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A guerra ao terror dos EUA criou ao menos 37 milhões de refugiados

 

23/09/2020 15:18

George W. Bush falando sobre a guerra contra o terrorismo em Washington, DC, 2006. (Brendan Smialowski/Getty Images)

Créditos da foto: George W. Bush falando sobre a guerra contra o terrorismo em Washington, DC, 2006. (Brendan Smialowski/Getty Images)

 
Um novo estudo descobriu que a “guerra ao terror” dos EUA desalojou ao menos 37 milhões de pessoas ao redor do mundo. A esquerda dos EUA tem a responsabilidade de insistir por um internacionalismo que auxilie vítimas do imperialismo norte-americano – e que atue em solidariedade com trabalhadores independentemente do seu país de origem.

Na semana passada, o Projeto de Custos de Guerra da Universidade Brown divulgou um relatório que revelou uma estatística assustadora: desde a inauguração da guerra global ao terror de George W. Bush, “ao menos 37 milhões de pessoas fugiram de suas casas [como resultado] de oito das mais violentas guerras que o exército dos EUA conduziu ou participou”.

As intervenções no Afeganistão resultaram em 5.3 milhões de pessoas desalojadas; Paquistão, 3.7 milhões; Iraque, 9.2 milhões; Líbia, 1.2 milhões; Síria, 7.1 milhões; Iêmen, 4.4 milhões; Somália, 4.2 milhões; e nas Filipinas, 1.7 milhões. Esses números são “maiores do que o número de pessoas desalojadas por causa de qualquer outra guerra ou desastre desde ao menos o início do século 21 com a única exceção da 2ª Guerra Mundial”.

37 milhões é uma estimativa conservadora – o número total pode ser tão alto quanto 59 milhões, se não for ainda maior, já que nenhuma estimativa contabilizou o número de africanos que fugiram de suas casas devido a intervenções militares dos EUA no continente. Esses números também não dizem nada sobre o número de vítimas humanas causadas pelo desalojamento. Edward Said, o falecido teórico palestino que passou a maior parte de sua vida vivendo do lado de fora de sua terra natal, falou por muitos quando descreveu o exílio como “algo terrível de experienciar”.

É a irremediável ruptura forçada entre um ser humano e seu local nativo, entre o ser e sua verdadeira casa: sua tristeza essencial nunca pode ser superada. E enquanto é verdade que na literatura e na história existem episódios heroicos, românticos, gloriosos e até triunfantes na vida de uma pessoa exilada, esses não passam de esforços realizados para superar o desgosto debilitante do distanciamento. As conquistas do exílio são permanentemente menosprezadas pela perda de algo deixado para trás para sempre.

Enquanto muitos daqueles desenraizados pelos Estados Unidos irão, sem dúvidas, construir novas vidas em novos lugares, muitos permanecerão em “exílio permanente”, eternamente desconectados da, mas apegados à, sua terra natal - para pegar emprestada uma frase do historiador intelectual Martin Jay.

Não surpreendentemente, os EUA fizeram pouco para auxiliar as pessoas separadas de seus lares; desde 2002, o governo somente permitiu a entrada de cerca de 950.000 refugiados. Dito de outro modo, em números absolutos, os EUA receberam apenas 2.5% das 37 milhões de pessoas que desalojou por meio de suas desventuras militares – uma quantia patética, especialmente para uma nação incrivelmente rica que escolheu governar o mundo e que, por isso, é responsável pela sua situação.

O que pode ser feito?

Um dos elementos mais excitantes da campanha de Bernie Sanders à presidência era como ele centrava os não-estadunidenses. De acordo com a campanha de Sanders, sua administração pretendeu não somente auxiliar pessoas nos EUA, mas também “mudar os termos da economia global para elevar trabalhadores de todos os lugares”.

Essa mensagem humanista, que reconhece todas as pessoas como merecedoras de respeito e dignidade independentemente de onde nasceram, deve permanecer central em qualquer projeto de esquerda, e deve ser explicitamente conectada aos desastres ocasionados pelo imperialismo dos EUA. Estadunidenses têm responsabilidade com aqueles cujas vidas foram destruídas pelo nosso governo. Com a crise climática piorando, deveríamos também esperar um aumento exponencial no número de refugiados fugindo do Sul Global. Aqui, também, temos uma enorme responsabilidade.

Às vésperas da tentativa fracassada de nomeação de Sanders como candidato dos Democratas, parece que a esquerda social-democrata vai permanecer excluída da governância nacional no futuro próximo. Mas isso não significa que não podemos nos inspirar em gerações anteriores de radicais que usaram seu tempo fora do governo para desenvolver, articular e promover novos programas e políticas prontos para serem implementados quando finalmente alcançassem o poder. Para a esquerda de hoje, uma política para refugiados humana e justa deve ser uma dessas.

Como isso seria? Talvez envolveria oferecer anistia a qualquer pessoa desalojada como resultado do comportamento dos EUA, caprichosamente definido. Talvez envolveria realocar refugiados nos EUA, criando programas de emprego para milhões de estadunidenses que perderam seus empregos nas longas décadas de desindustrialização. Ou de modo mais ambicioso, talvez significaria desmantelar inteiramente o império dos EUA, que é causa de tanto desespero.

Independentemente dos detalhes, socialistas dos EUA não podem limitar suas visões e planos somente para os EUA. Desde 2001, os EUA lançaram uma série de guerras que destruíram as vidas das pessoas no mundo. Temos responsabilidade com essas pessoas – tanto porque nosso governo causou seu sofrimento e porque nós, como socialistas, devemos agir em solidariedade com os trabalhadores do mundo todo.

*Publicado orignialmente em 'Jacobin' | Tradução de Isabela Palhares



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