Pelo Mundo

A era da diplomacia da vacina chegou

A ameaça do coronavírus é global. E o remédio também.

02/03/2021 12:13

(Abdeljalil Bounhar/Associated Press)

Créditos da foto: (Abdeljalil Bounhar/Associated Press)

 
É natural que o governo estadunidense e o povo estadunidense tenham focado em conseguir vacinas contra o coronavírus para o maior número possível de pessoas, com os mais vulneráveis na frente da fila. Mas ao passo que a vacinação doméstica acelera, é importante ter dois fatos em mente.

Um é que a pandemia não desaparecerá em nenhum lugar até que desapareça em todos os lugares. Diversas variantes conhecidas do coronavírus estão se esgueirando pelo mundo, e os epidemiologista sabem que outras mais irão evoluir enquanto o vírus continuar a espalhar, potencialmente desafiando a eficácia de vacinas existentes. A África do Sul, por exemplo, pausou o uso da vacina de Oxford-AstraZeneca quando mostrou resultados “decepcionantes” contra uma nova e mais contagiosa variante do vírus que já está nos EUA.

O segundo fato é que enquanto mais de 45 milhões de estadunidenses, quase 14% da população dos EUA, receberam ao menos uma dose da vacina, e a maior parte dos países de alta renda lançaram seus próprios programas de vacinação, o projeto Pense a Saúde Global do Conselho de Relações Exteriores estima que somente 7% dos países de baixa renda vacinaram alguém até dezoito de fevereiro.

Essa é uma brecha enorme que o Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da OMS, descreveu corretamente como “outro tijolo na parede da desigualdade entre os que têm e os que não têm do mundo”.

A boa notícia é que a brecha está finalmente sendo abordada. Na semana passada, um avião de carga pousou em Gana com 600.000 doses de uma vacina desenvolvida na Grã-Bretanha e produzida na Índia, o início de um programa para entregar ao menos 1.3 bilhões de doses para 92 países de baixa e média renda através da COVAX, um esforço internacional apoiado pela OMS.

O esforço teve um início complicado. Na administração Trump, os EUA saíram da OMS por completo, e junto com outras nações ricas, pegaram a vacina que conseguiram para eles mesmos. Mas a administração Biden agiu rapidamente para retornar à OMS e prometeu quatro bilhões de dólares ao esforço de vacinação global. O presidente Emmanuel Macron da França ainda sugeriu que ao invés de dinheiro, os países ricos deveriam doar doses de vacinas para os governos africanos, poupando a COVAX de ter que competir por suprimentos existentes.

Tudo isso é só o começo. As 600.000 doses que chegaram em Gana não são suficientes para inocular 1% da sua população, e a COVAX vai precisar de muito mais dinheiro e ajuda.

Ao passo que derrotar o vírus é a razão principal e óbvia para os EUA contribuírem, também tem isso: faz parte do interesse nacional estadunidense não ceder uma vantagem importante de “poder suave” aos rivais autocráticos como a Rússia ou a China.

Os países pobres vão se lembrar de quem os ajudou, e quando. Moscou e Pequim viram uma oportunidade no início, enviando máscaras e equipamentos de proteção para países atingidos fortemente na última primavera. Agora, com países de baixa e média renda implorando por vacinas, países da Sérvia e Argélia ao Brasil e Egito estão recebendo doses da China e da Rússia. A Sérvia, na realidade, está a frente da maior parte dos países da União Europeia em porcentagem populacional que foi vacinada, em parte porque é um dos poucos países onde ambas as vacinas da Rússia e da China já estão disponíveis.

A China fez do compartilhamento de suas vacinas caseiras peça central de sua “Iniciativa Cinturão e Rota”, uma estratégia global para investir em mais de 70 países e organizações internacionais. A diplomacia vacinal de Pequim teve suas falhas, mais notoriamente a falta de informações legítimas sobre a eficácia de suas vacinas, mas para muitos países pobres, as vacinas da China são bem melhores do que nada. Recentemente, por exemplo, a China anunciou que iria doar 300.000 doses ao Egito.

A Rússia alega que tem pedidos da vacina Sputnik V de cerca de 20 países – incluindo o vizinho sulista dos EUA, o México, que fez um contrato para receber 7.4 milhões de doses entre fevereiro e abril. Depois de um surto de covid-19 no final de janeiro, o presidente Amlo do México reportou que havia recebido um telefonema caloroso do presidente Putin da Rússia e que o havia convidado a visitar o México. Perto do mesmo momento, o presidente e a vice-presidente da Argentina, Alberto Fernández e Cristina Fernández de Kirchner, ambos receberam as primeiras vacinas Sputnik V.

A Índia, entre os maiores produtores de remédios genéricos do mundo, também agiu para desenvolver suas próprias vacinas e para exportá-las, em parte como um contragolpe ao alcance da China. Embora a Índia tenha uma população de mais de 1.3 bilhões, já enviou 3.2 milhões de doses gratuitas para países vizinhos e assinou um contrato com alguns governos para fornecer vacinas. Uma razão pela qual a Índia está fazendo isso, é porque está produzindo mais vacinas do que consegue distribuir internamente no momento. Os EAU, que estão vacinando seus moradores mais rapidamente do que qualquer outro país, exceto Israel, também começou a doar a chinesa Sinopharm para países com os quais possui interesses comerciais ou estratégicos.

A diplomacia vacinal possui desvantagens. O Dr. Ghebreyesus da OMS reclamou que muitos países produtores de vacinas estão focados em fazer acordos bilaterais ou seletivos, que descarta os países mais pobres. Essa é a vantagem da iniciativa COVAX da OMS, e a administração Biden fez uma boa escolha em apoiá-la.

O presidente Biden garantiu aos estadunidenses que a maioria será vacinada até o fim do verão. Ele também deveria garantir que faz parte de seu interesse, por razões morais e de interesse nacional, de estar na linha de frente da guerra global contra essa ameba cruel.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares



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