Pelo Mundo

A esquerda espanhola no labirinto catalão

O problema nacional catalão, assim como o basco ou o galego, ainda é uma das tarefas pendentes do Estado espanhol, que não encontra ainda uma mínima resposta de esquerdas viável

05/01/2018 21:20

 

O resultado das eleições catalãs não poderia ter sido pior para as forças progressistas espanholas. O problema nacional catalão, assim como o basco ou o galego, ainda é uma das tarefas pendentes do Estado espanhol, que não encontra ainda uma mínima resposta de esquerdas viável. Nesse labirinto sem saída estão presos Pedro Sánchez, o líder do Partido Socialista Operário da Espanha (PSOE), atuando como uma cópia ruim do Rajoy original, e também Pablo Iglesias, porta-voz do Podemos – a nova esquerda espanhola surgida do movimento dos Indignados – que tenta ser um árbitro inútil entre unionistas e independentistas. Tentar marcar hoje a agenda da História, pulando a página territorial para impor a social, é um esforço em vão que só leva à melancolia.

O presidente Mariano Rajoy amarra fortemente as siglas progressistas, assim como outrora o fez José María Aznar. A Catalunha agora, como aconteceu antes com Euskadi, ata as mãos e os pés do PSOE e do Podemos. Uma parte de seus dirigentes, quadros e marqueteiro praticam uma política de alianças com o unionismo espanhol que desemboca na aplicação do Artigo 155 (intervenção na Catalunha para barrar o independentismo). Enquanto isso, outra minoria denuncia a repressão, mas não chega a formular aliança alguma com o independentismo em defesa das reivindicações democráticas. Assim, entende-se que uns – as duas direitas, a clássica e mais extrema do Partido Popular (PP) de Rajoy e a nova direita liberal do partido Cidadãos – tenham a maioria absoluta na Espanha, segundo todas as pesquisas, enquanto as forças regionalistas, de direita e esquerda, revalidam sua maioria absoluta na Catalunha.

É tal a irrelevância política do PSOE e do Podemos que toda a direita se permite protagonizar uma de suas mais ásperas lutas internas em torno da futura política na Catalunha. Enquanto Rajoy muda o tom, os regionalistas radicalizam. Não por acaso, toda a artilharia midiática da direita hoje ataca a covardia do PP para exaltar a valentia do Cidadãos. Com Aznar observando de longe, a nova direita acredita estar em tempo de avançar com a bandeira da recentralização do Estado, em claro benefício das elites madrilenhas, bastante inquietas diante dessa negociação. Nesta pugna, Sánchez e Iglesias são convidados de pedra.
Entretanto, esta é uma polêmica crucial. Provavelmente tem tanto de ficção quanto de realidade, mas enquanto exista esta luta entre ambos setores da direita todas as forças parlamentares, sobretudo PSOE e Podemos, deveriam denunciá-la. Não é uma simples batalha, porque do seu desfecho depende a possibilidade ou não de acabar de uma vez com a deriva autoritária do regime pós-franquista surgido em 1978. Se quebrada agora essa hipotética negociação entre unionistas e independentistas, haveria consequências lesivas tanto para a Catalunha como para toda a Espanha, e para o sistema democrático – o que inevitavelmente afeta negativamente as perspectivas das forças progressistas.
Se a Inglaterra coexiste bem com um governo independentista na Escócia e a Bélgica lida satisfatoriamente com outro igualmente independentista em Flandes, por que a Espanha não pode conviver com o governo independentista catalão? Os resultados de 21 de dezembro mostram duas metades sociológicas na sociedade catalã, que não dão lugar a nenhuma outra política democrática. Sobre a base de um novo financiamento das autonomias, que incorporem o princípio ordinário vigente hoje nos länders alemães, e um referendo pactuado, como o escocês, seria possível criar um equilíbrio que ao menos esfrie os ânimos entre Espanha e Catalunha. Impedir a mudança vias extremistas da direita que vivem por e para o choque do trem espanhol com o catalão é uma necessidade urgente e imperiosa para as forças progressistas espanholas.
Essa é a única saída viável. Se a Catalunha custou três guerras civis (1640, 1714 e 1939) e uns 80 anos de Estado de exceção no Século XIX – segundo o historiador Vicens Vives –, por que não poderia viver outras tantas no Século XXI? Marx já advertia que não é possível escolher nem o momento nem as condições sob a qual vivemos. Não é possível, portanto, pular a página do conflito territorial da agenda da História para escolher a social. Sem resolver a primeira, não há resolução possível à segunda.

Fernando López Agudín é jornalista e analista político





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