Pelo Mundo

A esquerda latino-americana contra a Venezuela

A Venezuela de tornou um peso político para a esquerda, cada vez mais explorada pela direita, cujo discurso se baseia na construção dos fantasmas de ''venezuelização''. Em um cenário em que o processo venezuelano está cada vez mais distante das visões emancipatórias, grande parte da esquerda carece de ferramentas teórico-políticas para explicar o que está acontecendo

26/02/2020 15:58

 

 
Em 30 de janeiro de 2005, no estádio Gigantinho, em Porto Alegre, o presidente Hugo Chávez declarou a necessidade do socialismo. Com sua camisa vermelha característica, o líder venezuelano disse:

“Negar os direitos do povo é o caminho da selvageria, o capitalismo é a selvageria. Todos os dias, eu me convenço mais, (entre) capitalismo e socialismo (…) não tenho dúvidas. É necessário, como dizemos, e como dizem muitos intelectuais do mundo, transcender o capitalismo, mas, acrescento eu (…) é preciso superar o capitalismo pela via do socialismo (…)”.

Nessas declarações, ressoava, distante, aquela declaração do “caráter socialista” da Revolução Cubana, pronunciada por Fidel Castro, em abril de 1961, em meio a fuzis e chamados a resistir à agressão imperialista. A Venezuela não foi invadida, mas chavismo perdeu grande parte do seu misticismo político conquistado após sua vitória contra o golpe de Estado de 2002, aquele que foi apoiado pela oligarquia local e pelos Estados Unidos, provocado pela rebelião patronal e pela da PDVSA (estatal petroleira venezuelana), entre 2002 e 2003, e que causou um forte golpe na economia.

Na frente de Chávez, não havia milicianos, mas ativistas sociais agrupados no Fórum Social Mundial, uma articulação de partidos e movimentos sociais de esquerda mobilizados contra a “globalização do capital”, e a favor de uma mudança nas relações de força em escala global. Nesse novo cenário pós-socialismo real, o presidente bolivariano anunciou e enfatizou que a nova transição para o socialismo deveria ocorrer “na democracia!”. Mas imediatamente esclareceu: “olho aberto e ouviu atento: em que tipo de democracia? Não é a democracia que Mister Superman (George W. Bush) quer nos impor com um decreto de Washington, não, isso não é democracia”. E aí reside um dos problemas centrais do chavismo, em suas duas décadas de hegemonia sobre a política venezuelana. Se isso “não é” democracia, com que tipo de democracia se pode “superar” a democracia liberal? E, em segundo lugar: além da democracia, o que diferenciaria esse “socialismo do Século XXI” das experiências do socialismo real e das “democracias populares” do Século XX na União Soviética, no Leste Europeu, na Ásia e em Cuba?

Aquele foi um momento épico, de uma “maré rosa” que quase fechou um círculo no continente. Néstor Kirchner e Luiz Inácio Lula da Silva já estavam no poder, e logo chegariam Tabaré Vázquez, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, o enigmático Manuel Zelaya e, dois anos depois, o mais polêmico, controverso Daniel Ortega. A Venezuela parecia ocupar o lugar de uma espécie de “núcleo radical”, em torno do qual estavam localizados regimes nacional-popular, ou de esquerda democrática, mais moderados e/ou mais novatos, que moldaram à inédita guinada à esquerda no continente.

No entanto, o “socialismo do Século XXI”, que no início continha a promessa de uma renovação da esquerda, a ponto de deixar para trás a história do socialismo real, acabou mostrando seus limites intransponíveis. O que parecia ser a locomotiva (a Revolução Bolivariana) que puxava as forças transformadoras da América Latina foi se transformado em um sistema cada vez mais ineficiente e menos pluralista, e as sementes militaristas que ele continha desde o início acabaram capturando o processo político iniciado com o triunfo eleitoral no final de 1998. Nesse contexto, a Venezuela acabou sendo um peso político para a esquerda continental, cada vez mais usada pela direita para construir fantasmas de “venezuelização” em cada país onde forças as progressistas têm chance de triunfar. Como escreveu o economista Manuel Sutherland: “nesse cenário triste, a Venezuela é o melhor argumento para a direita mais retrógrada. Em qualquer âmbito midiático, eles se aproveitam da situação para assustar seus compatriotas com perguntas como: `quer socialismo? Vai para a Venezuela e veja a miséria!´. `Espera por mudanças? Veja como outra revolução está destruindo um país próspero!´. Pseudo analistas políticos %u20B%u20Bafirmam que as políticas socialistas arruinaram o país e que a solução é uma reversão ultraliberal da revolução”.

Diante dessa situação, a esquerda carecia de ferramentas teórico-políticas para explicar o que estava acontecendo, principalmente a esquerda reunida no Foro de São Paulo. No caso da Frente Ampla do Uruguai, há visões cada vez mais críticas. No Partido dos Trabalhadores do Brasil, a prisão de Lula da Silva e a chegada da extrema-direita ao poder parecem ter levado a posturas mais defensivas, que incluem a questão venezuelana. No Movimento Ao Socialismo da Bolívia, o discurso é pouco permeável a um balanço mais crítico. E apesar de a Bolívia estar longe de ser a Venezuela, Evo Morales compartilhou algumas visões não pluralistas do poder, que o levaram a buscar a reeleição repetidas vezes, e acabou desencadeando uma crise política e uma onda de protestos que, por sua vez, deram origem a um golpe policial-militar, uma retomada do poder por parte dos conservadores, e um governo repressivo liderado pela senadora Jeanine Áñez, que entrou no palácio com uma enorme Bíblia nas mãos.

Muito daquilo que tornou a Venezuela um modelo atraente era profundamente contraditório desde as suas origens. O processo venezuelano combinou diversas formas de empoderamento popular com a liderança ultra carismática de Chávez; redistribuição dos lucros do petróleo com mecanismos para saquear recursos estatais por grupos burocráticos-militares que feudalizavam o Estado; democracia comunitária “para as classes baixas” e formas pretorianas e autoritárias “na parte de cima” da cadeia de mando; imaginação para promover projetos pós-futuristas e a absoluta incapacidade de realizá-los; fortalecer o papel do Estado e a incapacidade na gestão pública. E, desde a morte de Chávez, em 2013, também houve um declínio econômico, que levou a uma queda de mais de 50% do PIB durante a administração de Nicolás Maduro, e a uma inflação de 130000% em 2018 – segundo dados oficiais finalmente divulgados, após um longo silêncio informativo oficial.

As esquerdas latino-americanas leram – e ainda leem – a Venezuela a partir do imaginário das ameaças de intervenção, o mesmo que foi construído sobre Cuba desde os Anos 60. Assim, o “socialismo petroleiro” venezuelano – como o próprio Chávez chamou, em 2007 – fica isento de qualquer culpa com respeito aos problemas da sociedade venezuelana. Nessas visões, prevalece o anti liberalismo fortemente arraigado nas esquerdas da região, e tende a minimizar os problemas democráticos, dentro do que, na França, se “campismo”: a exageração das variáveis %u20B%u20Bgeopolíticas na análise de qualquer realidade nacional.

Assim, o anti imperialismo se separou de sua dimensão emancipatória para assumir uma dimensão justificativa, e até comemorativa, de vários regimes supostamente inimigos do Império – a popularidade de Muammar al-Gaddafi em alguns setores das esquerdas continentais é um bom exemplo disso. A narrativa sobre o “poder popular”, muitas vezes abstrata, torna-se uma maneira de encobrir déficits democráticos, e também as (muitas) violações aos direitos humanos pelas forças repressivas do Estado. Dessa forma, o “silêncio Cuba” – segundo tese da analista política argentina Claudia Hilb – de muitas esquerdas latino-americanas, e também de outros continentes, se tornou um “silêncio Venezuela”, o que não significou, como tampouco aconteceu no caso da ilha, não falar sobre a Venezuela, mas evite enfrentar os problemas, descartando dados empíricos e apelando mecanicamente para as “agressões imperiais”, como a única variável explicativa, depois de anos fazendo o mesmo, a respeito da antiga guerra econômica.

Existem várias vias de transmissão do discurso oficial venezuelano para o resto da região. Além de mídias como a TeleSur, durante anos, a Revolução Bolivariana, como a cubana da época, realiza vários eventos de solidariedade, que serviram para organizar uma massa intelectual disponível para vários tipos de pronunciamentos de “solidariedade”, mais ou menos automáticos. Alguns têm sido mais organizados, até por apêndices de embaixadas, e outros menos, mas em geral, foi se solidificando um discurso sobre a Venezuela que congelou a foto do golpe de 2002 e que é incapaz de ver os absurdos do bolivarismo e os deslocamentos na conjuntura política.

Hoje, por exemplo, é impossível pensar na divisão que o país atravessa como um confronto “transparente” entre esquerda e direita, ou entre o povo e a oligarquia. Em grande parte das esquerdas regionais, a profundidade e multidimensionalidade da crise são subestimadas, bem como a degradação, política e moral, da elite cívico-militar bolivariana. O “povo comum” pode ser relegado ao sacrifício econômico sem problemas nesse altar anti imperialista, enquanto funcionem as muletas dos discurso, que dizem que “a oposição é pior”, “o problema são as sanções americanas”, etc. Além disso, são minimizados os ataques ao Estado de Direito e à estrutura institucional nascida da Constituição Bolivariana de 1999: a Assembleia Nacional Constituinte atua como um poder supraconstitucional e sem contrapesos, um poder de fato que não se concentrou na elaboração de uma nova Constituição, mas sim em legitimar qualquer medida do governo, sem ser enquadrado em uma república constitucional.

Isso não significa, sem dúvida, que não há agressões e interferências imperiais. Nem que os neoconservadores que cercam Donald Trump, como Elliot Abrams ou John Bolton (que finalmente acabaram se distanciando do presidente), não sejam perigosos. Mas, justamente, isso ilumina outra questão: o discurso anti imperialista latino-americano tem como contrapartida um fraco interesse em estudar o “Império” realmente existente, sua dinâmica política, suas (in)consistências e seus interesses geoestratégicos específicos. Tampouco nega que, na oposição, haja setores financiados pelos Estados Unidos, falcões anticomunistas ao estilo da Guerra Fria, antipopulistas racistas e elitistas retrógrados. Nem apela para o discurso considerado “isentão”, baseado no “nem com Maduro nem com o Império”. Pelo contrário, trata-se de pensar a realidade venezuelana em uma chave dupla: anti imperialista e democrática, sem sacrificar nenhum dos termos da equação. A pergunta é simples: mesmo que Maduro seja bem-sucedido nessa última batalha contra o “presidente encarregado” Juan Guaidó, que tipo de futuro pode se esperar para a Venezuela? Que energias vitais a Revolução Bolivariana tem para incorporar os “novos começos” que Maduro promete, repetidas vezes, para enfrentar a degradação social que o país está passando? O último novo começo é a dolarização informal da economia.

Sem uma esquerda mais ativa e criativa com relação à Venezuela, a iniciativa regional foi ficando, sem contrapesos, nas mãos das direitas do continente. Na última reunião do Foro de São Paulo, em Havana, a secretária executiva, Mônica Valente, disse que a 24ª reunião deste espaço, que reúne grande parte da esquerda da região, “pode ter a mesma importância histórica dos Anos 90 quando o muro de Berlim caiu”. Ele não estava se referindo especificamente à Venezuela, mas à “guinada à direita” na América Latina. Mas, se podemos falar em um muro de Berlim regional, seria para dizer que ele está diretamente ligado à implosão da Revolução Bolivariana – precisamente no primeiro país que se declarou socialista após 1989. Por esse motivo, o equilíbrio dessa experiência é indispensável para qualquer renovação política e teórica da esquerda latino-americana.

Essa é uma tarefa importante, embora as vitórias de Andrés Manuel López Obrador, no México, e Alberto Fernández, na Argentina, tenham colocado uma dúvida sobre essa ideia de uma guinada à direita na região.

Pablo Stefanoni é chefe de redação da editora Nueva Sociedad

*Publicado originamlente em 'SinPermiso' | Tradução de Victor Farinelli



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