica de influências

20/10/2016 16:32

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Para o colunista Roger Cohen, do New York Times, Donald Trump utilizou retórica antissemita e neonazi ao acusar Hillary Clinton de “se reunir secretamente com os bancos internacionais, para urdir a destruição da soberania estadunidense, com o fim de enriquecer as potências financeiras globais, seus amigos lobistas e os doadores de sua campanha”, segundo a frase mais polêmica do empresário, em discurso da semana passada. Trump se referia ao conteúdo das conferências que Clinton realizou em uma série de bancos de Wall Street, pelas quais a candidata democrata cobrou cerca de 1,8 milhão de dólares, e cujo conteúdo foi vazado pelo Wikileaks, também na semana passada. Porém, a advertência de Cohen foi sobre a reação do candidato republicano ao fato: “assim nascem as ditaduras”.
 
Para Cohen e o New York Times – que sugeriu o mesmo em sua matéria de capa – falar em conspiração entre a banca internacional e os Clinton é uma maquinação antissemita, que lembra os tempos das teorias conspiratórias do Protocolo dos Sábios de Sião, embora Trump não mencione os judeus em nenhum momento do seu discurso incendiário.
 
Para os diários democratas, como o New York Times e o The Guardian (agora mais dedicado aos seus leitores do Upper West Side de Manhattan que aos do cinturão oxidado do norte da Inglaterra), o mensageiro, no caso Julian Assange, é cúmplice do fascismo e de outros totalitarismos, responsável não só por dar material combustível ao ditador, mancomunado com o quartel-general em Trump Tower, como também por ter colaborado com um ditador realmente existente, Vladimir Putin, para conseguir os emails. Este é o novo discurso do partido democrata, desenterrado da Guerra Fria, reivindicando o macartismo para acusar Trump e Assange de serem um híbrido terrorífico de Joseph Goebbels e Josef Stalin.
 
Há quem acredite que vale tudo para frear Trump, uma figura verdadeiramente desagradável e perigosa. Entretanto, após uma primeira olhada nas dezenas de emails vazados pelo Wikileaks, me parece bastante acertada a supracitada frase do empresário imobiliário no que se refere a Hillary Clinton e os bancos de Wall Street. Um pouco afetado, claro, pelo seu típico discurso demagógico, mas, em essência, ele disse a verdade.
 
Fica claro, nos discursos de Hillary em Goldman Sachs, por exemplo, que os encontros com bancos internacionais têm o propósito de assegurar aos executivos que eles poderão, efetivamente, continuar enriquecendo (e os Clinton também) mediante uma agenda neoliberal, pactada a cada mês de janeiro em Davos, para reduzir a soberania dos estados nacionais, inclusive um estado-nação tão grande como os Estados Unidos.
 
Hillary tranquilizou os executivos da Goldman Sachs, em 2013, durante três conferências pelas quais cobrou 650 mil dólares e cujo conteúdo foi vazado pelas mensagens, após repetidos chamados de Bernie Sanders em favor da revelação: “em quanto à regulação (do mercado financeiro), muito é ruim, e pouco também, como se consegue um nível médio, a chave de ouro? Nós sabemos que os que melhor sabem disso são precisamente as pessoas que trabalham no setor (ou seja, em Wall Street)”, disse Clinton, tranquilizando os banqueiros. Ela também afirmou, em outra palestra para a Goldman Sachs, que precisou adotar medidas contra Wall Street “por motivos políticos”, em referência à Lei Dodd-Frank, desenhada, segundo o discurso publico, para evitar uma repetição do mega crash financeiro de 2008, dando a entender que as medidas seriam principalmente cosméticas, para evitar a rebelião do Occupy e do Tea Party.
 
Num momento no qual todos os banqueiros iam a Davos para se queixar por um suposto excesso de regulação da nova lei, Hillary estava convidando os bancos a mandar seus lobistas a Washington e intervir na legislação, e foi o que eles realmente fizeram. Não é de se estranhar que Todd O’Neill, um dos mais conhecidos executivo da Goldman Sachs, tenha feitos elogios grandiloquentes a Hillary, em eventos posteriores à aprovação da lei. “Estamos agradecidos porque quando você foi senadora por Nova York mostrou enorme coragem nos temas relacionados com Wall Street”.
 
Também estão divulgadas nos vazamentos as conferências onde Clinton propõe, entre quatro paredes, a ampliação dos grandes tratados de desregulamentação dos investimentos das multinacionais, enquanto diz exatamente o contrário em sua campanha. Por exemplo, o Tratado de Livre Comércio com o México, odiado tanto pelos estadunidenses quanto pelos mexicanos, a partir do qual Clinton pretende criar um “mercado hemisférico” dominado pelos Estados Unidos, contrariando o desejo da maioria dos cidadãos latino-americanos. “Precisamos ter uma posição pública e outra privada”, disse Clinton em outra conferência com os banqueiros, que também passou a ser de âmbito público, graças a Wikileaks. Como se eles já não soubessem. Outro email demonstra que Clinton, apesar de suas declarações públicas, quer cortar o imposto sobre as grandes multinacionais.
 
Após ler estes emails, longe do complexo de culpa me ser um espião fascista-comunista que está traindo o mundo livre, em meio a uma nova Guerra Fria, me senti eternamente agradecido a Assange, e até a Vladimir Putin, se foi ele mesmo que ordenou o ataque dos hackers, por me permitirem indagar e vasculhar a correspondência secreta do grande cortador de bacalhau do Partido Democrata, John Podesta, que revela sua ligação com os lobistas bancários e corporativos, com a presença por trás da supostamente transparente Fundação Clinton. Os jornalistas não se mostravam tão preocupados pela fonte de um vazamento desde que Bob Woodward falou com Garganta Profunda, tal como explicam os informadores do The Intercept.
 
Outros emails, enviados antes da vitória de Obama em novembro de 2008, demonstram como funciona a porta giratória de Wall Street/Washington. A correspondência entre a campanha democrata (onde se envolve Podesta, um operador que se entende bem com Obama e com os Clinton) e Michel Froman, chefe do Estado maior de Bill Clinton e máximo responsável pela política comercial de Clinton e Obama, que naquele então se incorporou à direção do Citibank, junto com Robert Rubin. Os emails falam em distribuição de cargos na administração Obama quando ele ainda era candidato, e viajava o país prometendo mão dura contra os bancos de Wall Street, entre eles o Citigroup, cuja atuação foi uma das que mais ajudou a provocar a pior crise financeira da história, e que depois causaria a chamada Grande Recessão.
 
Agora, acontece algo similar. Os lobistas, sempre presentes no entorno de Bill e Hillary, já estão pactando as novas diretrizes da relação entre Wall Street e Washington. Só falta liquidar o ultranacionalismo de Donaldo Trump, com o apoio do New York Times e do The Guardian.
 
Neste sentido, meu email predileto é o de um poderoso advogado de Washington, Stuart Eizenstat, enviado em fevereiro deste ano, onde ele se oferece para ajudar na campanha de Clinton em diversas áreas, incluindo comércio internacional e políticas para o Oriente Médio: “sou o presidente do Conselho de Negócios Transatlânticos, falei recentemente, sobre o acordo transatlântico de comércio e investimentos (o odiado TTIP), e me reuni em Davos com Mike Froman, que me pediu conselhos sobre a reforma regulatória do TTIP (…)”, presume ele, em sua busca por emprego. Logo, agrega: “o acordo transpacífico virá antes. Todos (os acordos) terão a oposição dos sindicatos e dos grupos de consumo. Posso ajudá-los a tomar posições”. Para respaldar sua oferta de trabalho na administração de Hillary Clinton, o advogado e diplomático afirma que é membro dos conselhos de UPS, Blackrock, Alcatel, Globe Speciality Metals, Chrsitie’s GML e da Coca-Cola.
 
É em Davos onde Clinton arrecada dinheiro todos os meses de janeiro, para o seu fundo filantrocapitalista, o veículo por onde trafica de influências, a Iniciativa Global Clinton, é um ponto de encontro essencial para os aspirantes a chegar à Casa Branca através do Partido Democrata. Numa de suas frases inesquecíveis, Eizenstat explica a Podesta e aos demais peixes gordos da campanha Clinton: “me reuni com Tom Nides (que alterna entre as administrações democrata e as diretorias dos bancos de Wall Street, especialmente do Morgan Stanley) no Foro de Davos, para perguntar a ele qual seria a melhor forma de me atualizar na parte política”.
 
Eizenstat diz que mantém “relações estupendas” com o lobby pró-Israel em Washington, o Comitê de Assuntos Políticos América Israel (AIPAC, em sua sigla em inglês), e aconselha Hillary, no mesmo email, a se distanciar de Obama e criar pontes de aproximação com Netanyahu. “Estou disposto a oferecer um tempo considerável e contribuir com uma quantidade financeira substantiva, além de ajudar a arrecadar mais”, conclui seu pedido para ajudar Hillary a não mudar o mundo.
 
Tradução: Victor Farinelli



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