Pelo Mundo

A história que os conservadores estão recebendo sobre Seattle é uma completa ficção

 

15/06/2020 15:22

Uma cena real da

Créditos da foto: Uma cena real da "Zona Autônoma do Capitólio" de Seattle: caminhões de alimentos, água grátis, murais e nenhum incêndio

 
Durante dias, Donald Trump tem tuitado sobre a "tomada anarquista" de Seattle. Segundo Trump, a cidade está sendo "pilhada" por "terroristas" que estão promovendo incêndios-assassinatos pela cidade. Esses "lunáticos armados" "tomaram uma grande cidade americana", e o que mais frustra Trump é que o prefeito e o governador nem parecem perceber que sua cidade está falhando. Além disso, a mídia está conduzindo um "apagão total de insanidade" em Seattle. Trump ordenou que a prefeita Jenny Durkan "retome a cidade rapidamente" e prometeu que, se não fizerem algo, ele fará!

A "zona autônoma", formada por manifestantes pacíficos em uma pequena área nas vizinhanças de Capitol Hill em Seattle, foi descrita por Durkan como um exemplo de liberdade de expressão e patriotismo genuíno; e pelo The New York Times como "parte festival de rua, parte comuna".

Mas o que os espectadores da Fox News e de outras mídias conservadoras estão vendo é algo muito, muito diferente. Em toda a mídia conservadora, Seattle está sendo retratada como uma cidade em caos, sitiada e simplesmente queimando. De onde a mídia conservadora está tirando isso? Fácil ... eles estão inventando.

A Zona Autônoma de Seattle cresceu após os protestos contra o assassinato policial de George Floyd, e também em resposta a ações agressivas tomadas pela polícia de Seattle (tanto nas últimas duas semanas quanto em protestos anteriores) e está ativa desde segunda-feira. A reação das autoridades da cidade variou de tolerância a cooperação e até incentivo. As autoridades da cidade ajudaram a garantir que os serviços dentro da área continuem e que os suprimentos de saneamento estejam assegurados. O chefe de polícia de Seattle continuou a expressar frustração, principalmente depois que a polícia desertou e cobriu a delegacia com placas de madeira, mas o perímetro da “Zona Autônoma” permanece, em grande, parte aberto para as pessoas irem e virem e está livre das fileiras de forças fortemente blindadas vistas em torno dos protestos por todo o país. Na maioria das vezes, as autoridades locais parecem satisfeitas em simplesmente esperar, desde que a área permaneça pacífica.

Mas ‘pacífico’ não é o que os telespectadores da Fox News ou da OAN estão vendo, o que os visitantes dos blogs de direita estão lendo ou o que os ouvintes da vasta gama de estações de rádio de direita estão ouvindo. Nessas fontes, a Zona Autônoma não é uma área pequena onde as pessoas estão distribuindo pizza de graça e construindo uma ínfima horta comunitária - é um viveiro de violência onde prédios estão queimando e pessoas morrendo.

Para apoiar essa posição, a Fox News não tem apenas inventado histórias, mas também tem produzido imagens e vídeos. Como o Seattle Times relata, a Fox “alterou digitalmente” as imagens para fazer parecer que a situação na área está terrível. Isso inclui reunir elementos de várias imagens para criar uma colagem enganosa, levantar sinais e símbolos de uma área para impor a outra, e isso significa que muitas das imagens que a Fox está usando, para apresentar a imagem do caos em Seattle, … nem mesma são de Seattle.

Imagens que parecem mostrar homens mascarados e armados dentro da Zona Autônoma são, de fato, composições tiradas em datas e lugares diferentes. Prédios em chamas são, na verdade, de fotos tiradas em St. Paul durante os primeiros dias dos protestos lá. Algumas das fotos que a Fox fundiu em sua “cobertura” da Seattle atual têm duas semanas - ou elementos de fotos de duas semanas foram inseridos nas cenas atuais para fazer a situação parecer pior do que é.

A Fox também continuou a denunciar, e outras fontes repetiram, alegações de que empresas dentro da Zona Autônoma estão sendo extorquidas por pagamentos de proteção, mesmo depois que o chefe de polícia de Seattle investigou essas alegações e não encontrou nada.

Os manifestantes dentro da Zona Autônoma são anarquistas no sentido de que não há liderança formal, o que levou a inúmeras vozes que alegam falar pelo grupo e a emitir várias listas de demandas (algumas das quais apareceram no Daily Kos). Mas as demandas mais proeminentes dos que lá estão são diminuir os recursos para a polícia de Seattle, acusações contra policiais envolvidos em violência contra negros, reparações para vítimas de violência policial passadas e dispensa de acusações contra manifestantes. Nos últimos dias, representantes da polícia se encontraram com alguns da Zona Autônoma na esperança de encontrar pontos de acordo.

Nas últimas décadas, a polícia de Seattle esteve envolvida em atos repetidos de violência - desde um ataque a manifestantes pacíficos durante um protesto de 2019, a uma prisão brutal e desnecessária capturada em vídeo, até abrindo processos judiciais para poder usar mais violência. O departamento de polícia tem uma reputação de longa data, e merecida, por usar níveis desnecessários de força. É por isso que, sob o governo Obama, o departamento foi investigado por violações dos direitos civis e obrigado a tomar medidas para resolver problemas sistêmicos. Nesse contexto, muitos em Seattle, incluindo muitos funcionários públicos de Seattle, parecem abertos à ideia de tornar a área de Capitol Hill um experimento contínuo de operação sem polícia e de como os recursos comunitários compartilhados podem ser misturados com lojas e empresas comuns.

Os conservadores não estão contrariados porque Seattle está queimando. Eles estão aterrorizados porque não está.

*Publicado originalmente em 'Daily KOS' | Tradução de César Locatelli

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