Pelo Mundo

A guerra estadunidense no Afeganistão acabou, mas e o Iraque e o Irã?

Vamos esperar que Biden tenha aprendido outra lição de história: que os EUA deveriam parar de invadir e atacar outros países

19/07/2021 12:17

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Créditos da foto: (Creative Commons)

 
Na base aérea de Bagram, vendedores de sucata afegãos já estão vasculhando o cemitério de equipamentos militares estadunidenses que era, até recentemente, a sede da ocupação de 20 anos dos EUA no país. Oficiais afegãos dizem que as últimas tropas estadunidenses saíram de fininho de Bagram na calada da noite, sem aviso ou coordenação.

O Talibã está expandindo rapidamente seu controle sobre centenas de distritos, normalmente por meio de negociações entre autoridades locais, mas também por meio da força quando tropas leais ao governo de Cabul se recusam a ceder seus postos avançados e armamentos.

Algumas semanas atrás, o Talibã controlava um quarto do país. Agora é um terço. Eles estão tomando controle dos postos fronteiriços e de grandes porções de territórios no norte do país. Incluindo áreas que já foram fortalezas da Aliança do Norte, uma milícia que evitou que o Talibã unificasse o país sob seu comando no final dos anos 90.

As pessoas de bem, em todo o mundo, esperam por um futuro pacífico para o povo afegão, mas o único papel legítimo que os EUA podem ter lá, agora, é para pagar reparações, de qualquer forma, pelos danos cometidos e pela dor e morte causadas. As especulações em meio à classe política e midiática-corporativa dos EUA sobre como o país pode continuar bombardeando e matando afegãos deveriam terminar. Os EUA e seu governo corrupto de marionetes perderam essa guerra. Agora é hora de os afegãos moldarem seu futuro.

E a outra interminável cena de crime estadunidense: o Iraque? A imprensa corporativa dos EUA somente menciona o Iraque quando nossos líderes, repentinamente, decidem que as mais de 150.000 bombas e mísseis lançados no Iraque e na Síria desde 2001, não foram suficientes. E que lançar mais alguns nos aliados iranianos vai apaziguar alguns gaviões em Washington sem iniciar uma guerra em larga escala com o Irã.

Mas para os 40 milhões de iraquianos, bem como os 40 milhões de afegãos, o campo de batalha mais estúpido que os EUA já escolheram é o país deles. Eles estão vivendo suas vidas inteiras sob os impactos duradouros da guerra de destruição em massa dos neoconservadores.

Jovens iraquianos foram às ruas em 2019 para protestar contra 16 anos de governança corrupta orquestrada pelos ex exilados para quem os EUA entregaram o país e os rendimentos de petróleo. Os protestos de 2019 foram direcionados contra a corrupção do governo iraquiano e o fracasso do governo em fornecer empregos e serviços básicos para a sua população, mas também contra as influências estrangeiras dos EUA e do Irã que estão presentes em todos os governos iraquianos desde a invasão de 2003.

Um novo governo foi formado em maio de 2020, liderado pelo primeiro-ministro britânico-iraquiano Mustafa al-Kadhimi, anteriormente chefe do Serviço de Inteligência do Iraque, e, antes disso, jornalista e editor do site de notícias com sede nos EUA, Al-Monitor Arab. Mesmo com seu histórico ocidental, al-Kadhimi iniciou investigações sobre a apropriação indevida de 150 bilhões de dólares nas receitas de petróleo iraquiano por oficiais dos governos anteriores, que eram, em sua maior parte, ex exilados ocidentais como ele. E ele está caminhando em uma linha tênue para tentar salvar seu país, depois de tudo o que já aconteceu, e evitar que se torne linha de frente em uma nova guerra entre EUA e Irã.

Ataques aéreos estadunidenses miraram nas forças de segurança iraquianas chamadas Forças de Mobilização Popular (PMF), que foram formadas em 2014 para lutar contra o Estado Islâmico, a força religiosa distorcida criada pela decisão dos EUA, somente dez anos após 11 de setembro, de liberar e armar a Al Qaeda em uma guerra ocidental à distância contra a Síria.

As PMFs agora contam com cerca de 130.000 tropas em 40 ou mais unidades diferentes. A maioria foi recrutada por partidos e grupos políticos iraquianos pró-Irã, mas são parte integral das forças armadas do Iraque e são reconhecidos por terem um papel importante na guerra contra o EI.

A mídia ocidental representa as PMFs como milícias que o Irã pode ligar e desligar como uma arma contra os EUA, mas essas unidades têm suas próprias estruturas decisórias e interesses. Quando o Irã tentou acalmar as tensões com os EUA, não conseguiu sempre controlar as PMFs. O general Haider al-Afghani, oficial da Guarda Revolucionária Iraniana no comando da coordenação das PMFs, recentemente pediu transferência para fora do Iraque, reclamando que as PMFs não estão dando atenção a ele.

Desde os assassinatos do general Soleimani do Irã e do comandante da PMF, Abu Mahdi al-Muhandis, realizados pelos EUA, em janeiro de 2020, as PMFs estão determinadas a tirar à força as ocupações remanescentes dos EUA do Iraque. Após o assassinato, a Assembleia Nacional iraquiana aprovou uma resolução pedindo para que as tropas estadunidenses saiam do Iraque. Seguindo os ataques aéreos estadunidenses contra unidades da PMF em fevereiro, o Iraque e os EUA concordaram, no início de abril, que as tropas de combate dos EUA sairiam logo.

Mas nenhuma data foi estabelecida, nenhum acordo detalhado foi assinado, muitos iraquianos não acreditam que as tropas estadunidenses sairão, tampouco confiam no governo Kadhimi para garantir sua saída. Conforme o tempo passou sem um acordo formal, algumas PMFs resistiram aos pedidos de calma do seu próprio governo e do Irã, e aumentaram os ataques às tropas estadunidenses.

Ao mesmo tempo, as conversas de Viena sobre o acordo nuclear JCPOA suscitaram medo entre comandantes da PMF de que o Irã possa sacrificá-los como moeda de troca em um acordo nuclear renegociado com os EUA.

Então, em nome da sobrevivência, comandantes da PMF se tornaram mais independentes do Irã, e cultivaram um relacionamento mais próximo com o primeiro-ministro Kadhimi. Isso ficou claro quando Kadhimi compareceu a um grande festival militar em junho de 2021 para celebrar o sétimo aniversário da fundação da PMF.

No próximo dia, os EUA bombardearam forças da PMF no Iraque e na Síria, fazendo com que Kadhimi e seu gabinete condenassem publicamente a ação como violação da soberania iraquiana. Após conduzir ataques retaliatórios, a PMF declarou um novo cessar fogo em 29 de junho, aparentemente para conceder à Kadhimi mais tempo para finalizar um acordo de retirada. Mas seis dias depois, alguns deles realizaram ataques com foguetes e drones em alvos estadunidenses.

Ao passo que Trump somente retaliou quando ataques com foguetes no Iraque assassinaram estadunidenses, um oficial sênior dos EUA revelou que Biden abaixou a fasquia, ameaçando responder com ataques aéreos mesmo quando ataques de milícias iraquianas não causarem mortes de estadunidenses.

Mas ataques aéreos estadunidenses somente levaram a um aumento das tensões e a um agravamento das ações da milícia iraquiana. Se as tropas estadunidenses respondem com ataques aéreos mais pesados, a PMF e os aliados iranianos da região podem responder com ataques mais espalhados nas bases dos EUA. Quanto mais isso agravar e quanto mais demorar a negociação de um legítimo acordo de retirada, mais pressão Kadhimi receberá da PMF, e de outros setores da sociedade iraquiana, para mostrar a porta para as tropas estadunidenses.

A justificativa oficial para a presença dos EUA, bem como a presença das tropas de treinamento da OTAN no Curdistão iraquiano, é que o EI ainda está ativo. Um homem bomba matou 32 pessoas em Bagdá em janeiro, e o EI ainda possui um forte apelo entre os jovens oprimidos da região e do mundo muçulmano. As falhas, a corrupção e a repressão de sucessivos governos pós-2003 no Iraque forneceram solo fértil.

Mas os Estados Unidos claramente têm outra razão para manter tropas no Iraque, como uma base avançada em sua guerra latente contra o Irã. É exatamente isso que Kadhimi está tentando evitar substituindo as tropas estadunidenses pela missão de treinamento da OTAN liderada pelos dinamarqueses no Curdistão iraquiano. Essa missão está sendo expandida de 500 para, ao menos, 4.000 forças, constituídas por tropas dinamarquesas, britânicas e turcas.

Se Biden tivesse retornado rapidamente ao acordo nuclear JCPOA com o Irã, as tensões seriam menores agora, e as tropas estadunidenses no Iraque já poderiam estar em casa. Ao invés, Biden obviamente engoliu o veneno da política de Trump sobre o Irã ao usar a “pressão máxima” como forma de “influência”, agravando um jogo interminável que os EUA não podem ganhar – uma tática que Obama começou a encerrar seis anos atrás assinando o JCPOA.

A retirada dos EUA do Iraque e o JCPOA estão interconectados, duas partes essenciais de uma política para aprimorar as relações EUA-Irã e encerrar o papel intervencionista desestabilizador e antagonista dos EUA no Oriente Médio. O terceiro elemento para uma região mais estável e pacífica é o engajamento diplomático entre Irã e a Arábia Saudita, no qual o Iraque de Kadhimi tem um papel importante como mediador principal.

O destino do acordo nuclear do Irã ainda é incerto. A sexta rodada de diplomacia em Viena terminou em 20 de junho, e nenhuma data foi marcada para a sétima rodada ainda. O compromisso do presidente Biden de retornar ao acordo parece mais instável do que nunca, e o presidente-eleito Raisi do Irã declarou que não vai deixar os estadunidenses estenderem as negociações.

Em uma entrevista em 25 de junho, Blinken, secretário de Estado dos EUA, elevou a aposta ao ameaçar sair das conversas de vez. Ele disse que se o Irã continuar a rodar centrífugas cada vez mais sofisticadas, ficará muito difícil para os EUA retornarem ao acordo original. Ao ser perguntado se ou quando os EUA podem se afastar das negociações, ele disse, “não posso colocar uma data, mas está próxima”.

O que deveria estar se “aproximando” é a retirada das tropas estadunidenses do Iraque. Enquanto a guerra no Afeganistão é vista como a “guerra mais longa” que os EUA já travaram, o exército estadunidense tem bombardeado o Iraque por 26 dos últimos 30 anos. O fato de que o exército dos EUA ainda está conduzindo “ataques aéreos defensivos” 18 anos após a invasão de 2003 e quase 10 anos desde o fim oficial da guerra, prova o quão ineficiente e desastrosa tem sido a intervenção militar dos EUA. Biden certamente parece ter aprendido a lição no Afeganistão de que os EUA não podem bombardear para alcançar a paz, e nem podem instalar governos de marionetes como quiserem. Quando ridicularizados pela imprensa sobre o ganho de controle do Talibã com a saída das tropas estadunidenses, Biden respondeu,

"Para aqueles que argumentaram que deveríamos ficar apenas mais seis meses ou mais um ano, eu peço para considerarem as lições recentes de história... quase 20 anos de experiência nos mostrou, a atual situação de segurança somente confirma, que ‘apenas mais um ano’ de guerra no Afeganistão não é uma solução, mas sim uma receita para ficar lá indefinidamente. É direito e responsabilidade somente do povo afegão decidir seu futuro e como querem comandar seu país.”

As mesmas lições de história se aplicam ao Iraque. Os EUA já causaram tanta morte e miséria ao povo iraquiano, destruíram tantas lindas cidades, e despertaram tanta violência sectária e fanatismo do Estado Islâmico. Assim como a pulverização da base de Bagram no Afeganistão, Biden deveria desmantelar as bases imperiais que ainda restam no Iraque e trazer as tropas de volta para casa.

O povo iraquiano tem o mesmo direito de decidir sobre o próprio futuro como o povo afegão, e todos os países do Oriente Médio têm o direito e a responsabilidade de viver em paz, sem a ameaça de bombas e mísseis estadunidenses sempre pairando sobre suas cabeças e de suas crianças.

Vamos esperar que Biden tenha aprendido outra lição de história: que os EUA deveriam parar de invadir e atacar outros países.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Isabela Palhares





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