Pelo Mundo

A histeria contra Sanders toma conta dos centros de poder dos EUA

Os meios de comunicação, Wall Street e o Partido Democrata veem sua possível nomeação com extrema preocupação

01/03/2020 14:23

Sanders, durante um comício eleitoral em Winston-Salem, Carolina do Norte (Jonathan Ernst/Reuters)

Créditos da foto: Sanders, durante um comício eleitoral em Winston-Salem, Carolina do Norte (Jonathan Ernst/Reuters)

 
O apresentador Chuck Todd comparou seus seguidores com os “camisas marrons” que protegiam os paramilitares da SSA na Alemanha de Hitler. O comentarista Chris Matthews sugeriu que seu modelo socialista, se implantado nos EUA, realizará “execuções no Central Park”. E o estrategista democrata James Carville disse que se ele ganhar a nomeação, seu partido será literalmente aniquilado. “Se seguirmos o exemplo do Partido Trabalhista Britânico e nomearmos nosso Jeremy Corbyn, será o fim dos tempos”. Todas essas afirmações saíram da MSNBC, teoricamente a cadeia de notícias mais progressista do país, mas por sua vez a mais combativa frente a eventual candidatura de Bernie Sanders, o homem que lidera as primárias democratas.

Ainda falta para sabermos quem será o candidato, mas a potencial nomeação de Sanders está desatando uma histeria que vemos em pandemias como a do coronavírus. Ela percorre pelos centros de poder do país, desde os meios generalistas até o escritório do Washington Post e passando pelo aparato democrata. “Eu não sei quem Bernie tem apoiado esses dias, nem sei a que se refere quando fala de socialismo. Um dia é a Dinamarca, mas o que pensa de Castro? É uma boa pergunta”, disse Matthews há duas semanas, antes de comparar a vitória do senador em Nevada com a ocupação nazista na França, palavras pelas quais teve que se desculpar. De acordo com um estudo do ‘In These Times’ sobre a cobertura da MSNBC nessa campanha, Sanders é o candidato que recebeu maior cobertura negativa e a quem dedicaram menos tempo.

Um padrão generalizado

Outros grandes meios estão sendo menos histéricos, mas o padrão é generalizado, uma repetição do que aconteceu em 2016, quando o senador de Vermont competiu contra Hillary Clinton. Na época, o Washington Post chegou a publicar 16 artigos negativos contra Sanders. Seu competidor novaiorquino reconheceu que sua cobertura havia deixado bastante a desejar. “O tom de alguns artigos é lamentavelmente depreciativo e sarcástico em algumas ocasiões”, escreveu a ombudsman do NYT. Somente Donald Trump recebeu uma cobertura mais hostil naquela campanha.

O mais chamativo é que Sanders, que se define como um “socialista democrático”, não é um recém chegado. Tem 30 anos de Congresso. E seu estilo político está longe de ser o de um radical alérgico a qualquer compromisso. Não pretende nacionalizar meios de produção e, de maneira consistente, vem condenando o autoritarismo de todos os símbolos, como fez no debate de terça, quando definiu Cuba e China como “ditaduras”. Mas também é certo que aspira balançar o sistema para reduzir a desigualdade, taxando grandes fortunas e a “especulação” em Wall Street, desprender monopólios tecnológicos, dando voz aos trabalhadores nos conselhos diretivos das empresas e aumentando o poder dos sindicatos.

“Estamos preparados para ser o pior pesadelo dos multimilionários e defender as famílias trabalhadoras desse país”, dizia em suas reuniões. O nervosismo dos referidos é evidente. “As prescrições de Bernie serão desastrosas para os mercados. Irão gerar uma enorme ansiedade”, disse um estrategista da agência AGF Investimentos à CNN. Também foi previsto há quatro anos que as bolsas cairiam se Trump ganhasse e o resultado foi o contrário.

O inimigo em casa

O obstáculo mais iminente de Sanders se encontra no próprio partido que aspira representar, depois de uma vida inteira como independente. De acordo com o “Times”, os superdelegados democratas estão dispostos a sacrificar a paz social no partido para impedir que Sanders seja nomeado se chagar à convenção sem a maioria dos delegados necessários para sua coroação. Um cenário que deixaria o desenlace nas mãos dos líderes do partido, os chamados superdelegados.

A opinião da maioria deles é que a candidatura do socialdemocrata daria a reeleição para Trump de bandeja e poderia fazer com que o partido perca também o controle da Câmara dos Deputados. Uma tese que, obviamente, os simpatizantes de Sanders não aceitam.

*Publicado originalmente em 'El Periódico' | Tradução de Isabela Palhares

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