Pelo Mundo

A direita neoliberal diante do progressismo

 

08/09/2019 17:32

 

 
O que ocorre hoje na Argentina, paradigmaticamente, mostra os dois modelos ideológicos que estão em confronto na América Latina. Um dos modelos é o de Macri e da direita neoliberal, esse setor que, quando suas políticas não funcionam e o eleitorado as rejeita nas urnas, passa a culpar o conjunto da sociedade por esse resultado. O outro modelo é o de Alberto Fernández e do progressismo que, por um lado, aceita a vontade da maioria e, quando perde, atua dentro da democracia, em seu devido papel de oposição. Por outro lado, quando governa, o faz com uma lógica pragmática, sembrigar com o mercado nem dogmatizar o rol do Estado, mas sim estabelecendo como norte a necessidade de melhorar as condições de vida de todas e todos.

Na mitologia grega, Jasão– que viajou com os argonautas – deixou Medeia para se casar com Glauce. Como vingança, Medeia matou Glauce e, para se vingar de Jasão, assassinou seus próprios filhos. Ao vê-los mortos, ela diz: “oh crianças, como puderam morrer pela loucura de vosso pai”. Na Argentina, o presidente Mauricio Macri, ofuscado pelos resultados das eleições primárias, decidiu acabar com qualquer intervenção do Banco Central para frear o preço do dólar. Dessa forma, permitiu que a crise econômica gerada por suas próprias políticas de agravasse. Ao fazê-lo, enviou, em um só dia, centenas de milhares de argentinos à pobreza. Assim, e tal qual Medeia, Macri declarou, naquele dia pós-eleitoral: “oh argentinos, como puderam sofrer pela loucura do seu próprio voto”.

O modelo de Macri – que também é o de Sebastián Piñera no Chile, o de Jair Bolsonaro no Brasil e o que pretendem levar ao Uruguai os candidatos do Partido Nacional e do Partido Colorado – vê os mercados e a economia a partir de uma simplificação negligente. Para eles, deve haver uma relação entre a total liberdade dos mercados (laissez faire) ea diminuição do Estado (laissez passer). Acreditam que os problemas do mercado se solucionam sozinhos (porque eles se autorregulam). O Estado, considerado um estorvo, deveria se transformar numa espécie de pequena empresa. Macri disse, antes de assumir, que “baixar a inflação é a coisa mais fácil do mundo”, e terminou com seu ministro da Economia, Nicolás Dujovne, declarando que a Argentina teria, neste ano de 2019, um “crescimento negativo”, a inflação disparada, o país endividado como nunca antes em sua história, milhões de pessoas condenadas a voltar à pobreza. E, apesar de tudo, o mandatário argentino segue com sua obstinação ideológica, e quando perguntam “o que mudaria da sua gestão”, sua resposta é: “faria o mesmo, só que mais rápido”.

O modelo progressista é diferente. Não é anti Mercado. Pelo contrário, para o progressismo, as sociedades contêm o Estado eo Mercado como ferramentas constitutivas do seu ordenamento. Só um Estado forte e protagonista poderá oferecer aoMercado as certezas que necessita para funcionar de maneira harmônica. Em um modelo progressista, a democracia é fundamental, e, portanto, as medidas econômicas nunca serão simples. Porque a democracia não resiste a medidas que façam o povo sofrer para favorecer os indicadores financeiros. As medidas progressistas precisam do Mercado e do Estado; investimento privado e estrangeiro, crescimento, mas também redistribuição. Porque se a economia não tiver um componente moral, é mera matemática.

Para o progressismo, o principal problema não é que nossos países sejam pobres, ainda que alguns claramente sejam assim, e a Argentina hoje é mais pobre que quando Macri chegou ao poder.%u22FO problema é que nossos países são desiguales. O Estado deve agir para combater essa desigualdade, para que os mercados possam funcionar graças ao consumo. A solidariedade não é sinônimo de altruísmo, e sim de melhor economia. A prosperidade deve ser social, porque de outra forma não há consumo, e isso faz aumentar a desigualdade, e a democracia começa a ruir.

A direita neoliberal, que diz acreditar nos mercados, culpa os consumidores quando os cidadãos rejeitam seu produto nas urnas, em vez de pensar numa plataforma que seja mais atraente para a cidadania. O progressismo, por outro lado, entende melhor o mercado e, aprendendo das lições de derrotas passadas, adota posições mais pragmáticas, que combinam ferramentas de mercado e o papel ativo do Estado para alcançar o objetivo que a direita parece não entender: que todos temos que viver melhor, e para isso, os que estão pior devem ser os que recebem mais benefícios do desenvolvimento.

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli



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