Pelo Mundo

A guerra na Líbia e as armas que restam a Kadafi

01/04/2011 00:00

Maurizio Matteuzzi - Il Manifesto

Il Manifesto

Quem vê a Praça Verde de Trípoli, com suas marcas ainda visíveis do império turco-otomano e da posterior dominação colonial do fascismo italiano, ocupada dia e noite pelos rumorosos apoiadores de Kadafi com seus posters do Coronel e bandeiras verdes (e não raro kalashnikovs), pode acreditar que na Líbia não há oposição. Ou que a oposição é apenas, como os porta-vozes do governo líbio não cansam de repetir aos incrédulos jornalistas estrangeiros que cobrem a guerra desde a capital da Jamahiriya, uma insignificante minoria de “traidores” concentrada no leste do país – a indócil Cirenaica, baluarte do Islã militante dos “Irmãos Muçulmanos” e da fraternidade senussita do rei Idriss, o fantoche elevado ao trono pelos ingleses e derrubado pelo golpe branco dos 12 “oficiais livres” em 1969 – e manobrada por uma “conspiração” do Ocidente (sobretudo Estados Unidos, França e Inglaterra) que gostaria de transformar Bengazi em um “Emirado islâmico” na margem meridional do Mar Mediterrâneo, a dois passos da “Fortaleza Europa”. Uma aliança perversa e aparentemente “impossível”, mas já experimentada mesmo recentemente (o Afeganistão invadido pelos soviéticos, a guerra da Bósnia...).

Naturalmente, a imagem que se faz da Líbia a partir da Praça Verde – ou mesmo de Trípoli, onde Kadafi conserva um apoio popular aparentemente sólido – é muito limitada e parcial para explicar as razões profundas de uma revolta que se transformou rapidamente em uma guerra civil e a seguir em uma (nova) “guerra humanitária” em escala internacional (para Kadafi, uma “cruzada colonialista”), a quarta proclamada pelo Ocidente no vintênio seguinte ao fim oficial da “guerra fria” (duas no Iraque, Somália, Afeganistão).

A Líbia deve o seu nome aos gregos, que assim chamaram todas as terras conhecidas a oeste do Egito. Nome que foi exumado somente em 1934 quando o governo fascista italiano decidiu unificar as três províncias da Tripolitânia, do Fezzan e da Cirenaica. Foi sempre uma terra de conquista, mas muito dura de conquistar, e sempre um lugar estratégico, mesmo antes que, no início dos anos 50, fosse descoberto o petróleo. Um monte (antes da guerra de fevereiro, produzia 1,6 milhão de barris por dia, tendo as maiores reservas comprovadas da África).

A Líbia, o quarto maior país da África, é o divisor de águas entre o Magreb, o Ocidente árabe que começa no Marrocos, e o Mashreq, o Oriente árabe que chega até a Síria. A linha imaginária de fronteira corta a Líbia em duas e corresponde, grosso modo, à Tripolitânia a oeste (com o Fezzan ao sul) e a Cirenaica a leste. As duas regiões em guerra desde 17 de fevereiro último, que poderiam corresponder a dois novos países. O tabu da intangibilidade das fronteiras da África, traçadas o mais das vezes arbitrariamente pelo colonialismo, já foi derrubado em 93 com a secessão da Eritréia da Etiópia e, agora, com a do Sudão do Sul do Sudão. A Líbia poderia ir atrás. Por enquanto, é ainda “fanta-política”. Amanhã, sabe-se lá.

É uma das hipóteses entre as tantas que se manejam nestas horas em que não se vê ainda uma solução plausível para o conflito e “a coalizão dos de boa vontade” [“la coalizione dei volenterosi”] está dividida sobre tudo.
Dividida sobre o comando das operações (França? Estados Unidos? Otan?), sobre os objetivos finais (apoio incondicionado aos rebeldes “pro-democracy” de Bengazi? Mas e se no fim não fossem todos assim tão “pro-democracy” ou todos “facebook boys” e se confirmassem os temores da inteligência dos EUA que lembra que o leste da Líbia é a região que, de todo o mundo árabe-islâmico, mandou mais “jihadistas” e kamikazes ao Iraque e ao Afeganistão?), sobre a “exit strategy” (uma solução apenas militar a encerrar-se não com um possível exílio, mas com o “regime change” e a eliminação física de Kadafi? Uma solução política, mas a ser inventada, como recomendam os BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China –, Turquia, Alemanha e a constrangidíssima Itália de Berlusconi?).

A Itália, desde sempre parceira privilegiada da Líbia de Kadafi, é aquela que provavelmente levará a pior. Em 2008, Berlusconi tinha finalmente encerrado o contencioso entre os dois países recebendo Kadafi em Roma, com pompa e circunstância, depois da assinatura de um acordo que garantia, de um lado, desculpas e indenizações pelas atrocidades cometidas pelos italianos nas três décadas de colonização (1911-1942) e, de outro, o fornecimento de petróleo (a Líbia abastece 26% da demanda energética italiana) e a promessa de Kadafi de interromper (com todos os meios, até os mais brutais e desumanos) a corrida migratória dos “boat-people” do Magreb e da África subsaariana em direção à Itália.

A Líbia está espremida entre a Tunísia a ocidente e o Egito a oriente. É claro que o “vento do Magreb” partido de Tunis em dezembro, que sopra também sobre o Marrocos e a Argélia e que se abateu como um furacão sobre o Cairo em janeiro, tendo varrido o estorvo de velhos entulhos em ligação direta com os Estados Unidos (e Israel) como Ben Ali e Mubarak, chegaria também à Líbia, onde também o “Qaid” (o Guia) Muammar Kadafi esbanja, há 42 anos, um poder absoluto impossível de esconder atrás do véu do suposto “poder das massas” anunciado no “Livro Verde”.

O vento partido do Magreb ultrapassou o Magreb e ergueu uma onda que seguiu e seguirá adiante, mesmo que não esteja ainda claro em que praia acabará por depositar-se. Nem se será um tsunami ou apenas uma marolinha suficiente para misturar um pouco as cartas, mas deixando-as nas mãos dos mesmos de sempre depois de alguma forma de “maquiagem democrática”. O Iêmen (que será o próximo elo na cadeia a ceder), o Bahrein (espremido entre a Arábia Saudita e o Irã, salvo por enquanto pelo contingente militar saudita, uma “ajuda fraterna” que não suscitou nenhum protesto “humanitário” do Ocidente, e sobretudo pelo fato de ser a sede da V frota dos EUA), a Síria da dinastia Assad, a frágil Jordânia e o fragilíssimo Líbano, o Iraque da guerra inacabada, a Arábia Saudita (gigante dos pés de argila, grande exportador de petróleo para os Estados Unidos e de “jihad”, a guerra santa islâmica, contra os Estados Unidos), e as petro-monarquias do Golfo (pequenos estados petrolíferos e paraísos financeiros, em geral inventados e presenteados pelo colonialismo, de base familiar e tribal). Até a Palestina, ocupada e violentada por Israel no silêncio culposo do Ocidente (que busca encontrar a força para lançar a terceira Intifada) e a própria Israel, lançada em uma deriva irrefreável de extrema direita (que observa silenciosa e desconfiada a queda como pinos de boliche dos “inimigos” árabes que lhe garantiam o status quo e esquenta os motores para o seu verdadeiro objetivo, o Irã). Ninguém pode se dizer protegido do vento do Magreb.

É por isto que a partida que está sendo jogada na Líbia é decisiva. E quanto mais Kadafi “resiste”, mais crescem os riscos.

Tudo leva a crer que o coronel, mesmo que esteja se revelando um osso muito mais duro de roer do que Mubarak e Ben Ali, seja queimado. Mas ele sabe bem que a Líbia é um país diferente da Tunísia e do Egito – exército fraco, partidos políticos e sociedade civil inexistente, estrutura tribal forte – e tem, da sua parte, três armas poderosas para usar. O petróleo, a ameaça do recurso (ou do retorno) ao terrorismo, a imigração em massa em direção à “Fortaleza Europa” – da qual pode reabrir as torneiras.

A “guerra humanitária” – para “proteger a vida de civis”, para “exportar a democracia” (de novo!) e para meter as mãos no petróleo libanês, 75% do qual está na Cirenaica “liberada” pelos rebeldes – que os Estados Unidos, França e Inglaterra deflagraram contra Kadafi não vai parar. Mesmo que seja uma “guerra humanitária” com uma cobertura da ONU e da OTAN apressada demais e voltada “ad personam” para conferir-lhe alguma legalidade (por que Kadafi sim e não o Iêmen, o Bahrein ou a Costa do Marfim com o seu milhão de civis em fuga do conflito entre os dois presidentes Gbabo e Ouattara?).

Kadafi, com toda probabilidade, está queimado, mas a partida que se joga na Líbia não acabou ainda. O seu resultado final determinará a verdadeira dimensão daquela que foi chamada “a primavera árabe”.

Em jogo não estão apenas as reeleições de Sarkozy e Obama – o Nobel da paz que já tem nas costas duas guerras em andamento, uma na qual promoveu uma espetacular escalada e outra começada por ele, sem contar o golpe de 2009 em Honduras – mas o futuro arranjo da área provavelmente mais estratégica do mundo, pelo menos enquanto não acabar o petróleo e for o teatro do encontro-confronto da civilização com o Islã.

Tradução: Rodrigo Torres Guedes

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