Pelo Mundo

A força-tarefa Sanders-Biden e o desastre da ''revolução política'' de Sanders

 

15/07/2020 12:08

 

 
Com a revelação das propostas da "força-tarefa conjunta" de Bernie Sanders e Joe Biden para a plataforma do Partido Democrata de 2020, Sanders colocou o prego final no caixão de sua chamada "revolução política".

A iniciativa conjunta da força-tarefa foi anunciada pela primeira vez quando Sanders deu seu endosso a Biden em meados de abril. As forças-tarefa eram compostas por membros importantes das campanhas de Sanders e Biden, incluindo dois membros dos Socialistas Democratas da América (DSA): Alexandria Ocasio-Cortez e Sara Nelson, presidente da Associação de Comissários de Bordo - CWA. A iniciativa visava promover a "unidade partidária" antes da eleição.

O resultado da colaboração Biden-Sanders é nada menos que um total repúdio de todos os pilares centrais da campanha de Sanders em meio à maior catástrofe social e econômica da história dos EUA.

Mais notavelmente ausente nas propostas está o plano "Medicare-for-all" [Saúde Universal] de Sanders, que foi substituído por chamadas para "reabrir os mercados do Affordable Care Act" [conhecido também como Obamacare são planos de saúde privados, com subsídios para pessoas de baixa renda] e fornecer uma opção pública. Uma redução da idade de elegibilidade para o Medicare de 65 para 60 anos deve servir como disfarce "progressista" de Biden em relação ao cuidados de saúde. Apenas quatro anos atrás, a campanha de Hillary Clinton pedia uma redução da idade de elegibilidade do Medicare para 50 anos.

Outras políticas centrais da campanha de Sanders que foram retiradas incluem uma garantia federal de empregos, o Green New Deal, faculdades gratuitas e a abolição do departamento de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE).

Em vez disso, as recomendações não vinculativas para a plataforma do Partido Democrata consistem de banalidades sobre a garantia de "equidade" para todos os norte-americanos e pequenas reformas políticas que o Partido Democrata não tem intenção de implementar.

A plataforma do Partido Democrata, de todo modo, não tem importância prática. Muitos jovens e trabalhadores lembram que, quando Sanders endossou Hillary Clinton, ele proclamou que ela e o partido haviam adotado a “plataforma partidária mais progressista da história”.

Sanders, que está provando em tempo real ser o líder de torcida mais entusiasta do Partido Democrata, está mais uma vez exibindo seus pompons antes das eleições de 2020. Após o anúncio das propostas da força-tarefa, Sanders chegou a prever que Biden poderia se tornar o "presidente mais progressista" desde Franklin D. Roosevelt.

Quem ele pensa que está enganando? Biden tem uma história de quase 50 anos de cumprimento dos ditames da classe dominante. Ele apoiou a guerra do Iraque e o fim das restrições Glass-Steagall à especulação financeira. Ele ajudou a aprovar uma legislação que levou ao encarceramento em massa das camadas mais pobres e oprimidas da população. Se eleito, um governo Biden, com a participação de muitos dos envolvidos na iniciativa de "unidade", presidirá uma intensificação da austeridade, novos ataques aos direitos democráticos e uma expansão da guerra e do militarismo.

A prostração de Sanders ante a campanha de Biden era totalmente previsível e alinhada com a natureza de sua campanha. Enquanto a realidade demonstrava tão claramente, a necessidade do socialismo, a resposta de Sanders foi mudar cada vez mais para a direita.

Vale a pena revisar os eventos dos últimos quatro meses, em particular.

O último ato da campanha Sanders foi o voto do senador pela Lei CARES de US$ 2,2 trilhões em 25 de março. Antes de votar "sim" no projeto, Sanders o saudou no plenário do Senado como um benefício para os trabalhadores. Na realidade, o projeto de lei foi um desperdício de dinheiro público em benefício da 'América corporativa', que permitia canalizar US$ 6 trilhões para manter a bolsa de valores em movimento e cobrir eventuais perdas sofridas pelas grandes corporações.

Em 8 de abril, quando os casos de coronavírus nos EUA estavam atingindo seu primeiro pico e os hospitais estavam sobrecarregados, Sanders anunciou que estava desistindo da corrida e manteve a discussão em que se rebaixou frente a Biden em 13 de abril.

Sua capitulação a Biden foi seguida por uma entrevista à Associated Press, na qual ele caluniou como "irresponsável" qualquer um de seus apoiadores que deixasse de fazer campanha por Biden. Apenas um dia antes, Biden havia aderido à campanha de "volta ao trabalho" de Trump, quando o número de mortos nos EUA pela COVID-19 atingia 10.000.

Logo depois, os ex-principais assessores da campanha Sanders aproveitaram sua estrutura organizacional para lançar um novo super PAC [arrecadação indireta do partido de fundos para a campanha], "Future to Believe In" [Um futuro para se acreditar], para direcionar recursos para a eleição de Biden.

Em 23 de maio, quando o número de mortos nos EUA pela COVID-19 estava se aproximando de 100.000 e a riqueza dos super-ricos estava crescendo, a equipe política de Sanders ameaçou seus delegados: eles seriam removidos de suas posições se criticassem Biden ou outros líderes do Partido Democrata.

Dois dias depois, George Floyd foi brutalmente assassinado pela polícia, desencadeando enormes protestos multirraciais e multiétnicos contra a brutalidade policial nos EUA e no mundo. Em resposta aos protestos, Trump tentou realizar um golpe que envolveria a mobilização de tropas ativas para reprimir os protestos e estabelecer uma ditadura presidencial.

Em resposta a esses eventos, Sanders ficou em silêncio. Quando ele finalmente resolveu se referir à situação, ele pediu que os policiais recebessem um aumento salarial.

Agora, como resultado direto das políticas dos governo estaduais dos dois partidos, a pandemia está fora de controle. Nesta semana, mais de 375.000 casos de coronavírus foram registrados nos Estados Unidos, mais do que o número de casos registrados em fevereiro, março e na primeira semana de abril juntos.

Os trabalhadores aguardam nas filas por mais de cinco horas em estados como Flórida e Arizona apenas para fazer testes. Muitos estados estão se aproximando da capacidade de leitos de UTI. E mais de 1,3 milhão de pessoas entraram com pedido de auxílio desemprego pela primeira vez na semana passada. Foi a 15ª semana consecutiva em que novos pedidos de seguro-desemprego ficaram acima de 1 milhão e mais de seis vezes o número de pessoas novas que entraram com pedido nesta semana no ano passado.

Além disso, há uma pressão crescente para que as escolas sigam uma reabertura imprudente no outono e uma resistência maciça se formando entre as principais seções da classe trabalhadora industrial.

É sob essas condições que Sanders escolheu lançar suas chamadas propostas de "unidade".

As ações de Sanders expressam sua função política - manter a oposição social dentro da estrutura do Partido Democrata. Como o WSWS [World Socialist Web Site, ou, Web Site do Mundo Socialista] escreveu em fevereiro de 2016: "Sanders não pretende criar uma 'revolução', como ele afirma em seus discursos de campanha, mas impedir uma."

Existem muitos grupos dentro e ao redor do Partido Democrata, principalmente os Socialistas Democratas da América (DSA), que passaram os últimos cinco anos promovendo ilusões na campanha de Sanders. Desde o final de sua campanha, o DSA realizou dezenas de reuniões de "chamamento" para pedir aos trabalhadores e jovens que não deixem o Partido Democrata. "Em algum momento futuro", explica, será necessária uma ruptura, "mas não agora". Na falência da campanha Sanders, o DSA também expôs sua própria falência.

Trabalhadores e jovens precisam tirar as lições necessárias da experiência de Sanders. Não se trata, em sua raiz, de provar a falência de Sanders como indivíduo, mas, mais fundamentalmente, a falência da perspectiva política que ele representa - a do reformismo. Todo país capitalista avançado tem sua própria variedade de Sanders. Na Grã-Bretanha, existe o corbynismo, na Grécia, a experiência do Syriza e, na Espanha, Podemos.

A atitude do SEP [Socialist Equality Party, ou, Partido Socialista pela Igualdade] em relação à campanha de Sanders e seus primos em todo o mundo baseia-se em uma análise marxista científica e historicamente fundamentada, que decorre não do que as tendências ou os indivíduos políticos dizem sobre si mesmos, mas de sua história, programa e interesses de classe que eles representam.

O único caminho a seguir para a classe trabalhadora é com base em uma política genuinamente revolucionária - não uma "revolução política" para promover o Partido Democrata, mas uma revolução socialista para derrubar o capitalismo.

O Partido Socialista pela Igualdade está executando sua própria campanha presidencial para eleger Joseph Kishore e Norissa Santa Cruz para presidente e vice-presidente dos Estados Unidos. Estamos executando nossa campanha para levar nosso programa e nossa perspectiva internacional ao maior público possível de trabalhadores e jovens, nos Estados Unidos e no mundo. Convidamos todos os trabalhadores e jovens a participarem desta campanha e apoiarem essa luta.

*Publicado originalmente em 'World Socialist Web Site' | Tradução de César Locatelli



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